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sexta-feira, 27 de maio de 2011

A História das Lutas Populares cantada pelo Grupo Face da Morte




Luis Carlos Costa Nascimento


Face da Morte é um grupo de rap e hip hop brasileiro criado em 1995, na cidade de Hortolândia, interior de São Paulo.

O grupo é formado por três integrantes: Aliado G (vocal), Mano ED (vocal) e Viola (DJ), onde o último é responsável por toda a parte musical dos shows, com mixagens, colagens e screcths ao vivo.

Formado em 1995 a partir da desistência de outros grupos, todos com grande bagagem no movimento Hip Hop. Graças ao seu sucesso, hoje o grupo faz 12 Shows por mês, por todo o interior de SP e Capital, inclusive representando o rap em eventos como as Conexões da 105, 1 FM, que reúnem os maiores nomes do cenário musical, com públicos de 8.000 pessoas em média. A vendagem expressiva dos dois primeiros álbuns, chamou a atenção de gravadoras e distribuidoras, foi quando o selo Face da Morte Produções assinou distribuição com a RDS. Hoje os CD’s são encontrados em todo o Brasil e alguns países do Mercosul, Europa e Ásia.

Em 1995 foi lançado o 1º álbum do grupo Face da Morte com o título Meu Respeito Eu Não enrola Numa Seda, onde se destacaram as músicas Carruagem da Morte e Quatro Manos, que se revezaram por 60 dias em 1º lugar na parada do programa MISTER RAP (rede CBS) projetando o grupo no cenário do Rap Nacional e alcançando a marca de 15.000 cópias só no ano de 1996.

A solidificação do grupo se concretizou em 1998 quando foi lançado o álbum Quadrilha da Morte onde se destacaram as faixas: O Crime, A Carta e o hit A Vingança que se manteve por 200 dias entre as 10 mais da 105, 1 FM (Rádio de SP). O álbum contou ainda com a regravação de Carruagem da Morte e uma versão de Quatro Manos. O sucesso nas FMs se traduziu em vendagem que ultrapassou a marca de 30.000 cópias (Totalmente Independente). O terceiro trabalho do grupo lançado em 1999, intitulado o Crime do Raciocínio veio altamente crítico, abordando a mídia, política, polícia, e crise social em geral. Foi lançado em Dezembro de 1999 e ultrapassou a marca das 45.000 cópias já no primeiro mês, alcançando com isso, a posição de CD mais vendido do Rap Nacional no 1º trimestre de 2000. Tem como destaque as músicas: Televisão (Conta com a participação de GOG), Tático Cinza (Conta com a participação de Douglas do Realidade Cruel) e o grande sucesso, que arrebentou nas rádios, Bomba H.

Além destes dados fornecidos pelo http://pt.wikipedia.org/wiki/Face_da_Morte, destacaria quatro outras letras que fazem parte de uma mesma história. Essa História é a das Lutas Populares ocorridas no Brasil. O Grupo Face da Morte classificou tais lutas a partir dos meses do ano. Assim, temos a primeira letra: Janeiro, Fevereiro, Março; a segunda: Abril-Maio, Junho; a terceira: Julho, Agosto, Setembro; Por fim, a quarta: Outubro, Novembro e Dezembro.

Não vou nesta postagem fazer conclusão, mas, as pessoas que tiverem paciência de ouvir as músicas e acompanhar as letras, tirarão por si só suas conclusões. E fica, aqui, o convite, para contribuir com o blog http://opovonalutafazhistoria.blogspot.com/.

Só mais um lembrete, no vídeo estão às quatro músicas.

101. Face da Morte - Janeiro-Fevereiro-Março

Clik no seu rádio
Bum, volume máximo
Acesso ilimitado a internet da favela
Face da Morte.com você que faz parte dela
Minha missão é a informação, então se liga sangue bom
Que eu cheguei pra resgatar algumas datas importantes da memória popular
O povo que não foi herdeiro
Em 21 de Janeiro, 1984, realizaram o ator, fundando o MST, pode crer, fruto popular pela reforma agrária, hoje estar organizado em 24 Estados, empunhado suas bandeiras, levando seus estandartes.
Aproveito pra citar Manuel Calafates, Pacifico Licutan, isso sim é que é que é bambambam.
Ainda tem Belchior diz que lutar é bem melhor.
Enfim não esqueci GG Marrir, Luis Salin, me lembro de vocês na revolta do Malês.
Tenho respeito pelos cincos de 1835, pelos lados da Bahia, na terra do meu avô, lutaram pela honra e liberdade dos Magos.
Pedro Ivo, hum, inesquecível, quebrou correntes, lutou por nossa gente, não respeitou barreiras, o importante líder da Revolução Praieira, 1849, que a esperança se renova, em Pernambuco, no Recife, maluco acredite, que na terra do sol, um Manifesto exigia voto livre universal, mais uma vez nosso povo, lutando com arrocho em busca de dignidade, evadiram a cidade enfrentando a repressão na luta por trabalho e liberdade de expressão.
1874, revolução, feitas peste se espalhou pelo Nordeste, Rio Grande do Norte, Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Ceará, aumentaram os impostos, mudaram as medidas, não concordando com aquilo, surgiu então a Revolta chamada de Quebra-Quilo.
Beato Severino, discípulo de Padre Cícero, em 1937, pos lado de São Francisco, na Bahia, bateu de frente com a oligarquia dos Vianas, em pleno natal, fundou a comunidade chamada Colher de Pau ou Pau de Colher, chamem como quiser o importante é o brilho.
Manuel Fiel Filho funcionário da Metal, arte de São Paulo, é preso em seu lugar de trabalho, em 17/01/1976, vejam vocês, encontrado três dias depois, torturado e morto num dos muitos calabouços, onde calavam a voz do povo.
Brasileiro, e por aqui encerro janeiro.

Eu não sou daqui - Marinheiro só - Eu não tenho amor - Marinheiro só - Eu sou da Bahia - Marinheiro só - Em são Salvado - Marinheiro só

Fevereiro muito abalo
No eixo Rio - São Paulo
Na luta contra a escravidão e a matança, os povos indígenas formaram uma grande aliança – Confederação dos Tamoios – contou com apoio Tupiniquim, Tupinambá, Karijó e Goianá, liderados por Emberé e Curambebé, a luta segue, em 1562 a 1567.
Na Guerra das Missões, 1756, vejam vocês, no Rio Grande do Sul uma matança tão terrível quanto à do Carandiru, lutando contra as tropas Luso-Espanholas sob um saúdo negativo 2500 índios mortos de uma só vez, fora os que morreram de 1553 a 1556.
Não sei se você sabia, 1814, em Salvador, Bahia, outra rebelião explodiu famoso levante negro, futuro do desespero, ansiedade, cede de liberdade, justiça, de 1807 a 1830, cheio de luta e dor, além de Salvador, Santo Amaro, Nazaré, Itaparica, Cachoeirinha, Ilhéus, porque a liberdade não cai do céu se conquista no dia a dia.
1975, foi fundado o movimento feminino pela anistia formado por mães e filhas de presos políticos.
Aflitos, atritos greves no ABC, o sindicalismo moderno, a esquerda do MDB, em 1980, fizeram nascer o PT

Eu não sou daqui - Marinheiro só - Eu não tenho amor - Marinheiro só - Eu sou da Bahia - Marinheiro só - Em são Salvado - Marinheiro só

Começo março já citando arregaço
1981, a Greve da PM no governo ACM, o próprio órgão repressor padeceu com a repressão, convocados então os fuzileiros navais a fim de estabelecer a paz da elite, atiraram no piquete matando um tenente grevista.
Em 1922 é fundado o Partido Comunista do Brasil, quem te vê quem te viu, fruto da elevação do grau de organização e consciência da classe operaria a beira da falência.
Por ela que eu trabalho, sofro, choro e sinto, mas sinto que 1935, Aliança Nacional Libertadora nasceu pra luta contra a classe opressora.
A greve dos 300 mil, em 1953, contou com os testes, metalúrgicos, marceneiros, videiros e os gráficos.
Em 1979, 180 mil operários entraram em greve em São Bernardo dos Campos.
Revolta de Porecatú, em 1951, latifúndios pra lá, posseiros pra cá, lutando pela terra no Norte do Paraná.
1968, Edson Luis foi morto pela polícia do Rio, sua morte gerou a passeata dos cem (100) mil
1987 a maior greve dos bancários do Brasil, 750 mil mobilizados, por aqui encerro março.
Pergunta do Jornalista: Eu queria que o senhor falasse pra gente o nome do senhor, onde é que está acampado e por que o senhor esta participando desta caminhada?
Resposta do entrevistado: Muito bem, João Marciliano de Carvalo, João sem terra das mãos arrebentadas, to acampado em promissão na terra desapropriada pra nós trabanhador trabaia, nee, e hoje estou participando dessa caminhada porque o governo não quer liberar o que já é nosso, a terra já tá desapropriada, já tamos na área e ele que se arda, porque ele ou abra mão da terra ou vamos fica lá mesmo, por que trabaia pra nossos filhos comer, nos precisamos trabaia. Por que? Se nós somos trabaiador não presta, se nos fomos rouba não preta. E como agente é bom pro governo? Então. Então o negocio é esse agora agente tem que corre pra quebrar ou ele ache bom ou ache ruim, ele que se cuide. Por que agente estamos cuidado faz é muito tempo.
Pergunta do Jornalista: Você que terra pra que Silvana?
Resposta do entrevistado Pra planta e colher. Tô pra vê se vê se agente consegue um pedaço de terra pra pranta, pra gente não morre de fome, case as coisas tudo ta cara, todo dia que agente, vai no mercado o preço ta almetado, pra isso é melhor a gente pranta pra gente, mio que agente ir lá no mercado compra coisa cara. Quero a terra pra pranta, comer comida. É porque agente queremos terra.

102. Face da Morte - Abril-Maio-Junho

No mês de abril a casa caiu
Eu vou lembrar a vocês
1996, Eldorado dos Carajás, 200 polícias espalharam o medo, causaram tormento, invadiram o acampamento do MST, prontos pra bater e pra matar, 19 trabalhadores morreram por lá.
Guerrilha do Araguaia, no Pará, começou em 72, terminou em 1974, com a morte dos guerrilheiros muitos deles degolados, na luta contra a Ditadura, um grande movimento armado. 69 guerrilheiros contra 20 mil das Forças Armadas da pátria amada Brasil, ouviu?
1954, camponeses contra latifundiários e polícia militar do Estado de Goiás, Tombas e Formosos, eu sigo orgulhoso, o líder José Porfírio, de 1964 foi cassado, preso e torturado.
Já ouviu falar em Lamarca, mais um que deixou marcas, ex-capitão do exército, abandonou a patente pra lutar por nossa gente, revolução ele queria, fugiu do 4º Regimento de Infantaria com um caminhão cheio de armas, enquanto o país cantava Pra Frente Brasil, Lamarca metia bala, lutava nas trincheiras do Vale da Ribeira.
1959, saindo das trincheiras, já estamos em maio, Revolta da Cantareira, os grevistas enfrentavam a marinha brasileira.
1823 a 1831, o sentimento comum anti-colonial levou ao choque mortal, Matamarouto explodia no Estado da Bahia, depois das surras, das prisões das famosas rebeliões, 1888 abriram as portas das senzalas, forçosamente assinada Lei Aérea, que não veio de graça, mas do primeiro movimento político de massa que se viu na nossa amada pátria amada Brasil.
1978, no ABC Paulista, outra pagina era escrita, mais de 100 mil operários no dia 1 de Maio, na manifestação contra a prisão do Lula chague bom, Devanir Ribeiro, (...), Djalma Bom, entre outros, lideres do povo.
1998, o cacique Chucuru, Francisco de Assis Araujo, foi morto em Pesqueira, Pernambuco, lutando pelas terras ancestrais de seu povo.
Eu juro que em junho, 1893, mais uma vez, o sonho de liberdade se tornou realidade, Velho Antonio Conselheiro, guerreiro, fez da fé o seu escudo, fundou o Belo Monte, conhecido por Canudos.
Aproveito este mês pra citar a vocês algumas das proezas de nossa imprensa negra que trazia conteúdo realidade brasileira, Clarim da Alvorada, Chibata, O Exemplo, Quilombo, A Liberdade, O Alfinete, Medelique, A Raça, Alvorada e a Voz da Raça, levando informação em lar em lar.
Face da Morte.com é só clicar, primeiro semestre na história da memória popular.

103. Face da Morte - Julho-Agosto-Setembro

Em Julho de 1934, eu relato a morte do lendário Padre Cícero que continua vivo nas orações, nas preces, no coração dos irmãos lá do Nordeste.
Em 1938, 28/07, acontece a emboscada comanda por José Bezerra matando o capitão Virgolino Ferreira, o Lampião, que foi o rei do Cangaço no Sertão.
1969, o ano que levaram o cofre com 2 milhão e meio de dólares da casa de uma amante do governador Ademar, 13 homens da Vara Palmares realizaram a empreitada o dinheiro fortalece ainda mais a luta armada. No ano seguinte, nas escadas do Teatro Municipal, é lançado em Minibú, em São Paulo, capital.
Em 1926, no mês de agosto segue a luta do povo, vamos de novo pra Bahia, pois lá se constituía o Quilombo do Capula lugar de muita luta onde os negros seqüestrados filhos dos senhores brancos pra vendê-los aos ciganos, revidar o que aconteceu antes da morte dos irmãos do Quilombo de Abrantes.
União Nacional dos Estudantes nasceu no 7/08/1937 e até hoje segue na luta popular, coisa que me faz lembrar quebra-quebra dos ônibus da Bahia contra aumento de 61% das tarifas, mais uma patifaria, nunca se esqueça maluco sempre se lembre no mesmo ano apedrejaram ACM.
1983, parabéns a vocês fundadores da CUT, felicidade aos trabalhadores do campo e também os da cidade.
1897, 22 de setembro, eu me lembro da morte do velho guerreiro Antonio Conselheiro
1931, Frente Negra Brasileira
1971, a morte de Lamarca, mas que um homem uma bandeira que nunca mais se apaga da memória brasileira
A Ditadura fechou o acesso aos estandes, 1980, a greve dos estudantes promovida pela UNE, durante três dias mobilizou um milhão na luta contra a covardia.
Em 1999, não se viu, mas em Brasília aconteceu a Marcha dos 100 mil.

104. Face da morte - Outubro-Novembro-Dezembro

Pisa nesse chão com força, sócia - Pisa nesse chão com força

Pesquisando, pesquisando olha só o que eu descubro em 1665, durante o mês de outubro Portugal proibiu a extração de sal no Brasil-Colonial, o povo se revoltou, incendiou, saqueou a casa dos contratadores, os lusos exploradores.
29/10/1925, então seja bendito o invicto Luis Carlos Prestes, o líder vitorioso da nossa Coluna Prestes que percorreu a pé ou a cavalo 25 mil Km em mais de 12 Estados, enfrentando oligarquias locais, as forças federais, tornando presos livres, pregando o voto livre, distribuindo terras, agindo contra a miséria, sacudiram a estrutura, onde passavam destruíam instrumento de tortura, por 24 meses ainda queimaram documentos anulando dividas dos camponeses.
Ainda esse mês, eu lembro a vocês, o Congresso da UNE em Ibiúna, olha só o que aconteceu, prenderam mais de 1000 estudantes, entre eles José Dirceu, Vladimir (o extravaso), um tremendo arregaço.

Pisa nesse chão com força, sócia - Pisa nesse chão com força

Caminhando contra o vento, começo novembro, dia 07/11/1837, se liga no que acontece, a Sabinada declarava a independência da Bahia.
Em 1910, no Rio acontecia a Revolta da Chibata maior da nossa marinha
Em 1912, o Contestado liderado pelo monge João Maria, em Santa Catarina, também já passei por lá.
1969, me lembra Mariguela figura lendária na luta pela causa, um grande militante pensador da luta armada
1936, vêm na memória outra vez, Caldeirão da Santa Cruz, louvado seja meu Jesus, comunidade que crescia, igualdade prevalecia, incomodou oligarquias que aliadas ao governo apontaram seus cachões, utilizaram aviões pra metralhar bombardear o povo de José Lourenço.
É muito triste, mas eu lembro e continuo dizendo que em 14 de novembro, 1991, aconteceu mais um ato em favor do bem, as entidades as entidades negras se reúnem no ENEN fundando o CONEN, pra quem não sabe Coordenação Nacional das Entidades Negras, firmeza.

Pisa nesse chão com força, sócia - Pisa nesse chão com força

Já chegamos em dezembro, daqui a pouco a letra acaba, mas dá tempo de lembrar a Revolta de Juriacaba, no Amazonas, as margens do Rio Negro, onde morreram milhares de índios, verdadeiros brasileiros
Não posso ir embora sem passar no Maranhão, mandar um çalve pra os meninos sangue B, nordestino e muitos outros camaradas dessa terra abençoada, onde ocorreu a tão famosa inesquecível Balaiada, em 1938, muita luta muito esforço acabaram derrotados pelo duque puxa-saco, conhecido por Caxias, quem diria que hoje em dia vira nome de pracinha, caquete traidor, metido a esperto, pior que hoje em dia ele é patrono do exercito, não poupou e fuzilou, e nem teve tempo de rezar, pobre Anjo Pomar, 1976, quando tinha 63 e Anjo Arroio que tinha 48 - em reunião do Comitê do PCdoB
É... Só pra lembrar a vocês, foi no dia 16 o massacre da Lapa, sem esquece de outro cara que foi muito valioso, 1988, foi morto outro líder de minha gente, meu registro é em memória deste homem competente, que Jesus guarde sua alma, glorioso Chico Mendes.
Foram três dias pra escrever, mas tenho orgulho de saber que estou passando pro meu povo um pouco de informações, de conscientização, auto-valorização, obrigado sangue bom pelo dom de me entender.
Face da Morte sempre, sempre, ponto com você.

Pisa nesse chão com força, sócia - Pisa nesse chão com força

domingo, 22 de maio de 2011

OLODUM: LETRAS COM CONTÉUDOS DE HISTÓRIA


Luis Carlos


Nas atividades de sala de aula de História e Filosofia, uso constantemente a música como instrumento pedagógico. Então “conhecedor” da Banda Olodum (disponho de aproximadamente 145 letras e músicas em mp3, seleciono 30 que dão para relacionar com conteúdos de história) fui procurar no Youtube um vídeo da música “Madagascar Olodum” para fazer uma ponte com a temática “História da África”. O resultado da busca, no referido site, foi positivo: encontrei um vídeo com o áudio que objetivava encontrar. Para a minha surpresa, também encontrei 338 comentários sobre a letra.

O que me chamou a atenção, de um lado, foi à confusão criada a partir de um comentário que diz que: “Musica de religião é uma coisa, axé é outra coisa, essa música não mostra bundas e nem tem TV como dono, que os evangélicos que o digam, isso é música”. Daqui em diante há uma seqüência de opiniões sobre a utilização das palavras evangélica e Deus. De outro lado, foi que dentre as mesmas idéias, existem falas interessantes sobre o conteúdo da letra, que se manifestam da seguintes formas:

“Essa musica se refere a história de uma nação que lutou pela liberdade até o fim, destacando seus principais governantes e suas cidades”.

“Uma aula de história, de boa música, de versos que teem o que dizer!!!

Bons tempos os das letras que ensinavam alguma coisa.

Triste ter que ouvir hj coisas como " dar uma fugidinha..", "rebolation tion" entre outras bestialidades!

Embora a gente saiba que o que existe e sempre existiu foram apenas dois tipos de música: a boa e a ruim, mas dávamos mais valor à boa!”.

“Nossa! quanta ignorância por causa de uma musica. S Egito é ou foi negro sim , que tal aprender um pouco de História? Não a Historia Eurocentrica. que dividiu e dizimou a Africa, de acordo com as sua politica que implantou o colonialismo! Se um continente tão vasto foi assim devastado por um outro (que não chega ao tamanho da Nigeria, Congo e Madagascar e Africa do Sul juntos) qual o real interesse deles?

A questão aqui é historiográfica e não religiosa.....”.

“Sou baiano e gosto de poprock mas coloquei essa música para mostrar para meu filho de 16 anos que nós tinhamos aula de história em nossas músicas. Maravilha!”.

“è isso ai, isso era musica bahiana de verdade, agora são só esses axezeiros medíocres, bunda, latinha, abridor de lata, tesoura, tubo de cola, caixa de som, durex, pirex, panela, e outras danças ridiculas que surgem todos os dias, que vergonha!!!!”.

“Ignorância doi mas fazer o que né? o Brasil é um País de branco europeu e escravisador né? ou é um país mestiço afrodescendente que faz festa no terreiro mesmo salve a Reflexu´s salve as tradições africanas salve o candomblé!”.

“Gente,axé é uma palavra de origem africana da nação yorubá...então vem uns playboys e patricinhas da barra com um rock adaptado e uma batida mais rápida dizendo que cantam axé!!!Axé pessoal é Marinez,Olodum ,Ilê,Araketu,rouparam nossa cultura quando perceberam que daria dinheiro!!!I”.

“ela conta um pouco da história de madagascar e aproveita para exaltar o olodum e madagascar que fazem sempre protesto evocando igualdade e liberdade”.

“Grande letra,essa foi a melhor e mais culta fase das letras de axe,mais do axe como base de inclusao social e nao apenas como musica de fazer pular com refroes faceis como hoje em dia ,grande letra essa de madagascar.Viva olodum,Reflexus e margaret menezes,remanescente desse estilo de composição”.

“O nome da Música é madagascar Olodum, música de Rey Zulu gravada primeiramente pelo Olodum e em 1987 pela banda Reflexus que se tornou sucesso no brasil inteiro na bela voz da cantora Marinês”.

“na minha sala,quem não soubesse está letra todinha estava completamente por fora,como nossa música baiana empobreceu,mas valeu por ter sido adolescente nesta época!!!!”.

”Se alguém procurar entender o significado da letra desta canção, entenderá e reconhecerá a grandeza e majestade da raça negra. Reinos de explendor, povos poderosíssimos e cheios de sabedoria, que tiveram contato com assírios, fenícios, egípcios, babilônios, persas, hebreus, gregos, romanos e árabes, e segundo pesquisas, até com chineses”.

“puts!!!! Isso que era musica baiana de qualidade...ta!!, faziam musica boa...hj agente só ve porcaria na musica baiana, salvo alguns é claro...mas a maioria é lixo..Salve Banda reflexus, até hj tenho o disco, velhinho mas da pra matar a saudade”.

Fonte: http://www.youtube.com/all_comments?v=PzOtPwZDKW8

Se estas idéias dos comentários expostos, de uma forma ou de outra, apontam para “alguns” aspectos importantes da história da África, que podem ser vinculados a outros textos mais aprofundados sobre o assunto (como pretendo realizar em sala de aula), vejamos outras quatros letras que escolhi da Banda Olodum, para termos outras idéias da produção cultural desse grupo.

Na letra “Um povo comum a Pensar”, de Suka, o tema central é Cuba. Diz que na Ilha “(...) prá ter direitos nada nos custa (...)”. É “Latinamente um povo, Negro carxaxe a cantar (...)”. Neste sentido, bate na mente do compositor, e conseqüentemente, da Banda Baiana, que o povo de Cuba é “Um povo comum a pensar”. Pensa a partir de quem? De “Che Guevara”. Tem, igualmente, uma “Mente, Fortemente revolucionaria” com “(...) Fidel Castro, Em pró de uma classe sofrida, Proletária, Leninista”. Termina a letra dizendo: “Onde não tem mendigos, Nem tanto vilão, Aonde o dinheiro, Não é uma obsessão”.

Em “Sueños Lejos” (composição de Tosta Passarinho), a Banda é chamada a cantar Cuba, porque ela “(...) encanta, Espanta os males, pra beleza, conquistar”. Do Brasil, se vê Cuba, tem um passaporte, no entanto, “Me proibindo em Cuba entrar”. Diz a Banda Olodum que tal situação proibitiva “É uma ofensa a Cuba, Um desrespeito a mim”. Após, levanta a questão do Projeto Mamnba, que segundo o site Wikipédia, era um Mapeamento de Sítios e Monumentos Religiosos Negros da Bahia:

coordenado pelo Dr. Ordep Serra antropólogo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e por seu irmão o antropólogo Olympio Serra, através de um convênio entre a antiga Fundação Nacional Pró-Memória e a Prefeitura Municipal de Salvador, o levantamento realizado entre os anos de 1982 e 1987, totalizou cerca de duas mil sedes de cultos afro-brasileiros (Terreiros) somente na cidade de Salvador. O IPHAN, já oficializou o tombamento de vários Templos afro-brasileiros.

Termina a letra em um tom de revolta, e, solicitando a ajuda da liderança cubana: “(...) Mambo Cuba, Manda um Fidel, Fidel, voar, prá cá, Pra essa zorra melhorar”.

As outras duas letras trazem a tona os acontecimentos que giraram em torno da Chacina da Candelária (Composição de Lazinho, Guiguio e Jaccy Lee – Candelária), faz referência também a morte de índios Yanomami. Por fim, a Composição de Fernando de Itapuã e Neuber Moreno (Cara Pintada), aludindo ao movimento dos Caras Pintadas. A Banda Olodum se posiciona politicamente ao afirma que, assim, como o movimento: quer “educação” e acabar com a “corrupção”, pois, “Se o futuro nos pertence, Então temos que lutar”, dado que, “Se ficarmos de braços cruzados, Nada vai adiantar”. E arremata: “Se for pra pintar, Eu pintarei, Para conseguir educação, Eu pintarei o meu rosto, Prá acabar com a corrupção”.


Além destas ainda há outras letras da Banda Olodum, que, após garimpadas, dão para se trabalhar em sala de aula, e, em outros contextos alhures, dependendo da situação. Falando em “garimpagem”, a pesar do “enlatamento” da produção artística da música brasileira feito pela Indústria Cultural, dá para encontra algumas coisas que preste, pouco, diga-se de passagem. Ademais, também existe, ai, sim, muita coisa boa, fora do monopólio da indústria música.

sábado, 21 de maio de 2011

Um Povo Comum Pensar





Composição : Suka

Olha este som latino
É de lá de Cuba
Onde prá ter direitos
Nada nos custa nao

Latinamente um povo
Negro carnaxe a cantar
Bate em minha mente
Um povo em comum pensar

Rumba, Rumba
Rumba Olodum
Arriba vida
Linda, Linda
Pura e sem dor
ô ô ô
Com amor
che che che
che Guevara

Mente
Fontemente revolucionaria
Fiel, Fidel
Fiel, Fidel
Fidel castro
Em pró de uma classe sofrida
Proletária
Leninista

Olha este som latino
É de lá de Cuba
Onde prá ter direitos
Nada nos custa nao

Onde nao tem mendigos
Nem tanto vilao
Aonde o dinheiro
Nao e uma obsessao.


Sueños Lejos





Composição : Tosta Passarinho

Canta Cuba Olodum
Cuba encanta
Espanta os males, pra beleza, conquistar

Cuba te vejo daqui
Mesmo sem ter ido lá
Meu passaporte brasileiro, carimbado
Me proibindo de Cuba entrar

E uma ofensa a Cuba
Um desrespeito a mim
Vejo o projeto Mamnba
Sou mais o projeto Mamnba

Mama Cuba
Mambo Cuba
No carnaval daqui, de lá pra cá

Mama Cuba
Mambo Cuba
Manda um Fidel, Fidel, voar, prá cá
Pra essa zorra melhorar.


Candelária





Composição : Lazinho, Guiguio e Jaccy Lee

Aonde a lei não vigora
Impera uma chacina
Quem nasce neste país
Pobre vive a triste sina

Mora no morro
Não tem conforto
Só brinca em carnaval
Na quarta-feira
Que desconforto
No vigário geral

Tá na sinaleira
Pra ganhar o pão
Vai na candelária
Morre sem razão

Ó não ó não
Porque mataram
Um catador de papelão
Porque queimaram um índio
Sem dó sem compaixão

Tenho pena desses homens
Que mataram Yanomami
Piedade ao nosso povo
Que está morrendo de fome

Se cessar o marticínio
O lobato é opção
Educar nossos meninos
Que o país tem solução


Cara Pintada






Composição : Fernando de Itapuã e Neuber Moreno

Muito tempo se passou
Voce nao cumpriu o que prometeu
Quatro anos no poder
Voce desapareceu

Chega de tanta conversa
Queremos educação
Queremos educação
Eu pintarei o meu rosto
Prá acabar com a corrupção

Prá que chorar
Pra que chorar
Se o futuro nos pertence
Então temos que lutar

Diga pra que
Pra que chorar
Pra que chorar
Se ficamos de braços cruzados
Nada vai adiantar

Ideologia do Olodum
Ideologia do Olodum
Ideologia do Olodum
Ideologia do Olodum

Se for pra pintar
Eu pintarei
Para conseguir educação
Eu pintarei o meu rosto
Prá acabar com a corrupção


domingo, 8 de maio de 2011

CRÔNICAS JORNALÍSTICAS E SOCIEDADE NA BELLE ÉPOQUE CARIOCA




CRÔNICAS JORNALÍSTICAS E SOCIEDADE NA BELLE ÉPOQUE CARIOCA: REPRESENTAÇÕES DO TRABALHO E PODER EM LIMA BARRETO E JOÃO DO RIO

Joachin de Melo Azevedo Sobrinho Neto

(Doutorando em História Cultural pela UFSC)

Capturar o verdadeiro tom e truque, o ritmo estranho e irregular da vida, essa é a tentativa cujo vigor mantém a ficção em pé.

Henry James

Em um escrito mais recente, intitulado A história ou a leitura do tempo (2009), o historiador Roger Chartier tanto reflete sobre as contribuições que as noções conceituais de representações, práticas e apropriações forneceram para a consolidação da História Cultural como campo de saber específico da historiografia, como faz um verdadeiro levantamento dos principais impasses que surgiram no seio da disciplina após as incursões realizadas pelos adeptos da linguistic turn a teoria da história, que nivelaram historiografia e ficção romanesca.

Dentre as reações ao ceticismo em torno das possibilidades de construção de conhecimento em torno do passado, Chartier destaca as posturas do filósofo da linguagem Paul Ricouer e do historiador Carlo Ginzburg. No caso de Ricouer, em suas reflexões em torno das relações entre história e memória, fica evidenciado que a memória, ou a sua prática, é que irá conferir sentido aos rastros materiais que os indivíduos deixam para afirmarem sua existência no tempo. Nesse sentido, a memória torna-se matriz da história, pois confere ao “discurso histórico (...) a certificação imediata e evidente da referencialidade de seu objeto” (CHARTIER, 2009 : 23-4).

Em relação à Ginzburg, o autor se refere ao historiador italiano como o protagonista da articulação de uma verdadeira máquina de guerra teórica contra o que se pode entender como ceticismo pós-moderno, no âmbito da historiografia. No cerne das discussões travadas ao longo das obras de Ginzburg, prevalece a noção, com base em uma tradição grega de matriz aristotélica, de que a noção de prova não é incompatível com a retórica, o que pressupõe, de modo taxativo, que o conhecimento, mesmo o conhecimento histórico, é possível e que, ao contrário do que consideram os pós-modernos, o estilo e a história, ao invés de serem incompatíveis, estão estreitamente entrelaçados. 1

Sobre as relações entre passado, história e ficção, Chartier inicia a discussão citando as peças históricas, ou histories, escritas para o teatro por Shakespeare. Nesse caso, é interessante perceber como a ficção, enquanto uma modalidade discursiva, é construída a partir de uma dada realidade histórica que lhe serve como referencial, mas que não apresenta a pretensão de apresentar essa realidade tal como ela foi. Assim, as fontes literárias, ao representarem:

(...) fatos e personagens históricos e colocando no cenário ou na página situações que foram reais ou que são apresentadas como tais, (...) adquirem a capacidade de produzir, moldar e organizar a experiência coletiva mental e física – e entre essas experiências se computa o encontro com o passado. (CHARTIER, op. cit. : 25)

As contribuições de Chartier têm inspirado vários estudos acerca da relação entre história e literatura que não pactuam com a perspectiva cética, dita pós-moderna. A meu ver, é perfeitamente plausível essa tessitura entre a noção de memória e ficção, pois pode ampliar as possibilidades de abordagens historiográficas das narrativas artísticas. Buscar na escrita literária os indícios representativos de uma determinada época ou sociedade é, antes de tudo, estabelecer diálogos pertinentes entre o conhecimento histórico e a arte, respeitando as fronteiras que cada um desses diferentes campos possuem.

No caso de se utilizar as crônicas jornalísticas enquanto fonte, o historiador deve estar atento de que está lidando com um gênero literário alvo de constantes polêmicas conceituais. A crônica jornalística pode ser compreendida como uma narrativa artística que tem de se adaptar a lógica de uma indústria cultural que padronizou e, em certa medida, massificou a veiculação da informação. Vale ressaltar que essa adaptação não se dá de forma meramente passiva, por isso, a crônica jornalística é um espaço privilegiado para a manifestação de tensões constantes entre a imaginação criadora e inovadora e os desígnios de uma lógica social tecnocrática.

Regina Rossetti e Herom Vargas, no artigo A recriação da realidade na crônica jornalística brasileira (2006), detalham bem essas tensões entre criação e padronização que marcam a necessidade de consumo massivo de bens culturais na sociedade moderna. Para os autores, a crônica jornalística ou de jornalismo literário acaba sendo uma forma de linguagem mais propícia para o afloramento da “inventividade e criatividade, diferenciando-se, por isto mesmo, de outros gêneros jornalísticos mais descritivos e informativos, como a notícia” (ROSSETTI & VARGAS, 2006 : 06).

No caso dos estudos vinculados a área do jornalismo, a crônica enquanto fonte é utilizada para a pesquisa em torno das diretrizes da criação e de seus processos no campo da comunicação social. No caso de um estudo historiográfico preocupado em estabelecer nexos entre sociedade e cultura, como pretende este trabalho, os usos de um gênero textual híbrido, que borra as fronteiras entre o literário e o jornalístico, estão pautados, sobretudo, no potencial histórico que as visões críticas construídas sobre um dado contexto possuem, pois a crônica:

Tal como é produzida no Brasil, caracteriza-se por ser uma composição breve, publicada em jornal e revista, que embora relacionada com a atualidade, possui elementos poéticos e ficcionais. Ela pode, assim, refletir de maneira poética, e às vezes irônica, o imaginário coletivo presente no cotidiano de nossas vidas. Entretanto, como não quer ser uma mera reprodução dos fatos, usa recursos próprios da literatura para expressar-se: diálogos, alegorias, versos, personagens típicos, metáforas, analogias. Além do estilo, a criação é visível também nos recursos lingüísticos usados na crônica, na estrutura e temporalidade próprias. A crônica é um olhar diferente e fragmentário do real que não ambiciona a totalidade dos fatos, como uma fotografia do real que capta poeticamente o instante, dando a ele uma dimensão de eternidade. (ROSSETTI & VARGAS, op. cit. : 07)

Nesse sentido, a crônica brasileira é bastante peculiar em relação as suas acepções no Velho Mundo, onde, sobretudo, na Idade Média, a crônica era usada para estabelecer relações entre acontecimentos organizados linearmente, em seqüência cronológica. Interessa aqui não o uso dessa modalidade cronológica linear de escrita como fonte, mas a crônica enquanto “filha de Chrónos, (...) ligada ao seu próprio tempo” (Idem : 08).

Aproveitando uma expressão machadiana para intitular sua obra, Wellington Pereira, em Crônica: arte do útil ou do fútil?, constrói uma verdadeira arqueologia do termo, desde suas origens nas sociedades antigas até a contemporaneidade, para compreender o modo como, a partir do século XIX , “o cronista procura entender a nova ordem de enunciação imposta pela sociedade industrializada” (PEREIRA, 1994, p. 20). Para o autor, é justamente nesse século, marcado por uma efervescência política sempre propicia ao acirramento dos ânimos e pela consolidação da imprensa burguesa.

Útil como referência para pesquisas não só literárias, mais jornalísticas, historiográficas, sociológicas, etc. as crônicas apresentam-se como um gênero de escrita intimamente ligada aos anseios e a representação do cotidiano. A crônica, em suas mais variadas modalidades e fases, sempre esteve comprometida com relatos históricos, problemas políticos, as relações de classes sociais e em formar, dentro de tradições, tanto críticas, como doutrinárias, a opinião do leitor. Constatando essas implicações políticas e temporais dessa modalidade de escrita, que atinge todo seu esplendor juntamente com a consolidação da imprensa burguesa, Margarida de Souza Neves (1995 : 25) indaga os pesquisadores: “em que outro documento será possível encontrar o cotidiano monumentalizado como na crônica?”.

Para podemos caracterizar o que Nicolau Sevcenko (2003)2 denominou de inserção compulsória do Brasil na Belle Èpoque é necessário atentar que a transição do Império para a República foi bastante tensa, marcada por uma série de revoltas que foram abafadas em uma série de episódios dramáticos que envolveram o uso da força militar. A república da espada, personificada por Floriano Peixoto, esmagava os ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade e em seu lugar favorecia o desenvolvimento de um capitalismo predatório, transformando o Rio de Janeiro na capital do arrivismo, na qual os grandes heróis do dia eram os especuladores da bolsa de valores.

Enquanto último grande remanescente do sistema escravocrata, O Brasil foi direcionado, pelas elites que assumiram o prumo da jovem república, para assimilar as novas tendências políticas, econômicas e culturais que estavam vigorando na Europa e Estados Unidos. Como preencher a paisagem de um país até então essencialmente agrário com engenhos a vapor, fábricas automatizadas, ferrovias, amplas zonas industriais, cidades em expansão, novos e diversificados meios de comunicação, Estados nacionais cada vez mais fortes, conglomerados multinacionais de capital e inseri-lo na lógica de um mercado mundial cada vez mais insaciável e devastador? Na administração do presidente civil Rodrigues Alves e do governador do Rio, Pereira Passos, uma série de medidas conhecidas como reformas urbanas, para acabar com “a imagem da cidade insalubre e insegura” (SEVCENKO, 2003 : 41), irão ilustrar bem o projeto de modernidade imposto de cima para baixo para a população brasileira.

Todas essas referências, feitas de forma muito concisa, pela própria limitação que a formatação de um artigo impõe, foram citadas no intuito de oferecer pelo menos um básico panorama sócio-cultural da Belle Époque carioca. Existia sim, na Rua do Ouvidor, nos jardins do Gàrnier, uma gente vistosa e elegante, homens vestidos com ternos caros saboreando um café, depois de flanarem e se dedicarem à arte do flirt, cocotes chics em vestidos suntuosos de seda, com caros chapéus de seda paquerando as vitrines de joalherias, a espera de um casamento perfeito com algum bacharel em Direito. Mas nas margens dessa paisagem também existia uma cidade disforme, de vielas lamacentas e aspecto humilde que disputava a visibilidade com o pomposo centro do Rio. Os habitantes dos subúrbios, como coloca Sandra J. Pesavento (2001 : 32), “com a acentuação dos desníveis sociais ocorridos nas últimas décadas do século 19, passam a ser identificados como feios, sujos e malvados” e são estigmatizados pela ordem dominante.

João Paulo Barreto (1881-1921), ou como ficou conhecido, através de seu pseudônimo, João do Rio, era um cidadão carioca distinto, afeito ao uso de paletós engomados, uso de bengalas com castão e, ao contrário de Lima Barreto, conseguiu sobreviver até as circunstâncias obscuras de sua morte, através das letras. As narrativas do jornalista, se hora revelam-se um tanto sensacionalistas, são construídas também com uma grande sensibilidade. Os diálogos que estabelece com a cidade revelam muito sobre o imaginário urbano carioca da Bélle Époque. Como coloca Sandra Pesavento: “João do Rio inaugurava um tipo de jornalismo fin-de-siécle, com tons de inspiração decadentista, e que se caracterizava por uma descida aos infernos” (PESAVENTO, 2001 : 42-3). Assim o autor em questão visitava casas de ópio, prisões, subúrbios e casas noturnas elaborando uma narrativa que diluía as fronteiras entre a linguagem literária e a jornalística, fazendo muito sucesso entre o público.

A postura de João do Rio frente às reformas urbanas é um tanto dúbia. Por um lado, se ironiza as pretensões de se transformar da noite para o dia uma cidade tropical em uma cidade de ares gélidos: “de súbito, da noite para o dia, compreendeu-se que era preciso ser tal qual Buenos Aires, que é o esforço despedaçante de ser Paris” (RIO, 1909 : 215). Por outro, não deixa de disfarçar o choque que sente quando tem de se defrontar com o universo dos excluídos da Bélle Èpoque, nos “livres acampamentos da miséria” (RIO, 1911 : 141).

Na crônica Os trabalhadores de estiva (1908), atendo-se aos aspectos da miséria carioca, João do Rio faz essa “descida ao inferno” para adentrar no universo do trabalho penoso que era exercido no cais da alfândega, por imigrantes portugueses e pobres em geral. Madrugando no cais, solicita acesso ao bote que transporta os estivadores a bordo das embarcações e obtendo permissão para acompanhar a rotina dos estivadores aperta uma mão “degenerada pelo trabalho com as falanges recurvas e a palma calosa e partida” (RIO, 2007 : 144).

O estudo de Sidney Chalhoub (2001) sobre o cotidiano dos trabalhadores na Belle Èpoque carioca narra alguns pontos sobre o aspecto tenso e violento que preenchia a atmosfera sob a qual essas pessoas desenvolviam meios de resistência a exploração capitalista e cultivavam seus próprios valores. Esses protagonistas anônimos da história que além de terem de lidar com as agruras de um labor extenuante, tinham de enfrentarem disputas e tensões internas e ainda uma série de estratégias dominantes que procuravam disciplinar, por meio da vigilância, desde os espaços destinados ao trabalho até espaços consagrados ao lazer popular.

Portanto, o aspecto e as seqüelas físicas que os trabalhadores portavam realmente não deveriam ser das mais agradáveis para nosso atento cronista. Em um trecho mais adiante da crônica, João do Rio atenta para o nível de complexidade que envolvia o trabalho de estiva, especificando que para cada leva de produtos, da “aguardente, do bacalhau, dos cereais, do algodão” (CHALHOUB, op. cit. : 145), existiam trabalhadores específicos responsáveis para o trato com cada tipo de mercadoria. Para o cronista:

Aqueles seres ligavam-se aos guinchos; eram parte da máquina; agiam inconscientemente. Quinze minutos depois de iniciado o trabalho, suavam arrancando as camisas. Só os negros trabalhavam de tamancos. E não falavam, não tinham palavras inúteis. Quando a ruma estava feita, erguiam a cabeça e esperavam a nova carga. Que fazer? Aquilo tinha de ser até as cinco da tarde! 20

Como se pode perceber, nem tudo no limiar da modernidade brasileira era composto apenas por glamour. Com o aperfeiçoamento dos mecanismos de controle social tão necessários a hegemonia da elite que assumia as rédeas do país, os trabalhadores também passam a resistir em direção “a não-conformidade, a luta” 21, organizando greves, delimitando territorialidades onde possam transitar sem o perigo da repressão policial, inventando códigos de sociabilidades e solidariedade que forjam uma identidade própria.

João do Rio finaliza, portanto sua crônica com o resgate da fala de um estivador que apresentando toda uma consciência em torno daquela situação de exclusão e penúria, causada pela ordem burguesa recém-implantada no país, fala ao homem de letras em um tom franco, que sendo impossível atestarmos se tal diálogo realmente aconteceu e caso tenha ocorrido, se foi registrado fidedignamente, seria melhor percebermos que essa fala possui implicações históricas profundas:

Que querem eles? Apenas ser considerados homens dignificados pelo esforço e a diminuição das horas de trabalho, para descansar e para viver. Um deles, magro, de barba inculta, partindo um pão empapado de suor que lhe gotejava da fonte, falou-me, num grito de franqueza:

- O problema social não tem razão de ser aqui? Os senhores não sabem que esse pais é rico, mas que se morre de fome? O capital está nas mãos de grupo restrito e há gente demais absolutamente sem trabalho. Não acredite que nos baste o discurso de alguns senhores que querem ser deputados. Vemos claro e, desde que se começa a ver claro, o problema surge complexo e terrível. A greve, o senhor acha que não fizemos bem na greve? Eram noves horas de trabalho. De toda parte do mundo os embarcadiços diziam que trabalho da estiva era só sete! Fizemos mal? Pois ainda não temos o que desejamos.

A máquina, no convés, recomeçara a trabalhar. 23

Encerra-se por aqui então nossa incursão com esse outro polêmico guia da modernidade na cidade do Rio de Janeiro. Apesar de falar de um lugar social oposto do qual Lima Barreto se posicionou, João do Rio também apresenta textos que retratam uma face contundente da Belle Époque carioca. As narrativas desse escritor-jornalista, quando submetidas a uma filtragem necessária por parte do historiador, podem ser uma importante fonte que, mais que meros documentos de um tempo, são textos entranhados de história.

No meio dessa paisagem suburbana, precisamente no subúrbio de Todos os Santos, surge uma figura de cabelos desgrenhados, paletó sujo e amassado, passo cambaleante, mulato e de tímidos trejeitos. Lima Barreto teve a vida pessoal marcada por uma série de tragédias que foram desde o falecimento da mãe, quando tinha seis anos de idade, o enlouquecimento de seu pai, João Henriques, que não suporta os impactos da transição da ordem monárquica para a republicana até o abandono dos estudos na Escola Politécnica devido a demonstrações de racismo pelos colegas e professores. 3

Pobre, mulato e suburbano, Lima Barreto, por seus posicionamentos polêmicos, não consegue viver das letras e passa a ocupar, por meio de concurso, o cargo de amanuense na Secretaria de Guerra para através de um pequeno salário sustentar o pai enfermo e os irmãos. Como válvula de escape, entrega-se à bebida, passando rapidamente da cerveja ao consumo da cachaça. Como coloca a socióloga Maria Cristina Machado, sofre na própria pele as exclusões praticadas por uma “(...) sociedade elitista, preconceituosa e discriminatória” (MACHADO, 2002 : 17) e reverte para a escrita a sua indignação e ressentimento, em passagens muitas vezes comoventes e constrangedoras, devido à atualidade de suas denúncias, buscando tanto se fazer ouvir enquanto sujeito histórico, quanto trazer à tona o grito daqueles que estavam a margem ou desfavorecidos pela modernidade brasileira.

Na crônica A estação, publicada primeiramente em 1921, Lima Barreto ressalta a importância das estações das estradas de ferro para os subúrbios cariocas chegando a taxá-las, inclusive, de eixos da vida nos subúrbios. O autor fala sobre as quatro principais estações que se situavam nas periferias urbanas do Rio, dando destaque para a estação do Méier e a intensa atividade comercial que se desenvolvia em torno dessa estação, sendo, na opinião do autor, as padarias, botequins, confeitarias, cinemas, circos, casas de jogos verdadeiros motivos de orgulho para os subúrbios e os suburbanos. Porém, quando o escritor se atém a escutar a conversa entre dois funcionários públicos sentados nos bancos da estação, dois burocratas, como salienta, as críticas do autor recaem sobre a postura arrogante e presunçosa quando um desses senhores em um dialogo sobre gramática portuguesa dá a entender que seus conhecimentos lingüísticos são mais um fator de distinção social que venham a inferiorizar mais ainda os anônimos diante de sua figura. Como recurso estilístico, Lima Barreto reduz o esnobe membro da classe média brasileira a um arremedo dos cavaleiros europeus:

Falava sem interrupção, como um papagaio, cheio de suficiência e presunção. Conhecia-o de vista. Certas manhãs, quando ia ler os jornais no botequim mais próximo de casa, via-o a cavalo, reluzentes meias-botas de verniz, esporas de prata, chicote de castão e correntinha também de prata, via-o em cima de um cavalo xucro,felpudo, feio, esticando o pescoço muito para frente, num esforço doido para carregar o seu pimpão de cavaleiro, que, na sela, ia de baixo para cima e vice-versa. Mas sem perder nunca, na fisionomia, o ar de fidalgo rico que passeia a cavalo, no Bois de Boulogne, a sua prosápia e a sua morgue. (BARRETO, 2005 : 28)

Lima Barreto ao acatar a missão de escriba do cotidiano, enquanto cronista, quer evidenciar para os leitores de que forma uma conversa banal entre duas pessoas em um banco de uma estação ferroviária pode servir para a afirmação de diversos preconceitos sociais. Implicitamente, o autor revela a tensão gerada quando diversos segmentos sociais são obrigados a freqüentar o mesmo espaço físico para a realização de suas rotinas, enfocando a arrogância e a hipocrisia do funcionário público que depende dos transportes suburbanos para se locomover, mas que não assume de forma alguma a condição de suburbano, inferiorizando os que assim julga agindo com ares de fidalgo.

O Rio de Janeiro urbaniza-se e, é pelo luxo, pela pompa, pelos automóveis nas ruas, pela construção de arranha-céus e de lugares destinados ao lazer e ao entretenimento, mas também essas grandes transformações urbanas foram acompanhadas da exclusão social manifestada nas ações praticadas contra as camadas populares durante as reformas urbanas. Novos símbolos de ostentação, status e opulência são instituídos, ao passo que também são forjadas identidades que sucumbem à pobreza e a mediania.

Encontramos neste caminho entre Literatura e História, Lima Barreto, um escritor possuidor de uma obra de resistência que buscava sensibilizar o leitor a fim de conduzi-lo a tomar consciência de que são nos atos cotidianos que acontecem as grandes transformações sociais e João do Rio, um homem testemunha das tensões violentas que se instalam na estreiteza do contexto local – o cotidiano do Rio de Janeiro – e que trouxe como elemento reflexivo de seus escritos a situação e as condições de vida de toda sorte de anônimos da Belle Époque. Vemos aqui como uma única cidade pode adquirir duas dimensões diferentes quando representadas por dois diferentes cronistas.

REFERÊNCIAS:

BARRETO, Lima. Melhores crônicas. São Paulo: Global, 2005.

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. Tradução de Cristina Antunes. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

CHALHOUB, Sidney. Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no Rio de Janeiro da belle époque. São Paulo: Editora Unicamp, 2001.

MACHADO, Maria Cristina Teixeira. Lima Barreto: um pensador social na Primeira Republica. Goiânia: editora da UFG; São Paulo: EDUSP, 2002.

NEVES, Margarida de Souza. História da crônica, crônica da história. In: RESENDE, Beatriz. (Org.). Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olympio: CCBB, 1995.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Uma outra cidade: o mundo dos excluídos no final do século XIX. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2001.

PEREIRA, Wellington. Crônica: arte do útil ou do fútil?. João Pessoa: Idéia, 1994.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Martin Claret, 2007.

_____. O velho mercado. In: Cinematografo. Porto: Chardon, 1909.

_____. Os livres acampamentos da miséria. In: Vida vertiginosa. Rio de Janeiro, Paris/H. Garnier: Livreiro-editor, 1911.

ROSSETTI, Regina & VARGAS, Herom. A recriação da realidade na crônica jornalística brasileira. In: UNIrevista, vol. 1, nº 3, jul/2004. (pp. 1-10)

SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. 2ª. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.



1 Para um entendimento mais detalhado sobre a tese das implicações cognitivas das escolhas narrativas recomendo do mesmo autor a obra Relações de força: história, retórica, prova, publicado pela Companhia das Letras em 2002. Partindo do campo onde os céticos pós-modernos mais se sentem a vontade para falar de história, que seria o das artes e da literatura, Ginzburg tece uma desconcertante crítica a idéia de que o discurso histórico está no mesmo patamar do discurso ficcional, próprio dos romances, evidenciando como desde uma tradição que remonta a Aristóteles na Antiguidade, a idéia de retórica não é incompatível com a noção de prova, pois esse é o elemento que na narrativa historiográfica faz vir à tona as tensões entre narração, documentação e os chamados princípios de realidade.

2 Uma obra praticamente consagrada por críticos e historiadores, Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República, é um excelente referencial para quem quiser dar inicio a explorações sobre as relações entre literatura e sociedade no contexto da Belle Époque brasileira.

20 RIO, 2007, p. 145

21 CHALHOUB, op. cit, p. 53

23 RIO, 2007, p. 147

3 Para uma compreensão sobre de que forma as adversidades enfrentadas por Lima Barreto no campo da vida pessoal fluíram para sua literatura em forma de indignação e protesto, transformando sua escrita em um instrumento de combate aos preconceitos sociais e de denúncia dos valores excludentes de seu tempo, sugiro a obra A vida de Lima Barreto (1881-1922) de seu principal biografo; Francisco de Assis Barbosa que preocupou-se em levar para a elitizada Academia Brasileira de Letras a memória desse tocante escritor quixotesco.

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