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sábado, 31 de agosto de 2019

Há 5 meses foi interrompido o bombeamento das águas da transposição do Rio S. Francisco no eixo Paraíba [VÍDEO]

SOS Transposição
@MST_Oficial

Há 5 meses foi interrompido o bombeamento das águas da transposição do Rio S. Francisco no eixo Paraíba, impactando milhares de famílias.

Neste domingo, em Monteiro, acontecerá um ato “SOS Transposição: o Grito do Nordeste”.

🧐

Confira o depoimento de Dilei Schiochet, do MST!


A proposta climática de Bernie Sanders é mais radical que a de seus oponentes [REPASSANDO]

Sen. Bernie Sanders fala durante um comício na Universidade Howard, em 13 de Maio de 2019, em Washington, D.C. Foto: Alex Wong/Getty Images
Kate Aronoff

Se você tentasse delinear um programa com o intuito de atingir o alto escalão das corporações mais poderosas do mundo e os políticos cujas carreiras elas financiam, você teria algo parecido com o que Bernie Sanders revelou no dia 22 de agosto em sua versão do New Deal Verde, orçada em US$ 16,3 trilhões. Esse é um ponto. “Nós precisamos de um presidente que tenha a coragem, a visão e o referencial para enfrentar a ganância dos executivos dos combustíveis fósseis e da classe bilionária que se interpõe no caminho da ação climática”, afirma o plano na introdução, ecoando uma frase famosa de Franklin Delano Roosevelt: “Nós precisamos de um presidente que receba esse ódio de braços abertos”.

A partir da proposta apresentada pela deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez e pelo senador Ed Markey em abril, Sanders delineia um sistema abrangente, que geraria energia limpa estatal, daria origem a 20 milhões de novos empregos, acabaria com as importações e exportações de combustíveis fósseis, reavivaria a rede de segurança social, repararia injustiças históricas, como o racismo ambiental, e investiria de forma prolífica na descarbonização tanto dentro como fora dos Estados Unidos — entre muitas e muitas outras coisas. Não seria apenas uma transição para afastar a sociedade americana dos combustíveis fósseis, mas também a reavaliação de falácias que circulam há décadas, com o patrocínio da direita, acerca dos respectivos papéis do governo e da economia.

“Este é, definitivamente, o maior e mais audacioso plano existente hoje”, disse Evan Weber, diretor político do Movimento Sunrise, “tanto na escala, pura e simples, como nos mecanismos para atingir essa escala; realmente parece [que Sanders está] empurrando os limites que estruturam a sociedade americana atualmente”.

Propostas novas, atraentes, fazem com que o projeto de Sanders se destaque em um campo já bastante ambicioso: um programa de incentivos e de auxílio financeiro para ampliar a aquisição e o uso de veículos elétricos, planos para melhorar o número de passageiros no transporte público em 65% até 2030; a exigência de que o Escritório de Orçamento do Congresso trabalhe com a Agência de Proteção Ambiental para atribuir a novas leis uma pontuação climática, com escores, assim como a pontuação orçamentária que já é adotada; e o respeito à Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas para assegurar o consentimento prévio, livre e embasado por parte dos povos indígenas.

O plano também gerou controvérsias entre aqueles que veem ideias contra a energia nuclear como algo antagônico à descarbonização. A proposta também exclui de antemão medidas para captura e armazenamento de gás carbônico, que especialistas consideram necessárias a curto prazo, para promover a transição em setores onde é mais difícil descarbonizar — mas que têm sido usadas por executivos do setor de combustíveis fósseis como forma de obter um adiamento indefinido. A tributação em cima da emissão do gás carbônico tem sido um dos pilares das propostas climáticas de Sanders, e seu esquema para o New Deal Verde não exclui essa opção, mas também não a enfatiza.

Permeando o projeto há uma teoria diferente e mais explícita de mudança em relação às plataformas apresentadas por outros proponentes; o plano de Sanders está fundamentado em mobilização e na identificação de inimigos. Ele promete lutar contra os “bilionários dos combustíveis fósseis cuja ganância reside no cerne da crise climática”, que, segundo ele, “gastaram centenas de milhões de dólares protegendo seus lucros às custas de nosso futuro” e “que farão qualquer coisa para extrair até o último centavo do planeta”. Ao esboçar como o plano será financiado, Sanders afirma que obterá US$ 3,085 trilhões fazendo com que “a indústria dos combustíveis fósseis pague por sua poluição, por meio de processos, impostos e outros tributos, além da eliminação de subsídios federais ao setor”.

“Mais importante ainda”, diz Sanders, “nós devemos construir um movimento popular sem precedentes que seja poderoso o bastante para lutar contra eles e ganhar. Jovens, ativistas, tribos, cidades e estados por todo este país já deram início a esse importante trabalho, e nós vamos seguir seus passos.”

Essa é uma abordagem que distingue Sanders não só em relação a outros candidatos nas primárias do Partido Democrata como também em relação ao discurso político sobre o clima que predominou nos Estados Unidos ao longo dos últimos 30 anos.

O mais perto que o país já chegou de aprovar uma legislação abrangente para reduzir as emissões de gás carbônico foi a luta perdida no congresso em torno da lei de cap-and-trade, um esquema de troca de emissões, em 2009 e 2010. Existem muitos motivos pelos quais aquele plano falhou e muitos fatores infelizes convergiram para aniquilar suas chances. Uma das principais razões? Alguns seus defensores mais influentes estavam mais interessados em derrotar as corporações do que em convencer o público de que essa era uma boa ideia. Na avaliação deles, o caminho para obter apoio republicano era enfraquecer o meio empresarial, aproveitando-se dos fortes laços que, historicamente, unem as corporações ao Partido Republicano. A peça-chave para chegar a isso seria um programa de cap-and-trade, estabelecendo um limite, ou cap, para a quantidade de poluentes que as companhias poderiam emitir. Se uma empresa ultrapassasse o limite, poderia comprar mais de outra ou vender qualquer excesso, no que é conhecido como mercado de carbono.

Em 2007, USCAP, capitaneada pelo Fundo de Desenvolvimento Ambiental, convocou organizações ambientais próximas ao governo, assim como as 500 maiores empresas listadas pela Fortune — incluindo BP America, Duke Energy e Lehman Brothers —, para dar início a um plano que contava com aliados no Capitólio. Acreditava-se que a política climática poderia ser delineada e aprovada a portas fechadas, e defensores do cap-and-trade nunca se mexeram para explicar o que as medidas significavam para o público em geral ou — diante de uma recessão crescente — como elas poderiam melhorar a vida da população; preferiram, em vez disso, repetir o sermão acerca de quão grave era a ameaça do aquecimento global.

Com mais de mil páginas, o projeto de lei, que ficou conhecido como Waxman-Markey, conseguiu avançar após uma articulação política cuidadosa e com concessões consideráveis. Como David Roberts, que escreve sobre mudanças climáticas, apontou, a lei em si era mais abrangente do que seus críticos admitiam. Mas a política que a orientava — reflexo de uma dinâmica mais ampla em Washington, e dentro do Partido Democrático em particular — se apoiava em uma premissa precária: a de que os republicanos e as corporações estavam dispostos a negociar a legislação climática com boa fé. O movimento ultraconservador Tea Party estava ganhando força rapidamente, e os irmãos Koch passaram os meses após a votação na Câmara mobilizando seu império na área de combustíveis fósseis contra os republicanos moderados que tinham apoiado a lei e mesmo contra alguns que não tinham, dando suporte para que grupos como o conservador Americanos para a Prosperidade gerassem uma revolta contra o crap-and-tax empurrando o partido para a extrema direita. No momento em que uma lei similar à Waxman-Markey chegou ao Senado, no segundo semestre daquele ano, o ânimo em prol da ação climática já havia esfriado.

Enquanto isso, as corporações puderam facilmente jogar dos dois lados do campo: enfraquecendo leis que aparentemente poderiam ser aprovadas, enquanto se esforçavam para ter certeza de que elas jamais o seriam. Em um artigo de 2015, o cientista político Jake Grumbach mostra que várias empresas que se uniram à USCAP simultaneamente apoiaram lobistas contra a ação climática. Shell, BP e ConocoPhillips eram membros da USCAP e do Instituto Americano de Petróleo, através do qual ajudaram a reforçar a campanha “Energy Citizen”, que promoveu manifestações pagas contra o cap-and-trade pelo país, mirando os senadores em seus próprios distritos, durante o recesso de verão. Esses eventos foram planejados de forma coordenada com a Câmara Americana de Comércio, da qual Chrysler, Deere, Dow Chemical, Duke Energy, GE, PepsiCo, PNM Resources e Siemens (que integravam a USCAP) eram todas membros.

Isso permitiu que as companhias efetivamente enfraquecessem o processo político ao mesmo tempo em que colhiam um retorno positivo no quesito relações públicas, por aparentemente apoiarem a solução para o problema. “O meio empresarial não apenas ampliou suas chances aproximando uma possível legislação climática de seus interesses e moldando a arena política para o futuro”, escreve Grumbach. “Eles estavam simultaneamente dispostos a investir recursos com o intuito de virar o debate político a seu favor e impedir que a legislação passasse, em primeiro lugar”. Tudo isso, é claro, veio depois de a indústria dos combustíveis fósseis (e algumas das mesmas empresas, think tanks e associações empresariais que combateram o cap-and-trade) passar duas décadas fazendo campanha para pôr em dúvida a veracidade do aquecimento global, deslocando o terreno do debate político em que a disputa em torno do cap-and-trade ocorria.

Sem contar com o apoio dos republicanos ou das corporações na batalha no Senado, e com poucas pessoas animadas a defendê-la, fora aquelas que integravam o círculo mais próximo do governo, a cap-and-trade morreu com um lamento. Em uma extensa análise de 2013, Theda Skocpol, professora de sociologia da Universidade Harvard, escreveu: “ao longo desse ano crucial, republicanos, incluindo aqueles que supostamente eram amigos de longa data do movimento ambiental, como John McCain, simplesmente desapareceram; e no fim das contas, senadores republicanos se negaram de forma unânime a apoiar qualquer versão de cap-and-trade”.

O ponto positivo aqui é que o New Deal Verde de Sanders apresenta uma abordagem que não poderia ser mais diferente da investida climática que ocorreu no Capitólio dez anos atrás — e, ao abandonar aquela estratégia restrita a iniciados, tem uma chance real de ser bem-sucedida. Como Skocpol escreveu em 2013:

A maré só pode virar na próxima década por meio da criação de uma política de mudança climática que envolva uma ampla mobilização popular de centro esquerda. É isso que será necessário para combater a associação entre a oposição da elite do livre mercado e a mobilização da direita contra soluções para o aquecimento global. (…) Enquanto isso, liberais e moderados precisam construir um movimento populista anti-aquecimento global do seu próprio lado do espectro político.

Sanders, é claro, não é o único a adotar uma abordagem centrada em mobilização popular, extensão de seu longo apelo por uma “revolução política”. Essa mobilização também faz parte dos planos dos organizadores do Movimento Sunrise para vencer política climática. Uma das principais mensagens que Weber me disse a partir de seus estudos sobre a disputa em torno do cap-and-trade “é que você realmente precisa de um movimento que vá pressionar durante e depois da campanha, é preciso cobrar os políticos. Não basta apenas vencer as eleições.” Como Weber disse, reformas estruturais como o fim do obstrucionismo e do Colégio Eleitoral — demandas que não aparecem nos planos de Sanders — provavelmente serão pontos-chave para conseguir aprovar essa legislação. Mas delinear uma política que visa à construção de um movimento é fundamental para tornar possível uma votação no plenário.

“A maré só pode virar na próxima década por meio da criação de uma política de mudança climática que envolva uma ampla mobilização popular de centro esquerda,” escreveu Skocpol em 2013.

Se um dos maiores erros da Waxman-Markey foi a inabilidade de seus apoiadores para mostrar como a lei climática tornaria a vida das pessoas mais fácil, o New Deal Verde opera constantemente entregando e divulgando ganhos tangíveis em qualidade de vida, usando vitórias prévias como uma oportunidade para obter mais apoio junto às muitas e muitas pessoas que serão necessárias para desafiar o poder colossal dos executivos de combustíveis fósseis, dispostos a ir à luta de um jeito ou de outro. O New Deal Verde de Sanders oferece à população uma visão de quão melhor o mundo seria sem eles; seus princípios e sua política não estão apartados.

O plano de Sanders prevê uma série de investimentos tanto em trabalhadores como em comunidades já atingidas duramente pelo declínio no número de empregos em indústrias como a do carvão. As provisões para uma transição justa proporcionariam cinco anos de seguro desemprego, uma garantia salarial e um monte de outros benefícios para trabalhadores, assim como US$5,9 bilhões em financiamento a agências regionais de desenvolvimento econômico como a Comissão Regional Apalachiana. Reforçando quão sólida essa transição será, o New Deal Verde vai gastar seus primeiros dois anos “estabelecendo intensamente uma rede de segurança social para garantir que ninguém será deixado para trás”, expandido programas estatais de bem-estar social — como almoços gratuitos nas escolas e programa de suplemento alimentício — que em décadas recentes passaram a sofrer ataque tanto dos democratas como dos republicanos.

Há também várias referências à implementação do [seguro de saúde] Medicare para Todos e a um aumento expressivo da filiação sindical no texto que a equipe de Sanders apresentou em outro plano na semana passada. Comunidades em todo o país também poderiam receber auxílio financeiro para assumir o controle de suas instalações elétricas particulares, e o plano corajosamente estabelece um esquema detalhado para “acabar com a ganância em nosso sistema de energia” e garantir que a “energia renovável gerada pelo New Deal Verde seja de propriedade pública” — uma condição que certamente vai desagradar os atuais proprietários das instalações, que gastaram milhões bloqueando medidas climáticas em cada esfera do governo. Inicialmente, o Estado vai ficar com o lucro proveniente dos novos serviços de energia, mas, de acordo com o plano, essa energia renovável será “virtualmente gratuita” depois de 2035.

Usando uma velha cartilha, republicanos vão associar ao socialismo qualquer plano voltado a refrear emissões — seja a taxação de carbono, seja um padrão de eficiência energética. O plano de Sanders não se esquiva do fato de que o governo realmente vai desempenhar um papel mais ativo na economia — ou que a vida da maioria das pessoas será melhor por isso.

Em vez de ser receptivo aos interesses dos combustíveis fósseis na mesa de negociações, Sanders os elege como inimigo número um. Há tanto razões práticas quanto políticas para não alistar as colegas da ExxonMobil na transição para uma economia de baixo carbono: o centro de seu modelo de negócios — desenterrar e queimar tanto carvão, óleo e gás quanto possível — não mudou, e é claramente incompatível com o processo de descarbonização no tempo que a ciência diz ser necessário para evitar uma catástrofe. Além de banir o fraturamento e a “decapitação” de montanhas para mineração de carvão, assim como a extração em áreas estatais, Sanders planeja “processar a indústria dos combustíveis fósseis pelos danos causados”, referindo-se especificamente a revelações feitas nos últimos anos mostrando que a Exxon financiou a desinformação em torno do clima, mesmo sabendo muito bem o dano que o aquecimento global representa. “Essas corporações e seus executivos não deveriam se safar depois de esconder a verdade do povo americano. Eles deveriam pagar pela destruição que sabidamente causaram”, afirma o plano. Nesse aspecto, a proposta de Sanders é mais combativa que a de Ocasio-Cortez e Markey, que não menciona combustíveis fósseis.

Diante de uma luta historicamente tímida quando se trata de dar nome aos bois — e que frequentemente apresenta o problema como sendo de ação coletiva —, o New Deal Verde encoraja uma estratégia de “nós contra eles” não muito diferente da adotada por sua homônima. “Acho que as pessoas em geral se sentem apavoradas em relação à crise climática. Mas elas também foram enganadas, em parte, pela indústria de combustíveis fósseis, para acreditar que é tudo nossa culpa”, diz Weber. “Essa obviamente não é a verdadeira história. A história real é que estamos nessa confusão graças a um punhado de bilionários, com seus lobistas e políticos. Se vamos realmente tentar superar essa crise, as pessoas precisam ouvir a verdade, precisam ficar furiosas em relação a isso e saber que, se tirarmos esses caras do caminho, poderemos ter um mundo melhor para todo mundo.”

Tradução: Amarílis Lage

FONTE: theintercept

"Legado da escravidão precisa ser combatido no Brasil", diz Laurentino Gomes en entrevista [REPASSANDO]


Autor de bem-sucedida série sobre o Brasil nos anos 1800, escritor volta a se debruçar sobre a história do país, abordando a escravidão em nova trilogia. Em entrevista, ele defende uma segunda abolição.

A primeira obra da nova trilogia do autor Laurentino Gomes, intitulada Escravidão, será lançada no começo de setembro e vai abordar desde o primeiro leilão de escravos africanos enviados às Américas no século 16 até a morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.

"O Brasil foi o país no hemisfério que mais resistiu a abolir o tráfico negreiro e o que mais tempo demorou a abolir a própria escravidão. Mas, quando você olha os livros de história no Brasil, a escravidão aparece como se fosse um assunto quase secundário. O termo não aparece com a importância que teve", comentou Laurentino Gomes em entrevista à DW Brasil.

Para o autor, a discussão em torno da escravidão, assim como outros temas polêmicos, está saturada de opiniões inconsistentes dos pontos de vista histórico e científico.

"O grande problema é que o debate carece de racionalidade, porque está baseado em opiniões aleatórias, preconceituosas, sem fundamento, com o objetivo de manipular o público em favor de projetos muito bem alicerçados que estão sendo implantados de forma rápida no Brasil, envolvendo direitos sociais, trabalhistas, a proteção do meio ambiente. O meu livro chega para infundir alguma racionalidade no meio disso tudo", afirma.

Ainda sobre o momento atual, Laurentino Gomes defende o que chama de uma segunda abolição, fruto das desigualdades sociais brasileiras. Segundo dados do Atlas da Violência deste ano, 75% das vítimas de homicídio no país são negras.

"Vivemos um regime de exclusão, com uma elite pequena, que se beneficia dos recursos públicos, que consome, e do outro lado uma massa enorme de excluídos. Esse é um legado da escravidão que precisa ser combatido", diz.

Sua trilogia anterior (1808-1822-1889) ficou caracterizada pela linguagem acessível, o que motivou grande interesse do público pela história do Brasil. A fórmula se repetiu ao lidar com a escravidão?

Repeti esse processo, mas o livro guarda outras alterações, a começar pela capa. Os subtítulos são mais sóbrios, algo que na trilogia anterior era mais provocativo, com o intuito de capturar um leitor não habituado à história do Brasil. Nesse livro, esses fatores são mais circunspectos, porque o assunto assim exige. Uso curiosidades, com personagens surpreendentes, que os leitores provavelmente desconhecem, mas também me arrisco a fazer mergulhos mais profundos, explicando os alicerces da escravidão, as origens, a economia do açúcar que se instala na América depois da expansão portuguesa e espanhola. Essa mistura precisa ser muito cuidadosa: não se pode ficar apenas em curiosidades, porque o livro poderia ser superficial, mas também não é o caso de fazer algo extremamente profundo, porque já existe uma literatura acadêmica fazendo isso.    

O senhor costuma dizer que é impossível entender o Brasil de hoje sem
conhecer nossas raízes na África. O que a pesquisa para essa trilogia lhe
revelou e que também pode impactar o público?

O Brasil foi o maior território escravista do hemisfério ocidental. Foram 5 milhões de cativos africanos ao longo de 350 anos. Todos os ciclos econômicos do Brasil, desde o pau-brasil, foram mantidos, alimentados e explorados com esse tipo de mão de obra. Só que os índios brasileiros morriam aos montes em função desse choque epidemiológico que eram as doenças trazidas à época, como varíola, sarampo. O Brasil foi o país no hemisfério que mais resistiu a abolir o tráfico negreiro e o que mais tempo demorou a abolir a própria escravidão. Mas, quando você olha os livros de história no Brasil, a escravidão aparece como se fosse um assunto quase secundário. O termo não aparece com a importância que teve. Considero a contribuição africana a mais importante na história do Brasil, tanto do ponto de vista econômico quanto cultural.

Como o Brasil lida hoje com o passado da escravidão?

A escravidão aparece muito fortemente em nossas estatísticas. Quando falamos de exclusão, desigualdade social, estamos falando desse legado, porque é majoritariamente essa população que convive com níveis inaceitáveis de indicadores sociais, quando comparados com descendentes de europeus brancos. O Brasil aboliu a escravidão no final do século 19, mas o objetivo não era resolver o problema dos escravos e seus descendentes, mas apagar uma mancha que complicava a imagem do país perante o mundo supostamente desenvolvido. Há um resíduo de preconceito que está se manifestando hoje de forma mais explícita do que no passado. Os brasileiros criaram mitos a respeito da escravidão, até mesmo para mascarar a importância do tema na nossa história. Tem essa lenda de que o Brasil é uma democracia racial, que nossa escravidão foi patriarcal, benévola. Ao fazer a pesquisa, você percebe que a escravidão foi tão violenta quanto em qualquer outro lugar onde houve cativeiro. O Brasil é uma sociedade de castas, e essa estrutura, hierarquização por classes, é fruto desse processo.

Esse entendimento sobre o que é a escravidão no Brasil mudou principalmente com a redemocratização. No passado, esses mitos raciais foram impostos por governos autoritários, durante a ditadura. A construção da imagem nacional brasileira sempre foi feita de cima para baixo. Na democracia, esses mitos estão sendo confrontados. Há uma discussão sobre o fato de o país ser pacífico e cordial. Como explicar que 19 das 50 cidades mais violentas do mundo estão aqui? Se somos honestos, trabalhadores, como justificar os altíssimos índices de corrupção, a promiscuidade entre os interesses públicos e privados?

Eu termino o penúltimo capítulo do livro falando de uma disputa em andamento pela memória da escravidão. Essa batalha trata do calendário nacional, envolvendo a princesa Isabel e o 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea, e o 20 de novembro [de 1695], com a morte do Zumbi dos Palmares. O 13 de Maio é cada vez menos celebrado em relação ao passado. Ao mesmo tempo, o 20 de Novembro também não está em todos os estados do país. O que está em jogo aí é a memória e o papel da escravidão na construção da identidade, inclusive para questionar como vamos nos relacionar com esse tema no futuro.

O senhor passou por Cabo Verde, Senegal, Angola, Gana, Marrocos, Benin, Moçambique e África do Sul. O peso do passado do tráfico negreiro é o mesmo nestes países?

Existe um grande ressentimento em relação ao colonialismo europeu do século 19 e os que exploraram seus recursos naturais, mas não propriamente contra a escravidão, porque quem ficou no continente não sofreu as consequências, a dor da escravidão. Claro, foram separados da família, comunidades foram divididas. Mas a escravidão era praticada de maneira ancestral na África desde o Egito, isso aparece no livro do Gênesis. A Mauritânia, por exemplo, aboliu a escravidão em 2007. Não existe essa ideia de passivo, de ajuste de contas que nós vimos no continente americano.

De que maneira o Brasil é visto nos países africanos pelos quais o senhor passou?

Existe uma empatia muito grande, as pessoas adoram o Brasil. Gostam muito da música, torcem pela seleção brasileira, cultuam o Senhor do Bonfim, assistem novelas. Há um interesse muito grande, mas, neste momento, percebi um ressentimento pelo fato de o Brasil ter voltado as costas para a África. O Brasil tem vivido surtos de aproximação e distanciamento com o continente. Cito na introdução do livro que o primeiro país a reconhecer a independência de Angola em relação ao domínio português foi o Brasil, durante o regime militar. O último surto de aproximação ocorreu durante o governo Lula, com as empreiteiras, que depois foram envolvidas na Lava Jato. Atualmente, o distanciamento é total. O vácuo deixado pelo Brasil na África está sendo ocupado pela China, com empreendimentos em diversos países. Mas não senti cobrança em relação à escravidão.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que os portugueses nem pisaram na África, e que os próprios negros foram responsáveis pelo tráfico. Como o senhor vê tal afirmação?

História é uma ferramenta de construção de identidade. Você olha para o passado, constrói o presente e prepara o futuro. Isso significa que a história é alvo de interpretações, manipulações por parte de partidos, governos, campanhas eleitorais, o tempo todo. Quando você fala de projetos políticos e ideologias, estamos falando de construção da identidade nacional. Que país nós somos, o que gostaríamos de ser. O atual momento é muito pródigo nisso. O grande problema é que o debate carece de racionalidade porque está baseado em opiniões aleatórias, preconceituosas, sem fundamento, com o objetivo de manipular o público, em favor de projetos muito bem alicerçados, que estão sendo implantados de forma rápida no Brasil, envolvendo direitos sociais, trabalhistas, a proteção do meio ambiente. O meu livro chega para infundir alguma racionalidade no meio disso tudo. É um absurdo dizer que os portugueses nunca pisaram na África.

Justamente neste momento há uma descrença do atual governo em relação à pesquisa. Como o senhor imagina o impacto da publicação a partir dessa perspectiva?

O livro chega em um momento adequado porque o assunto está em debate nas redes sociais, no discurso político. Mas não acho que a obra seja mais um capítulo para criar polêmica. Estou amparado na história e na pesquisa. Agora, tem gente que vai discordar da visão que eu passo sobre Zumbi, os portugueses na África. Hoje, por exemplo, existe um discurso muito racista no Brasil de que não há dívida histórica a ser paga na forma de cotas preferenciais para afrodescendentes, porque os negros africanos escravizavam africanos e, portanto, supostamente, os escravos eram corresponsáveis pela própria escravidão. Isso é um absurdo, algo que remonta às ideias do século 19. No livro, explico que havia escravidão na África tanto quanto existia na Europa, na Ásia, no Oriente Médio. Brancos escravizavam brancos. Agora, o fato é que o tráfico negreiro no Atlântico foi transformado numa escala industrial pela necessidade de mão de obra dos colonizadores europeus. Não se pode dizer que os africanos foram escravizados e cruzaram o Atlântico por vontade própria. Eles foram comprados por milhões, atendendo uma demanda.

Recentemente, o compositor Caetano Veloso afirmou que é necessária uma segunda abolição no Brasil. O senhor endossou a ideia. O que isso significaria na prática?

Endossei e levei muita paulada nas redes sociais, apenas por ter apoiado o Caetano Veloso, que virou um personagem meio maldito para determinada parcela da sociedade brasileira. Entendo que a segunda abolição tem a ver com uma frase do Joaquim Nabuco no século 19, que diz o seguinte: "Não adianta acabar com a escravidão. É preciso também cuidar do legado da escravidão". Essa é a segunda abolição. A nossa população afrodescendente ganha menos; o homem negro tem 10 vezes mais chances de ser vítima de um homicídio do que um homem branco; a população carcerária é majoritariamente negra; é maioria nas periferias insalubres; não existiu nenhum ministro negro no Supremo Tribunal Federal depois que Joaquim Barbosa se aposentou; não há senadores, poucos deputados ou donos de empresas. São poucos escritores, diretores de cinema, professores da USP, e é disso que se trata a segunda abolição. Promover essa parcela da população, que é maioria, através de políticas públicas adequadas, por mais polêmicas que elas sejam, para que todos os brasileiros tenham chance de expressar seus talentos, vocações, com toda potencialidade. Aí, sim, o Brasil vai se tornar um país decente, porque hoje vivemos um regime de exclusão, com uma elite pequena, que se beneficia dos recursos públicos, que consome, e do outro lado há uma massa enorme de excluídos. Esse é um legado da escravidão que precisa ser combatido.

FONTE: dw

De um lado Robôs impulsionaram hashtags contra ONGs na Amazônia e a favor de Salles e de outro Bolsonaro critica Lei das Fake News [REPASSANDO]

Ethel Rudnitzki (Agência Pública)
I- ROBÔS IMPULSIONARAM HASHTAGS CONTRA ONGS NA AMAZÔNIA E A FAVOR DE SALLES

Por Elpais

Robôs impulsionaram hashtags contra ONGs na Amazônia e a favor de Salles
Cerca de 1% dos perfis foram responsáveis por mais de 20% das postagens com as tags pró-Governo. No movimento contra o Planalto, 1% dos perfis foram responsáveis por 9% das postagens

Na semana passada, entre 19 e 24 de agosto, as queimadas na Amazônia foram um dos assuntos mais comentados no Twitter mundialmente. Em meio à polarização no Twitter, as hashtags foram mais uma vez usadas como armas para ganhar a opinião pública —mas dessa vez, com auxílio de robôs e turbas virtuais, segundo levantamento feito pela Agência Pública.

No dia 21 de agosto, o presidente Jair Bolsonaro acusou, sem provas, organizações não governamentais (ONGs) pelos incêndios na Amazônia. “Pode estar havendo a ação criminosa desses ongueiros para chamar atenção contra o governo do Brasil”, disse em coletiva de imprensa. No mesmo dia, seus apoiadores lançaram a hashtag #AmazoniaSemOng, que chegou aos assuntos mais comentados da rede no Brasil.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também recebeu uma hashtag de apoio nas redes. A tag foi lançada, com pouca expressividade, no dia 21 de agosto. No dia seguinte, depois que o partido Rede Sustentabilidade entrou com pedido de impeachment do ministro, a #SomosTodosRicardoSalles chegou aos Trending Topics no Brasil.

A Pública teve acesso às primeiras 50 mil postagens de cada uma das hashtags #AmazôniaSemONG e #SomosTodosRicardoSalles durante os dias 21 e 22 de agosto, extraídas pelo Laboratório de Pesquisadores Forenses Digitais (DFRLab), da organização Atlantic Council. Os dados mostraram que por trás das tags estavam perfis com indícios de automação, responsáveis por manipular as tendências na rede social.

Além disso, a reportagem verificou que o uso das hashtags foi orquestrado em grupos bolsonaristas no WhatsApp. Um número identificado como “TV a Cabo” publicou em quatro grupos ligados a Jair Bolsonaro de diferentes estados mensagem chamando para “Twittaço” com as tags #AmazôniaSemONG e #ApoioTotalRicardoSalles. A mensagem também conclamava os participantes do grupo a seguir a conta oficial de Twitter da Secretaria Especial de Comunicação Social do Governo federal (Secom), criada no auge da crise, em 21 de agosto.

Mensagens quase idênticas foram publicadas mais de 100 vezes pelo perfil @direitaforte7 no Twitter. O perfil, que foi excluído pela plataforma, mencionava outras contas, como a do próprio presidente e de ministros do governo, chamando para o “Twittaço”.

Procurada, a Secom não respondeu sobre sua relação com o Twittaço até a publicação da reportagem.
Poucos perfis, muitas postagens

O primeiro registro da hashtag #AmazoniaSemONG apareceu 4 horas depois de Bolsonaro publicar fala acusando as ONGs pelos incêndios na Amazônia em seu Twitter. Às 20h10 do dia 21 de agosto, o influenciador digital conservador Jouberth Souza, que acumula mais de 45 mil seguidores na rede social, comentou em publicação do filho do presidente, Eduardo Bolsonaro: “Usem a tag: #AmazoniaSemONG”. O comentário teve 130 retweets.

Uma hora depois, a tag já tinha mais de 1500 menções no Twitter, de 617 perfis diferentes. A grande maioria de postagens vinha de usuários anônimos e alguns ativistas digitais mais influentes.

Entre os anônimos, estavam perfis estranhamente ativos. Das 1500 primeiras postagens, 379 (25%) vieram apenas de 10 usuários. O perfil @jogomartins, de João Gomes Martins, com apenas 159 seguidores, publicou ou replicou a hashtag 87 vezes na primeira hora. Em seguida vem o perfil @ajulia366, com 73 publicações com a #AmazoniaSemONG no período. Em terceiro lugar, o perfil @MayDgoni, identificado como Mayra, publicou e retuitou a hashtag 53 vezes na primeira hora.

No total, apenas 180 usuários (1% do total de perfis que usaram a tag) foram responsáveis por 20% das primeiras 50 mil postagens com a #AmazôniaSemONG.

A hashtag #SomosTodosRicardoSalles também teve poucos usuários publicando muitas vezes, mas a atividade anormal só começou horas depois do primeiro tweet, feito às 10h01 da manhã do dia 21 de agosto por Nadja Clea (@najinhas), perfil ligado à direita com 9,4 mil seguidores. Ela retuitou uma publicação do site Conexão Política, alinhado ao governo, que dizia “ONGs que perderam verbas e cargos vão à PGR contra Ricardo Salles”, e comentou “A roubalheira acabou. #SomosTodosRicardoSalles”. Durante a manhã do dia 21 apenas ela usou a tag.

Às 16h50 o perfil @AVerdade_Libert, identificado como “Angel”, comentou com a tag em resposta a uma postagem do site de direita Renova Mídia. E às 17h18 convidou seus 22 mil seguidores a se engajarem na #SomosTodosRicardoSalles: “Podem me dar um up?”.

O pico de publicações da tag, no entanto, só ocorreu no dia seguinte, quando também chegou aos Trending Topics a tag #ForaSalles, em apoio ao pedido de impeachment do ministro.

Uma das publicações com maior repercussão com a #SomosTodosRicardoSalles veio de Dani Wine Brasil.

O perfil, que segue e é seguido por 11 mil pessoas, foi o sexto que mais publicou a tag, com 183 postagens. Dani Wine ficou atrás dos perfis Silvana Merissi, com 446 tuítes, Murilo Defanti, com 420 tuites, Bronko Documentaries, 309, Mari Luci Ferraz, 274, e Giane R. Silva, 260. Das primeiras 50 mil publicações com a tag entre 21 e 22 de agosto, 11 mil (23%) vieram de apenas 122 perfis – 1% do total de perfis que usaram a tag.

É uma atividade que indica manipulação das tendências no Twitter, segundo a pesquisadora da organização Atlantic Council Luiza Bandeira. “Existem várias formas de manipular o Twitter. Uma delas é o uso de contas automatizadas, mas você também pode manipular as tendências fazendo com que poucas pessoas tuitem muitas vezes a mesma hashtag.”

Para as hashtags críticas ao Governo na questão ambiental, as taxas de usuários estranhamente ativos foi muito menor. Segundo análise da pesquisadora, no caso da #ActForAmazonia, 1% dos perfis foram responsáveis por 9% das postagens, e no caso do #PrayforAmazonia, por 11%.Como é comum, perfis de influenciadores alinhados ao Governo se engajaram nas Tags, como a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), que fez os dois tuítes com a tag #SomosTodosRicardoSalles mais retuitados, com 2,9 mil e 2,8 mil retuítes. Um tuíte do próprio Salles que retuitava o jornalista José Roberto Guzzo ficou em terceiro lugar, com 2,8 mil retuítes.

Já Allan dos Santos, dono do site Terça Livre, alinhado ao governo, foi o mais influente na hashtag #AmazôniaSemONG. Ele retuitou uma publicação de outro perfil e ironizou a cantora Anitta: “Índios, invadam a mansão da Anitta”. Foi retuitado por mais de 3 mil pessoas.
Evidências de automatização

Além das duas hashtags terem sido amplificadas por usuários estranhamente ativos, elas tiveram o engajamento dos mesmos perfis. No total, 26.821 perfis diferentes mencionaram alguma das tags entre os dias 21 e 22 de agosto. Desses, 18% (4.859) mencionaram ambas.

Entre os usuários mais ativos, a proporção é ainda maior. Dos 100 usuários que mais mencionaram a #SomosTodosRicardoSalles, 26 também estavam entre os que mais mencionaram a #AmazôniaSemONG.

O perfil de Silvana Merissi, que se apresenta como apoiadora de ministros do governo bolsonaro sob o nome de “SilzinhaBolsomoroGuedesWeintraubTarcisioDamaresAja” foi recordista de publicações com as duas tags. Pela #SomosTodosRicardoSalles, ficou em primeiro lugar com 446 menções. Pela #AmazoniaSemONG, levou o sétimo lugar, publicando a tag 142 vezes. Em todos os casos, “Silvana” retuitou publicações de outros perfis.

“A gente considera mais de 140 tuítes por dia em média como suspeito”, explica Luiza Bandeira. “Esse perfil na última semana fez quase 400 tuítes por dia, em média, o que é estranho. Além disso, ela retuita algumas coisas no mesmo segundo, o que também é indício de automação”.

Outros 4 usuários que ficaram entre os dez mais ativos têm características semelhantes. Os perfis Murilo Defanti, Bronko Documentaries, Mari Luci Ferraz e Anderson Souza, assim como Silvana Merissi, somaram mais de 1500 menções às hashtags e só fizeram retuites, com poucos segundos de diferença. Eles também se engajam em outras hashtags ligadas à direita. No dia 27 de agosto, as quatro contas retuitaram postagens com a tag #GloboLixoTraidoraDaPatria, que chegou aos Trending Topics.
Uma rede de robôs em defesa de Salles

O segundo perfil que mais tuitou ambas as tags foi o @Sah_Avelar, com 417 publicações com #AmazoniaSemONG e 157 #SomosTodosRicardoSalles. Diferentemente de Silvana, Sah Avelar não fez retuites com as tags, mas suas postagens sempre começam com um número que corresponde a um horário. Seu primeiro tuíte com a #AmazôniaSemONG foi às 20h45 do dia 21 de agosto. O texto começava com o horário “23:45” e divulgava um vídeo do canal de Youtube Conservative Core, que tratava de outra temática. Todas as postagens seguiam o mesmo padrão: horário três horas para frente, link para Youtube e hashtag.

O perfil de Sah Avelar também parece vinculado a outros três que ficaram entre os mais ativos das duas hashtags. Os usuários @sasa_news, @savelar4 e @tmr_kyle seguem os mesmos padrões de postagens que @sah_avelar, têm a mesma imagem de capa e perfil e são identificados com o nome “sasa – Conservative Core”. Outros dois perfis utilizam esse mesmo nome e imagens, @myamyers_ e @noMatte34020924, mas esses não se engajaram nas tags em questão.

Na #AmazoniaSemONG os três postaram coordenadamente, no mesmo segundo. E também agiram em sintonia para impulsionar a hashtag #ApoioTotalRicardoSalles. Contudo, a hashtag não foi para frente, e não chegou nem a 1.000 menções.

Segundo Bandeira, esses perfis têm comportamento parecido ao de uma rede de robôs, como publicações idênticas, nomes de usuários e fotos de perfis parecidos.

O Twitter possui uma política específica contra spam e manipulação de conteúdo na plataforma. Apesar de serem permitidas contas automatizadas, “não é permitido usar os serviços do Twitter com o intuito de amplificar ou suprimir informações artificialmente”. Dentre as violações dessa política, está multiplicidade de contas operando “com propósitos sobrepostos” e “usar um assunto ou uma hashtag popular com a intenção de subverter ou manipular uma conversa”.

Muitos dos usuários que se engajaram em peso nas hashtags analisadas violam tais políticas. Alguns deles, inclusive, já foram excluídos pela plataforma, como é o caso do perfil @direitaforte7, que publicou 175 vezes a #SomosTodosRicardoSalles e 105 vezes a #AmazôniaSemONG entre os dias 21 e 22 de agosto.

Procurado pela Agência Pública, o Twitter afirmou ter tomado medidas de precaução com os perfis apontados pela reportagem com indício de automação. “Em linha com o procedimento adotado quando são identificados proativamente comportamentos suspeitos na plataforma, o Twitter impôs desafios a contas compartilhadas pela reportagem para averiguar se são usuários reais ou contas falsas/automações mal-intencionadas.”

A plataforma também disse estar se esforçando “para combater proativamente tentativas de manipulação das conversas” e que exclui postagens automatizadas do cálculo para os Trending Topics.
Apoiadores do governo usam hashtags para controlar narrativa, diz pesquisador

Uma pesquisa realizada pela AP Exata mostra que o Governo perdeu o controle da narrativa sobre a Amazônia no dia 18 de agosto. A agência de comunicação digital classifica tuítes em 8 emoções-chave (entre elas, medo, confiança, raiva e tristeza) e monitorou mais de 230 mil menções à floresta na rede social desde 17 de julho e identificou aumento de 540% nas menções à Amazônia entre 17 e 21 de agosto.

“O Governo controlava o discurso [no Twitter] até o dia 18, até o dia de São Paulo ficar sob fumaça”, explica Sérgio Denicoli, um dos coordenadores da pesquisa. “Eles ficaram 4 dias em crise tentando impor algumas narrativas. A primeira delas foi a das ONGs, que veio da boca do presidente.” Para ele, outra tentativa foi o discurso de apoio a Ricardo Salles.

Segundo a análise da AP Exata, houve interferência de perfis automatizados e falsos nas menções à Amazônia para mudar o sentimento predominante. “O objetivo é esse, formar opinião. Quando você forma opinião, não precisa mais interferir”, explica. No entanto, as hashtags #AmazôniaSemONGs e #SomosTodosRicardoSalles “não viralizaram da forma que eles queriam. Viralizaram de uma forma artificial.” Para Denicoli, “o Governo conseguiu reverter a situação impondo uma narrativa de soberania nacional. Não foi a narrativa nem de defesa do ministro, nem a narrativa de ONG.” Atualmente, a confiança é o sentimento que predomina nas postagens em relação à Amazônia, seguida pelo medo.

FONTE: elpais

II- BOLSONARO CRITICA LEI DAS FAKE NEWS: 'UM CLIQUE VAI SER MAIS GRAVE QUE UM TECO'

O veto de Bolsonaro foi derrubado por 326 deputados e 48 senadores

Por sputniknews

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, criticou neste sábado as penas mais duras para responsáveis por fake news durante as eleições.

Esta semana, o Congresso Nacional derrubou o veto de Bolsonaro à lei que pune fake news e provocou mal-estar no governo.

"Abriu a brecha pra todo mundo agora ser processado. Eu vetei, sou a maior vítima de fake news e não me preocupei com isso. A pessoa extravasa ali, não dou bola pra isso não, toca o barco. Agora qual o limite? Como vai saber se é fake news ou não? É para apavorar o povo", disse o presidente ao deixar o Palácio da Alvorada na manhã deste sábado, citado pela Agência Brasil.

O veto presidencial da Lei 13.834/2019, que atualiza o Código Eleitoral, ocorreu ainda no mês de junho.

Após a decisão do Congresso, a pena para quem divulgar notícias falsas com objetivo eleitoral será de dois a oito anos de reclusão, quando estiver comprovado que o acusado sabia da inocência do alvo da notícia falsa.

O veto de Bolsonaro foi derrubado por 326 deputados e 48 senadores.

"Um clique vai ser mais grave que um teco", declarou o chefe de Estado neste sábado aos jornalistas.

"Se matar alguém você pode ser condenado a pena menor do que dar um clique, às vezes de madrugada, reproduzindo uma matéria", acrescentou o presidente.

FONTE: sputniknews

Juiz de STF tem de ser escravo da verdade e libertar Lula [REPASSANDO]

(Foto: Felipe L. Gonçalves/Brasil247)
Davis Sena Filho

Os verbos são as sentenças da vida e a diferença de escolha entre a luz e a escuridão.

Evidentemente que Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Luiz Fux, Luís Roberto Barroso continuarão a fazer indevidamente a má política e continuar com suas injustiças para manter Lula injustamente encarcerado. É o que eles fazem, juntamente com Edson Fachin, desde que Dilma Rousseff foi deposta por um golpe de estado das bananas e Lula perseguido e preso para não vencer as eleições de 2018.

É imperativo que o STF deixe de exercer o papel de Supremo Com Tudo (SCT), que vem a ser a vergonha, o vexame e a desgraça do Brasil, principalmente, dentre inúmeras questões, ter permitido que um antro de procuradores liderados por um ex-juiz que é acusado de cometer crimes e ilegalidades no decorrer de vários processos, a ser os do ex-presidente Lula, preso político encarcerado injustamente há mais de 500 dias, sem ter sido possível até hoje provar e comprovar que o maior líder político do País é o autor dos crimes imputados a ele por agentes do estado, estes sim protagonistas de inúmeros crimes, que já entraram para as páginas da história.

A verdade é que os juízes do Supremo Com Tudo não querem fazer justiça, porque resolveram intervir indevidamente e até mesmo ilegalmente para dar fim à hegemonia política e eleitoral do Partido dos Trabalhadores, a fim de estabelecer no poder uma direita derrotada quatro vezes consecutivas, a ter o PSDB e seus aliados como os grandes derrotados, bem como abrir brechas de forma que após a derrota de Aécio Neves, o playboy e golpista mimado, servissem como trampolim para outra opção à direita. E assim foi feito.

Acontece, cara pálida, que o tiro saiu pela culatra, quando o fascista e apoplético Jair Bolsonaro sentou na cadeira da Presidência da República, a evidenciar, por sua vez, que o Brasil chegou ao fundo do poço, como demonstram, ipsis litteris, as diversas crises políticas de conotações ferozes, assim como o fracasso econômico retumbante propiciados por um desgoverno violento e decidido a apenas atender aos anseios hegemônicos e econômicos dos Estados Unidos e das classes dos ricos e muito ricos, como o faz o irresponsável e fundamentalista de mercado, o chicagoboy Paulo Guedes — o paladino do retrocesso e do atraso.

Contudo, a questão primordial é quanto ao Supremo Com Tudo, tribunal que humilha e envergonha a Nação perante o mundo civilizado, ainda ter dúvidas sobre as condutas dos bate paus da Lava Jato, a incluir delegados, procuradores e juízes, que se tornaram atores de gangsterismo de Estado, a criar a maior crise política e econômica do Brasil pós redemocratização, a não deixar pedra sobre pedra no que concerne à preservação dos interesses nacionais e à destruição de uma economia que estava a se preparar para ser a quinta mais poderosa do mundo.

E lá vem os magistrados do SCT com seus punhos de renda, capas de Zorro e uma soberba que deixaria satanás humilhado. Servidores públicos nomeados e a fazer política como se fossem eleitos pela população brasileira, a influenciar despoticamente no processo democrático e a pender para a direita, a incompetente que apresentou ontem o pibinho do trimestre de 0,4%, cuja imprensa de negócios privados e alma golpista, notadamente a Rede Globo, apresentou, sem o mínimo de vergonha na cara, como “recessão técnica”, a fim de disfarçar o fracasso total de um desgoverno incompetente e de extrema direita.

Trata-se de um processo malévolo e pernicioso, cujo presidente fascista, Jair Bolsonaro, juntamente com o ministro do Feirão Brasil da Queima de Estoques, Paulo Guedes, que só pensam em vender o patrimônio público do País, como se vencer eleições para governar autorizassem esses péssimos servidores plenos de complexo de vira-lata e disposição para trair a sociedade e a Nação, a desmontar, irresponsavelmente, o setor público e entregá-lo para o estrangeiro controlar os mercados e, consequentemente, os preços dos produtos e serviços, que antes eram prerrogativas dos mandatários eleitos pela maioria do povo brasileiro.

E aí, fica-se sabendo que o Supremo Com Tudo continua com sua catilinária sem fim, pois um tribunal conspirador e que trocou os pés pelas mãos e agora tem de empurrar com a barriga uma decisão sobre a liberdade de Lula, que, evidentemente, torna-se a cada dia que passa mais urgente sua libertação, porque se trata não somente de justiça, mas também de civilização.

Sabe-se, por exemplo, que muitos juízes e procuradores que vão ao exterior são questionados quanto à situação injusta e infame em que envolveram o político e líder trabalhista e de esquerda. É sórdida e vexaminosa a conduta de muitos integrantes do Judiciário e do MPF, que certamente, ressalto mais uma vez, se agissem dessa forma canhestra em um país sério estariam presos e sumariamente demitidos.  

Por sua vez, o STF está dividido no que é relativo à anulação de sentença de Sérgio Moro no caso Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras. Seria cômico se não fosse trágico. É evidente, se o magistrado, que é agente público pago pelo contribuinte não tiver o miolo mole ou não estar envolvido com conspirações corporativas e políticas, que a anulação das condenações que não respeitaram o devido processo legal terão de ser anuladas.

E é aí que morre a esperança da direita brucutu deste País responsável por mais um golpe bananeiro de estado e que está neste momento a destruir a economia, além de estar a leiloar para amenizar sua inquestionável incompetência as reservas internacionais de US$ 382,5 bilhões de dólares, que servem e serviram como um “colchão” de anteparo às crises mundiais, a exemplo dos tempos da crise internacional, que levaram por anos a fio a Europa e os EUA à bancarrota.

E o desgoverno incompetente do fascista Bosolnaro e do estúpido Paulo Guedes a implementar o neoliberalismo que não deu certo nos países desenvolvidos, que levou os velhinhos do Chile ao suicídio, que está agora a arrebentar amargamente com a Argentina, bem como foi um fracasso retumbante nos governos Collor, FHC e Temer. É mole ou quer mais, cara pálida sem juízo?! Lula e Dilma, além de construírem os alicerces dessas reservas, diminuíram a patamares pequenos o desemprego e fizeram a roda da economia girar, a movimentar o mercado interno, estratégia esta que está a ser implementada há anos pelo governo xenófobo e protecionista de Donald Trump.

É incrível, né? Protecionismo e nacionalismo norte-americano é bonito e lindo para o desgoverno neofascista de Bolsonaro e para a “elite” bananeira brasileira desprovidos de vergonha na cara e entreguistas até a alma, sem, no entanto, fazerem quaisquer autocríticas sobre a necessidade de o Brasil ter um projeto nacional, que permita seu desenvolvimento em todas as áreas, elimine a pobreza e preserve, a qualquer custo, sua soberania.

A direita combate esse processo de autonomia e independência, ainda mais que após o golpe contra a legítima e constitucional presidente, Dilma Rousseff, parcela importante da sociedade percebeu, nitidamente, que o inimigo do Brasil não é o estrangeiro e sim a casa grande brasileira herdeira da escravidão e apoiada pelas forças de segurança e armadas deste País, que estão no poder, a sustentar o golpe terceiro-mundista, pois querem o preso político, Luiz Inácio Lula da Silva, encarcerado, calado e proibido de se movimentar para fazer política, pois Lula no poder significa soberania e desenvolvimento com nacionalismo. E isto, definitivamente, não interessa aos Estados Unidos e à casa grande brasileira e seus capitães do mato, que se encontram no Palácio do Planalto e ministérios. Ponto.

Lula deveria ser imediatamente solto e livre para unificar o País. Sérgio Moro agiu de má-fé, de forma deliberada para ter em suas mãos incontáveis delatores, em uma imposição digna de um pequeno Mussolini, que foi seletivo, partidário e antirrepublicano. Trata-se de sentenças previamente decididas ao bel-prazer de quem tinha em suas mãos a decisão de julgar, prender e soltar todos aqueles que porventura passassem pelos corredores insalubres e mórbidos da Lava Jato.

Como podem os juízes do Supremo Com Tudo estarem divididos, pois o que o Intercept Brasil divulgou é algo que faria os juízes das cortes supremas de países civilizados soltar imediatamente o Lula e pedir humildemente desculpas, por exemplo, e prender o pequeno déspota Sérgio Moro e seus áulicos de conspirações, armações e golpes, como o Deltan Dallagnol — o Rei das Palestras. Que beleza!

Porém, a Segunda Turma do SCT decidiu anular a condenação de Bendine, porque o argumento de que as alegações finais dos delatores precisam ser apresentadas antes que as dos outros réus do processo é o caminho correto e justo, pois quem acusa não pode falar junto ou depois de quem foi acusado. Ou seja, a defesa fala por último, sendo que grande parte dos processos que leva a condenações por decisões dos tribunais de almas e propósitos lavajatenses não respeitaram o processo legal. E foi o que também aconteceu com o Lula. Surreal, mas real, afinal aqui é o Brasil das “elites” bananeiras, onde quem pode mais chora menos...

E não é que mesmo a saberem das publicações da Vaza Jato e as barbaridades cometidas por delegados, procuradores e juízes, de acordo com as notícias, cinco magistrados do SCT são contrários à extensão da medida para os demais casos da Lava Jato, assim como cinco são favoráveis. A resumir: o problema é o Lula. Quanto ao republicanismo e a igualdade a todos os cidadãos, conforme reza a Constituição, são apenas um detalhe para certos juízes do Supremo, que não estão nem aí para o que é legal e legítimo. E que se dane a Justiça, e o que é justo e obediente à Lei. Juiz de STF tem de ser escravo da verdade e libertar Lula.

A defesa de Lula, o político brutalmente e desumanamente perseguido pela Lava Jato com aquiescência dos juízes burgueses e conspiradores do SCT, continua a ter seu corpo sequestrado pelo sistema judiciário e mantido como preso político há mais de 500 dias, volto a lembrar. Lula solicitou o mesmo benefício concedido a Bendine. A ação está agora sob a responsabilidade do ministro Edson Fachin, que enviou o caso para ser analisado pelo plenário do Supremo Com Tudo — que vem a ser a vergonha, o vexame e a desgraça do Brasil. Libertar Lula é imperativo, pois uma decisão em prol da civilização e da justiça. É isso aí.

FONTE: brasil247

Enquanto a Amazônia arde, governo e mídia ignoram discussão sobre a política climática [REPASSANDO]

Fotos: Agência Brasil
Por Lizely Borges e Iara Moura - Carta Capital

Semana do Clima em Salvador é agenda pouco visível e desvinculada da política federal

Na semana em que os incêndios de grandes proporções atingiram cinco estados da Amazônia, com visibilidade ampliada pelos posicionamentos públicos de lideranças e organismos internacionais e cobertura pela imprensa de fora, a agenda de diálogo direto com uma das causas centrais dos incêndios – o clima – foi silenciada e pouco abordada pelos veículos de comunicação. Quando apareceu, a questão do clima foi tratada de maneira desconectada dos papéis dos entes administrativos federais e dos impactos na vida dos povos e comunidades tradicionais que ocupam as regiões afetadas pela variação climática e grandes incêndios.

Não apenas a visibilidade midiática da Semana Latino-Americana e Caribenha sobre Mudança do Clima, realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU), em Salvador (BA), entre os dias 19 a 23 de agosto, foi inferior à altura da importância da agenda, como também os enquadramentos das notícias demonstram um cenário preocupante sobre o papel dos meios de comunicação em evocar as responsabilidades dos diferentes sujeitos sociais na preservação da Amazônia e de seus povos.

Durante o período do evento, de 19 a 23, o Intervozes monitorou os jornais O Globo, a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo em suas edições impressas e online em busca das palavras chave “Semana do Clima”. Aberto ao público, o evento reuniu representantes de 26 países e contou com a participação de cerca de 5000 pessoas, entre poder público, organizações, universidades e público em geral.

Nenhuma citação ao evento apareceu como pauta central ou secundária no Estadão na edição impressa ou no portal do veículo. No G1, a menção à semana apareceu nos primeiro e segundo dia do evento (“Semana do Clima começa em Salvador com discussões sobre aquecimento global” e “Segundo dia da Semana do Clima tem debates sobre financiamento climático em Salvador”) com foco na programação. No dia 21, a cobertura do veículo destaca a vaia proferida pelos participantes contra o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles e, na sexta-feira, enfoca o encontro entre prefeitos da América Latina e Caribe que marcou o encerramento da Semana.

Embora o G1 tenha conferido alguma visibilidade ao evento, em especial pelo trabalho da sucursal na Bahia, as matérias se restringiram à polêmica em torno dos anúncios feitos por Salles do cancelamento da Semana seguido da decisão posterior de manter o Brasil como sede.

Além disso, enfocam a pressão de municípios brasileiros, organizados em torno da Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), para que o país sediasse a agenda – mesmo com a desistência do governo brasileiro em realizar no país a Conferência do Clima (COP 25), então transferida para o Chile.

Como fontes citadas aparecem apenas o próprio Ministro em declaração no qual anuncia visita ao Mato Grosso para acompanhar as queimadas e uma entrevista do diretor sênior de Política e Programa de Mudanças Climáticas da ONU, Martin Frick. É de Frick a única sinalização de vínculo entre a pauta do clima e as queimadas em entrevista ping pong. Na edição impressa d’ O Globo, a única menção à Semana é numa notícia sobre as queimadas que cita a vaia que o ministro recebeu. 

Na Folha de São Paulo, a cobertura da Semana do Clima foi pauta de três reportagens: “Salvador recebe conferência climática sem representantes do governo federal”, “Salles é recebido com vaia em evento do clima, muda agenda e vai para Amazônia” e “Estados e prefeituras querem cumprir metas de Acordo de Paris independentemente da posição de Bolsonaro”.

Comparativamente aos demais veículos monitorados, a cobertura da FSP possui mais vieses e elementos de resgate da conturbada realização da agenda, provavelmente pelo fato de que uma repórter do veículo esteve presente na agenda a convite do Instituto Clima e Sociedade (ICS).

A matéria posiciona que a agenda se insere em contexto de crescente preocupação mundial com o tema, cita a recusa de Salles em receber informações sobre a Semana do Clima, aponta que as metas estabelecidas em 2015 pelo Acordo de Paris são insuficientes para conter a grave problemática do aquecimento global, resgata as ameaças do presidente Jair Bolsonaro para deixar o Acordo e papel do Brasil na ECO92 e relata esforços de prefeitos para a realização do evento.

 As matérias também apresentam maior diversidade de vozes retratadas – não apenas Salles ou Frick são rapidamente citados. As notícias trazem falas do secretário de sustentabilidade de Salvador, André Moreira Fraga, a coordenadora-geral de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas da Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia, Ana Luiz Champloni, o governador do Espírito Santo Renato Casagrande e o ex-coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, Alfredo Sirkis.

Embora traga mais elementos, as ausências informativas da cobertura da Folha de São Paulo corroboram a linha dos demais veículos monitorados e suas funções sociais no trato de tema de alta relevância. Novamente as matérias não questionam o Governo Bolsonaro sobre a não apresentação de um programa para enfrentamento ao aquecimento global e não reconhecem os povos e comunidades afetadas diretamente pela crise climática como fontes legítimas para opinar sobre as realidades que vivenciam.

Nos dois veículos, contraditoriamente ao peso predominante de fontes do poder público nas matérias monitoradas, a responsabilidade do Estado brasileiro é pouco evocada. Diante do anúncio da cancelamento das presenças de Salles e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, nos debates previstos na programação da Semana e a saída brusca do ministro no segundo dia do evento, os veículos optaram apenas para descrever os episódios. A ausência do governo brasileiro – dos seus alto comandos e não dos técnicos, como noticiado – na agenda pré-Conferência Internacional do Clima e a presença evasiva de Salles diz intensamente sobre a política ambiental adotada pelo país.

Caberia aos veículos conectar estas ausências com elementos como os sucessivos cortes orçamentários na fiscalização ambiental e prevenção de incêndios (na ordem de 20%), o esvaziamento das funções do Ministério do Meio Ambiente pela reestruturação administrativa pelo governo Bolsonaro – inclusive com ida da pauta sobre mudanças climáticas para pasta da Economia – entre outros, o destruidor incêndio na Amazônia em curso neste momento.
Vozes silenciadas

No impresso do grupo Globo, por exemplo, mesmo nas matérias que tratam das queimadas, não há espaço para os povos e comunidades tradicionais da Amazônia. Na semana de realização do evento – período no qual as queimadas na Amazônia atingiram seu ápice, nenhum indígena, quilombola, ribeirinho ou mesmo ONG foi ouvido nas edições online e impressa do jornal. As matérias privilegiaram as fontes oficiais e se resumiram a ecoar as declarações e contrapontos entre o apresentado por institutos de pesquisa e o governo Bolsonaro, além de repercutir falas dos governadores responsabilizando o chefe do Executivo.

Além destes, são ouvidos como fontes ainda agropecuaristas como Blairo Maggi (grande produtor de soja, ex ministro, ganhador do motossera de ouro pelo Greenpeace) e Marcelo Britto (Associação Brasileira do Agronegócio), sem nenhum contraponto às suas falas.

Nas páginas de opinião os articulistas d’O Globo enfatizam os riscos do desastre ambiental para a exportação de commodities. O impacto sobre a biodiversidade é quase que um mal menor comparado ao impacto negativo que pode vir a ter no setor agropecuário com a possibilidade de sanções internacionais à produção brasileira. Tanto as matérias quanto nos editoriais, com exceção de uma menção ao Acordo de Paris, não se reverenciam em tratados e acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Sem a conexão entre a adoção pelo governo de uma política de desmonte da agenda ambiental e seus perversos efeitos para os povos e comunidades tradicionais da Amazônia – invisíveis nas matérias monitoradas – as reportagens d’O Globo e Folha De São Paulo, oferecem uma contemplação superficial do debate – sem a revelação das causas e consequências dos fatos e são marcadas pela despolitização das responsabilidades do Estado, da sociedade e da própria mídia no que concerne à questão ambiental.

*Por Lizely Borges e Iara Moura, com colaboração de Ramênia Vieira, todas integrantes do Intervozes

Dilma Rouseff: A história será implacável com os golpistas [REPASSANDO]

"O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista"
Em histórico discurso em 31 de agosto de 2016, a presidenta foi profética. “Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social”, denunciou

Publicado por Paulo Donizetti de Souza, da RBA

No dia 31 de agosto de 2016, consumado o afastamento do exercício da Presidência da República, Dilma Rousseff se dirigiu ao povo brasileiro na sala dourada do Palácio da Alvorada, residência oficial onde viveu por seis anos. Foi seu último pronunciamento, em que antevê os retrocessos impostos ao povo brasileiro e denuncia os riscos econômicos e sociais para o país.

“O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social”, profetizou.

Enquanto no Congresso um tapete vermelho estendido para Michel Temer tomar posse, Dilma se dirigia ao púlpito no Alvorada. Altiva e  confiante, disse que era vítima de um golpe cujo único propósito era implantar uma agenda liberal para a vontade daqueles que foram derrotados nas últimas quatro eleições presidenciais pelo PT.

“Não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores”, disse a presidenta, citando Darcy Ribeiro. “A história será implacável com eles”. Com a voz embargada, despediu-se do povo, mas sem dizer adeus. “Até daqui a pouco”, declarou.

Antes de encerrar o pronunciamento, Dilma alertou para as verdadeiras razões que estavam por trás do impeachment fraudulento, aprovado por 60 votos a 20 pelo Senado. “O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência”, disse. Abria-se naquele momento a oportunidade para a ascensão do governo de Jair Bolsonaro.

Naquele dia 31 de agosto, Dilma teve clareza do que estava por vir e vaticinou: “O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido”.

Desde a saída de Dilma do poder, os retrocessos sociais foram se impondo aos brasileiros. Primeiro, com Michel Temer. No governo do MDB, o Congresso aprovou uma Lei de Teto de Gastos, congelando investimentos por 20 anos nas áreas de educação e saúde. Em seguida, os golpistas atentaram contra os direitos dos trabalhadores ao impor uma reforma para desmanchar a proteção social garantida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

O Golpe de 2016 foi o que permitiu a ascensão de Jair Bolsonaro. O candidato foi eleito com o apoio descarado da Lava Jato, encabeçada por Sérgio Moro, atual ministro da Justiça do governo de extrema direita, que não apenas condenou Luiz Inácio Lula da Silva de maneira ilegal e afrontando a Constituição – já que não há provas de corrupção contra o presidente –, como o retirou da disputa presidencial de 2018 para beneficiar Bolsonaro.

A imprensa, que sabia dos riscos da eleição do ex-capitão, expulso do Exército ainda nos anos 80, foi omissa e apoiou indiretamente a chegada de Bolsonaro ao Planalto. Agora, o país assiste à mais nefasta política social adotada em meio século.

O governo ameaça a soberania nacional, ao promover a venda de estatais e entregar a base militar de Alcântara para ser administrada pelos Estados Unidos. Além disso, amplia os cortes de recursos para a saúde e educação, e persegue os movimentos sociais, incluindo sindicatos e ONGs, abrindo espaço para toda sorte de práticas de empresas e interesses estrangeiros.

Eis a íntegra do último pronunciamento de Dilma Rousseff antes de deixar o poder em definitivo.

“Ao cumprimentar o ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, cumprimento todos os senadoras e senadores, deputadas e deputados, presidentes de partido, as lideranças dos movimentos sociais. Mulheres e homens de meu País.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma Presidenta que não cometeu crime de responsabilidade. Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado.

É o segundo golpe de estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis.

Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história, propiciada por ações desenvolvidas e leis criadas a partir de 2003 e aprofundadas em meu governo, leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.

O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social.

Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment.

Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido. Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.

O golpe é contra o povo e contra a Nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.

Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes.

Falo principalmente aos brasileiros que, durante meu governo, superaram a miséria, realizaram o sonho da casa própria, começaram a receber atendimento médico, entraram na universidade e deixaram de ser invisíveis aos olhos da Nação, passando a ter direitos que sempre lhes foram negados.

A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta.

Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.

Quando o Presidente Lula foi eleito pela primeira vez, em 2003, chegamos ao governo cantando juntos que ninguém devia ter medo de ser feliz. Por mais de 13 anos, realizamos com sucesso um projeto que promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso País.

Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.

Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.

Saio da Presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer ato ilícito; sem ter traído qualquer de meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar lutando pelo Brasil.

Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi de minhas responsabilidades. Me emocionei com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade.

Travei bons combates. Perdi alguns, venci muitos e, neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles.

Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, o machismo e a misoginia mostraram suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero. Nada nos fará recuar.

Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer ‘até daqui a pouco’.

Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski:

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

Um carinhoso abraço a todo povo brasileiro, que compartilha comigo a crença na democracia e o sonho da justiça”.

FONTE: rede brasil atual

Seminário exige país soberano e retomada do projeto de desenvolvimento nacional [REPASSANDO]

"Soberania é a afirmação dos povos periféricos na busca por seu lugar no mundo", disse Vivaldo Barbosa. | Foto: Lia Bianchini
Conferência “O Brasil é dos Brasileiros” aconteceu na manhã deste sábado (31), durante a 18ª Jornada de Agroecologia

Lu Sudré e Pedro Carrano-Brasil de Fato

O terceiro dia da 18ª Jornada de Agroecologia, em Curitiba (PR), foi aberto pela conferência “O Brasil é dos Brasileiros”, um espaço de aprofundamento, preparação e mobilização contra as ameaças à soberania nacional e contra a entrega dos recursos naturais brasileiros que vem ocorrendo nos últimos anos.

Em defesa da articulação de uma frente ampla, o ex-senador Roberto Requião (MDB), um dos integrantes da mesa, ressaltou ser urgente uma “política de oposição à austeridade, ao liberalismo econômico e ao que significa um governo de Paulo Guedes e de Rodrigo Maia, com um Congresso Nacional quase totalmente subordinado aos interesses do grande capital”.

Requião também defendeu a retomada de um projeto de desenvolvimento nacional protagonizado pelo povo. “O nacional cada vez mais se confunde com o popular. Nacional é o MST, é o trabalhador brasileiro. Uma parte da elite não tem mais nada a ver com [a questão] nacional, tem como referência os outros países”.

Apenas em oito meses de governo Bolsonaro (PSL), a ofensiva contra empresas nacionais se intensificou. No último dia 21, por exemplo, o presidente anunciou a privatização de 17 estatais, entre elas a Eletrobras, os Correios, a EBC, a Lotex e a Casa da Moeda.

Na avaliação de Juliano Medeiros, presidente do PSOL, os ataques aos bens nacionais e aos direitos dos trabalhadores que ocorrem são consequências de uma fase mais radical e agressiva do sistema capitalista, iniciada após a crise estrutural de 2008.

“Essa nova etapa do capitalismo não convive com a democracia e nem com as conquistas que o povo brasileiro alcançou por meio de sua luta e mobilização, assegurados pela Constituição Federal de 1988”, explica.

Medeiros classificou ainda o sistema de concessão e entrega do pré-sal, instaurado pelo governo Temer, como um dos principais retrocesso para a soberania brasileira. A gestão Bolsonaro, por sua vez, tem radicalizado e aprofundado esses ataques com um programa econômico que, segundo ele, tem como objetivo de destruir a capacidade do Estado na condução dos rumos e do desenvolvimento do país.

Thiago Olivetti, que participou da mesa representando a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e o sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina, que vivenciou na juventude a Petrobras como indutora do desenvolvimento nacional lamenta os impactos que as políticas de desmonte dos governos Temer e Bolsonaro têm causado à estatal.

Ele conta que, em Araucária, Região Metropolitana de Curitiba, a ampliação da Refinaria Getúlio Vargas (Repar) empregou 25 mil pessoas. "Gostaria que tivesse continuado, como orgulho para o país. A Petrobras chegou a ter 83 mil trabalhadores próprios e mais de 300 mil terceirizados. Hoje tem 200 mil terceirizados. Tínhamos 5 mil empregados (no litoral) e fechamos o estaleiro", lembra.

Entreguismo

O fim da demarcação de terras indígenas, defendida por Bolsonaro em favorecimento à mineração estrangeira, assim como a proximidade e estímulo ao setores do agronegócio e da agropecuária - responsáveis pelas queimadas recentes na Amazônia - também foram elencadas por Juliano Medeiros como parte de uma reorientação da política externa brasileira que coloca a nação brasileira em posição de submissão.

“O Brasil hoje se tornou vassalo do governo Trump e busca se associar ao que tem de pior na política externa em nível internacional. Se aproxima da Arábia Saudita, da Itália, da Polônia, das Filipinas e dos Estados Unidos, os países que têm os governos mais atrasados do mundo”, critica o presidente do PSOL.

A entrega da mineradora Vale ao mercado estrangeiro, empresa responsável pelos crimes socioambientais de Mariana e Brumadinho (MG), também foi relembrada como um ataque à soberania do país.

A advogada e ex-deputada federal Clair Martins, autora de projeto que questiona a venda da mineradora, relata que, em 1997, a empresa estatal era a principal exportadora do país. A posição foi conquistada por meio da intensa exploração de nióbio, tungstênio, manganês, bauxita, minério de ferro e outros bens nacionais.

Apesar de seu potencial para o desenvolvimento do país, a Vale foi vendida por R$ 3,3 bilhões, valor bem abaixo do que a estatal valia.

“O lucro recente [da Vale] foi de R$ 38,5 bilhões. Ela foi doada… Esses lucros deveriam ser repartidos. Continuamos defendendo a nulidade do leilão da Vale", afirma.

Projeto nacional

A conferência também contou com a presença de Pedro Celestino, do Clube de Engenharia, que comparou o Brasil, em extensão territorial, recursos e contingente populacional, aos EUA, China, Rússia e Índia. No entanto, ele ponderou que os outros países “cuidam de sua soberania e tem projeto nacional… Temos que ter um movimento pela soberania nacional", convocou.

No mesmo tom, Vivaldo Barbosa, deputado federal constituinte em 1988, afirmou que a luta pela soberania perpassa a construção de uma consciência nacional, na qual todos os brasileiros firmem um vínculo real, que possibilite o desenvolvimento do sentimento de pertencimento à nação.

“A soberania é a capacidade de se posicionar contra o imperialismo, é a afirmação dos povos periféricos na busca por seu lugar no mundo. A soberania faz surgir o ser nacional e é a luta política fundamental dos nossos dias. Precisamos defender nossos valores, nossas culturas, nossas identidades. Hoje, defender a soberania e o nacionalismo, é a prática mais elevada dos nossos tempos”, afirmou Vivaldo, que atuou como ex-secretário de Justiça do Estado do Rio de Janeiro durante a gestão de Leonel Brizola (PDT).

Histórico de construção de um país

Durante o espaço, Pedro Celestino, do Clube de Engenharia, fez referência à Getúlio Vargas, que em seu governo criou a carteira de trabalho pra organizar o mercado de trabalho. "Antes disso, até telha a gente importava da Europa. Havia uma elite voltada para fora", disse.

Segundo Celestino, depois da morte de Getúlio Vargas, houve a disputa entre dois projetos de Industrialização. De um lado, Eugênio Gudin defendia um país exportador, enquanto Roberto Simonsen um projeto de indústria nacional.

Mais tarde, Juscelino Kubicsthek trouxe a industrialização em aliança com capitais externos, não americanos. Essa visão, porém, não se sustentou na própria ditadura. A retomada ocorre só após o governo de Costa e Silva, segundo ele, com trajetória de Independência enquanto país. "Hoje não se sustenta 200 milhões de habitantes sem uma proposta industrial", finalizou.

FONTE: brasil de fato

Em três anos de golpe, o desmonte acelerado do Estado e de uma nação [REPASSANDO]

Dilma deixou o Palácio do Planalto em 12 de maio de 2016, O Senado consolidou seu impeachment em 31 de agosto
Quanto mais tempo durar essa lógica de destruição de direitos e da soberania, muito mais gente vai sofrer. É urgente que o povo reaja, se erga e se defenda

Publicado por Paulo Donizetti de Souza, da RBA

São Paulo – O complexo processo político, jurídico e midiático que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff dá margem para muitas efemérides. Dezembro de 2015, quando o hoje encarcerado Eduardo Cunha acolheu o pedido de impeachment elaborado por Janaína Pascoal e Miguel Reale Jr. Abril de 2016, quando a Comissão Especial aprova relatório favorável à abertura do processo, seis dias antes de, no dia 17, o plenário aprovar por 367 a 137 o encaminhamento do processo para o Senado.

No mês seguinte, a comissão do Senado dá andamento ao cortejo e, no dia 12 de maio, o plenário da Casa afasta Dilma Rousseff para que seu vice, Michel Temer, passe a ocupar interinamente o Palácio do Planalto. O Senado teria 180 dias de prazo para sacramentar o golpe, mas o consolidou mais rapidamente.

Em 31 de agosto, a presidenta eleita com 54 milhões de votos foi deposta, sem provas nem crime de responsabilidade, e definitivamente substituída por Temer. E as consequências dessa data para as mais diversas áreas de funcionamento do país inspiram a série de reportagens que a RBA passa a publicar a partir de hoje.

Reeleita em 2014 para um segundo mandato, Dilma derrotou nas urnas pela quarta eleição consecutiva, desde 2002, o projeto neoliberal então representado pelo finado PSDB de Aécio Neves. Apanhando da mídia desde a década anterior, o que seria o quarto mandato petista no Planalto deparou com um turbilhão de ataques concentrados desde as manifestações de junho de 2013.

O movimento popular nasceu modesto, contra o aumento de passagens de ônibus, e acabou rapidamente sequestrado pelas forças ocultas do poder econômico. Foi o nascedouro da serpente fascista criada com a sintonia entre os meios comerciais de comunicação e a então emergente indústria de fake news disseminada pelas redes sociais.

Como a própria presidenta observou recentemente, a democracia e o neoliberalismo não se bicam. Para que este se impusesse novamente como regente da República, foi necessário o uso violento dos sistemas de justiça, político e dos meios de comunicação disponíveis.

Tanto é que, pouco satisfeitas com o golpe de 2016, essas mesmas forças encaminharam a sua continuidade por meio da farsa eleitoral de 2018 – a que levou o Luiz Inácio Lula da Silva para a prisão em tempo recorde, sem crime e sem provas, para que Jair Bolsonaro vencesse.

O que se observou nos três anos completados neste 31 de agosto jamais teria sido viabilizado por vias democráticas, com debates transparentes para livre escolha da população, indignada e hipnotizada pelo discurso do suposto combate à corrupção por meio da qual o PT teria quebrado o Brasil.
Até quando?

O Brasil que começou a ser gestado em 2003, com a eleição de Lula, tinha como meta a inclusão social, e esta como motor do fortalecimento do mercado interno e do desenvolvimento nacional. O resultado que levou ao pleno emprego com crescimento econômico fortaleceu o Brasil que, naqueles anos, foi responsável por elaborar uma política interna e internacional que incomodou as estruturas reinantes desde 1500, com raros intervalos democráticos e de avanços civilizatórios.

Retirada do país do mapa da fome da ONU, criação dos Brics, fortalecimento do Mercosul, assento na direção do FMI e no comando na Organização Mundial do Comércio. O Brasil parecia deixar, gradual e seguramente, o passado de colonizado. Começava a trilhar uma trajetória de liderança mundial que levou Lula a ser reconhecido como “o cara” pelo presidente norte-americano Barack Obama, numa reunião do G20, em abril de 2009.

Três anos após o golpe, o Brasil enfrenta o pior momento de sua frágil democracia. Os Estados Unidos voltaram a ser referência para as decisões tomadas em terras brasileiras. Chegam a “indicar” o filho do presidente como embaixador. A soberania popular atropelada pela desinformação e por uma classe política que retrocede aos métodos dos anos 1950.

A soberania nacional é assombrada pela desmonte do aparelho estatal, com venda a preço de banana ou sucateamento de ativos públicos fundamentais para uma nação desenvolvida.

As reportagens que estão por vir têm por objetivo lembrar o país que fomos. Mostrar para onde estamos indo. E alertar para o que ainda podemos ser. Do golpe de 2016 ao caos representado pelo inacreditável governo de Jair Bolsonaro, o Brasil saiu dos trilhos e uma parte do povo brasileiro acompanha, entre incrédulo e desesperado, os estragos que consumirão décadas de reconstrução.

Uma outra parte, porém, ainda não se deu conta de associar e lei que escancarou as terceirizações ao golpe. E a reforma trabalhista que destruiu direitos a pretexto de criar empregos, e acabou foi destruindo. Foram 7 milhões de vagas extintas até aqui, desde 2014. E os empregos que se abrem são precários e mal pagos.

Não satisfeitos, governo e uma classe empresarial com mentalidade de século 19 jogam pesado para criar um ambiente ainda pior, em que o trabalhador que se dê por feliz com um pingado e um pão com manteiga, se não for incomodar.

E a reforma do ensino médio com vistas a empobrecer o ensino público e a estimular o ensino privado, a elitização do conhecimento. Com o estancamento dos investimentos na expansão do ensino público superior, na ciência e na tecnologia.

Quantos brasileiros se dão conta de que foi somente nos primeiros 15 anos deste século que o Brasil passou de 3,5 milhões para 7,2 milhões de matriculados no ensino superior – em universidades públicas, muitas delas abertas no interior, de onde os jovens não precisaram mais sair para estudar, e em particulares por meio de programas como ProUni e Fies?

Quantos sacaram que nesse universo, 22% eram alunos negros em 2001, e 42% em 2015? Quem tem noção de que a Lei de Cotas tem previsão legal de passar por análise e avaliação de seus resultados em 2020? Quem imagina o que pode ocorrer com essa que foi uma das mais importantes ações afirmativas e de inclusão se o atual estágio de estupidez governamental prosseguir?

É possível que muita gente esteja de olho nisso, porque foram a juventude e a preocupação com o desmonte da educação os grandes motores das maiores manifestações já enfrentadas nesses poucos meses de um governo devastador.

Quem se tocou que o programa Ciência sem Fronteiras, que já bancou mais de 100 mil jovens brasileiros para aperfeiçoar os estudos no exterior, está acabado?

E quantos recursos já foram retirados da agricultura familiar, responsável por sete em cada dez pratos de comida servidos na mesa dos brasileiros? E quanto já saiu e ainda sairá da saúde pública? E da cultura? E a aposentadoria, a de quem está quase lá e a de quem nem tem ideia de como vai ficar quando seu dia chegar? E a Amazônia, o que restará dela?

E foram apenas três anos. Quanto mais tempo durar essa lógica de destruição de direitos e da soberania, muito mais gente vai sofrer. E muito mais tempo levará o Brasil para voltar à superfície, depois de submergir como nação nesses apenas três anos.

FONTE: rede brasil atual
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