247 - O presidente do Senado chileno, Jaime Quintana, repudiou o ataque de Jair Bolsonaro à ex-presidente do país, Michelle Bachelet, atual Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos. Quintana disse que ao defender a tortura de Alberto Bachelet, pai da ex-presidente, durante o regime Pinochet, Bolsonaro "agride a memória dos chilenos". O presidente do Senado também falou que o ataque monstruoso de Bolsonaro "deverá provocar um repúdio transversal e contundente de todos os setores políticos chilenos".
Quintana disse ainda que "Bolsonaro está colocando-se fora das relações multilaterias e não está à altura de um chefe de Estado em nenhum país do mundo". O parlamentar exigiu uma postura firme do presidente do país, Sebastián Piñera, aliado de Bolsonaro. Quintana falou ao jornal chileno La Tercera nesta quarta-feira (4) logo depois dos ataques de Bolsonaro.
Jair Bolsonaro agrediu Bachelet, duas vezes presidente do Chile ( 2006-10 e 2014-18) depois que ela, tampém nesta quarta, concedeu uma entrevista coletiva em Genebra na qual, perguntada sobre o Brasil, disse que o "espaço democrático" no país está diminuindo e manifestou preocupação pelo estado dos direitos humanos no país (aqui). Bolsonaro reagiu com uma postagem no Facebook elogiando o fato de o pai da ex-presidente, o general-brigadeiro Alberto Bachelet, ter sido preso e barbaramente torturado pelo regime Pinochet, morrendo em 1974 em consequência da violência sofria no cárcere. Bolsonaro escreveu que "seu país [Chile] só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à epoca".
Quintana informou que as comissões de Direitos Humanos e de Relações Exteriores do Senado do Chile deverão emitir notas oficiais ainda hoje e que espera "uma reação enérgica" de Piñera e da Chancelari "ao que é uma agressão a todos os chilenos e chilenas"
A postagem monstruosa feita por Jair Bolsonaro nesta manhã, em que
defendeu o assassinato do pai de Michele Bachelet pelo ditador Augusto
Pinochet, também provocou revolta na Argentina.
247 - A postagem monstruosa feita por Jair Bolsonaro nesta manhã, em que defendeu o assassinato do pai de Michele Bachelet pelo ditador Augusto Pinochet, também provocou revolta na Argentina. O jornal Clarín publicou uma matéria repercutindo o crime de responsabilidade cometido pelo atual ocupante do Planalto brasileiro ao tentar contra os princípios democráticos.
"O presidente Jair Bolsonaro acusou a alta comissária de Direitos Humanos da ONU, Michelle Bachelet, de se intrometer nos assuntos internos e na soberania do Brasil na segunda-feira, justificou o golpe de estado de Augusto Pinochet e criticou o pai do ex-presidente do Chile, que foi torturado e morto pelo regime estabelecido pelos militares chilenos em 1973", destaca a reportagem.
Na postagem, Bolsonaro atacou a memória do pai da ex-presidente chilena, o brigadeiro Alberto Bachelet, que foi acusado de “traição à pátria” e morreu por causa de torturas em 1973. A Alta Comissária da ONU para Direitos Humanos, Michelle Bachelet, após a ex-presidente do Chile, havia apontado "encolhimento do espaço cívico de democrático no Brasil".
Bolsonaro defendeu a tortura e morte de Alberto Bachelet. “Diz [referindo-se a Bachelet} ainda que o Brasil perde espaço democrático, mas se esquece que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época", escreveu ele no Facebook.
A repercussão negativa na Argentina desgasta ainda mais Jair Bolsonaro pela importância de boas relações com o país vizinho, que está prestes a ver o presidente neoliberal Maurício Macri ser derrotado nas eleições presidenciais de 27 de outubro. Nas eleições sumárias, neste mês, a chapa progressistas, Alberto Fernandez e sua vice, Cristina Kirchner, derrotaram o atual mandatário.
Quilombos - Base de Alcântara é um local estratégico para lançamento de satélites
Lideranças intensificam articulação em busca de aliados contra a ofensiva encabeçada por Eduardo Bolsonaro (PSL)
Cristiane Sampaio-Brasil de Fato
Representantes de comunidades quilombolas residentes em Alcântara (MA) estão intensificando as articulações na capital federal para tentar barrar o chamado “Acordo de Salvaguardas Tecnológicas” entre Brasil e Estados Unidos. Na atual fase do conflito, as lideranças buscam evitar a aceleração do protocolo, que foi assinado em março deste ano pelos presidentes dos dois países, Jair Bolsonaro (PSL) e Donald Trump, e aprovado no último dia 21 pela Comissão de Relações Exteriores (CRE) da Câmara dos Deputados.
A tramitação da proposta, chamada tecnicamente de Mensagem Nº 208/2019, vem sendo articulada especialmente pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-RJ), filho do chefe do Executivo. O parlamentar e seus aliados tentam aprovar um requerimento de urgência para a apreciação do acordo, que ainda precisa passar por duas comissões legislativas, mas pode ir direto para votação no plenário, caso a articulação do governo tenha êxito.
Na contramão da ofensiva, as lideranças populares percorrem a Câmara durante esta semana na tentativa de ampliar o diálogo com parlamentares sobre o tema e angariar novos apoios. O trabalho, no entanto, tem sido árduo para as comunidades, que relatam grande dificuldade no trânsito com deputados.
"Os milhões estão falando mais alto do que a identidade e as raízes de um povo. Para nós, é uma decepção muito grande porque hoje eles estão aqui, mas eleitos por nós. E o que estamos tendo como resposta pelo nosso voto de confiança neles é [a constatação de] que em muitos a gente votou errado”, desabafa Lourença Vieira, da Associação dos Moradores do Quilombo de Mamona, entidade filiada à Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ).
A trabalhadora sublinha, no entanto, que acredita na possibilidade de aumentar o leque de apoios, ainda restrito a parlamentares de algumas legendas, como PT e Psol.
“A gente está aqui reivindicando nossos direitos como quilombolas. É muito importante a gente ter esperança. Eu ainda tenho fé de que podemos virar esse jogo”, afirma. A base de Alcântara é considerada um dos melhores locais do mundo para lançamento de satélites.
As lideranças populares argumentam que o acordo fere a soberania nacional e pedem uma popularização do debate sobre a pauta, o que ficaria prejudicado em caso de aceleração da medida. Eles também apontam a ausência de um estudo de impacto ambiental sobre a iniciativa.
O assessor jurídico das comunidades, Danilo Serejo, integrante do Movimento dos Atingidos pela Base Especial de Alcântara (MABE), destaca que as duas primeiras fases do empreendimento, na década de 1980, afetaram diretamente 312 famílias de 23 povoados da região. Hoje, o avanço do projeto pode comprometer a moradia de 800 famílias.
Segundo ele, o grupo aglutina cerca de 2 mil pessoas que vivem no litoral de Alcântara, mas a extensão do impacto pode chegar a toda a população do município, que tem cerca de 21 mil habitantes. O assessor pontua que um eventual remanejamento das famílias tende a trazer prejuízos em diversas frentes.
“Um dos principais é o impacto econômico, porque essas famílias estão todas no litoral e o que movimenta a economia de Alcântara é a pescaria e a agricultura familiar. Na medida em que saem do litoral, elas vão sofrer uma queda significativa nas suas economias. Em função disso, vem também a questão da insegurança alimentar”, lembra.
Os representantes populares sublinham ainda que não houve consulta prévia às comunidades que devem ser atingidas pelo projeto, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Sem canal de diálogo e em meio ao contexto de avanço conservador do país, os moradores da região vivem em clima permanente de apreensão.
É o que conta a diretora do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Alcântara, Valdirene Mendonça. “É um sentimento difícil, ruim. As pessoas de 60, 70 anos, pra terem que recomeçar, é muito difícil. É você matar essa pessoa de uma vez só, tirando ela da sua terra de origem. É um impacto muito grande, doloroso”, relata.
Legislativo
A pauta do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas ressurgiu com força este ano em meio à aproximação entre Brasil e Estados Unidos, estimulada pela chegada de Bolsonaro ao poder. A medida se alinha a outras iniciativas do governo do PSL, como é o caso da possível indicação oficial de Eduardo Bolsonaro para o cargo de embaixador em Washington.
Anunciada por Jair Bolsonaro em julho, a intenção já recebeu aval de Trump e, assim como o protocolo de Alcântara, tem como pano de fundo político o avanço estadunidense sobre os territórios e recursos naturais brasileiros.
Há um grande confronto político, espiritual e social em preparação, e ele terá grandes repercussões sobre o Brasil e a América Latina. De um lado estarão o Papa Francisco e a porção da Igreja Católica brasileira que lhe é fiel, provavelmente com protagonismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). De outro, Jair Bolsonaro e as hostes fundamentalistas cristãs que conforma parte da base bolsonarista.
A confrontação acontecerá em outubro com repercussões ainda difíceis de dimensionar. Será em torno da Amazônia. Entre 6 e 27 de outubro acontecerá em Roma a reunião final o Sínodo sobre a Amazônia sob o título “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Estarão em Roma 250 bispos e cardeais de todo o planeta e mais assessores, especialistas, líderes dos povos originários da Amazônia. líderes de movimentos sociais amazônicos, de ONGs e de outras religiões.
O próprio título da reunião indica os caminhos opostos entre o Bolsonaro e Francisco: este fala em "ecologia integral"; aquele, em devastação total.
O Sínodo foi convocado pelo Papa em outubro de 2017 e desde então sua preparação tem sido liderada pela Repam - Rede Eclesial Pan-Amazônica . A entidade é presidida por um homem de confiança do papa, o cardeal brasileiro dom Cláudio Hummes.
A constituição da e organicidade da Repam é, em si, mesma, um contraponto à maneira como o bolsonarismo enxerga a Amazônia.
Para Bolsonaro e a cúpula militar brasileira, a floresta seria como que propriedade do governo e estaria disponível para ser entregue à exploração-destruição pelos Estados Unidos, sob a capa de um discurso nacionalista.
Para a Repam e o Papa, a floresta deve ser encarada como múltipla dimensão de países e povos indígenas e como patrimônio da humanidade. A rede articula organizações, movimentos, dioceses e articulações da Igreja Católica e outras de nada menos que oito países, além do Brasil: Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, as Guiana Inglesa, Guiana Francesa, Suriname. Esta multinacionalidade é vista como uma afronta por Bolsonaro e seus militares e, por si, só torna o tema em algo que deixa de pertencer ao Brasil para se tornar numa agenda no minimo latino-americana.
UM ENCONTRO SUBVERSIVO
A visão do Papa e de Bolsonaro sobre a Amazônia é antagônica, sem pontos de contato. O documento preparatório do Sínodo é visto como subversivo pelos militares no governo (e pelo catolicismo bolsonarista). Vale a pena ler o documento: aqui.
Logo na abertura, o documento indica quem são os interlocutores privilegiados do Sínodo, "os povos indígenas e todas as comunidades que vivem na Amazônia" que são qualificados "os primeiros interlocutores deste Sínodo". O texto detalha quem são os protagonistas desta interlocução: "habitantes de comunidades e zonas rurais, de cidades e grandes metrópoles, ribeirinhos, migrantes e deslocados e, especialmente, para e com os povos indígenas". Todos eles são alvo da aberta hostilidade do governo Bolsonaro.
Os em três subtítulos e linhas de ação do Sínodo soam como uma afronta para o governo braileiro, baseados no método ver-discernir-agir que a Igreja latino-america construiiu por meio da Teologia da Libertação: “A voz da Amazônia” (Ver), “Ecologia Integral: o clamor da terra e dos pobres” (Discernir) e “Igreja Profética na Amazônia: desafios e esperanças” (Agir).
No capítulo sobre a dimensão social da presença da Igreja na região, a redação é de uma radicalidade ímpar: "Hoje, o grito da Amazônia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex 3,7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade e pela escuta de Deus. É um grito que pede a presença de Deus, especialmente quando os povos amazônicos, ao defenderem suas terras, se confrontam com a criminalização de seu protesto, tanto por parte das autoridades como pela opinião pública; ou quando são testemunhas da destruição da fl oresta tropical, que constitui seu hábitat milenar; ou quando as águas de seus rios se enchem com espécies de morte em lugar de vida".
Bolsonaro afirmou abertamente no último sábado, que os trabalhos do Sínodo são monitorados-espionados pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e que o encontro tem "uma agenda de esquerda" -o que é uma condenção das mais taxativas para o bolsonarismo.
Nesta segunda, o miitar que é o cérebro do atual governo, o general Villas Bôas, concedeu entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo na qual incorporou toda a linguagem do regime militar na relação com a Igreja Católica, com frases recheadas de ameaças. Praticamente decretou um veto à pauta da reunião, acusando-a de um "viés político" -como se o governo brasileiro pudesse delimitar a agenda do encontro. O general usou expressões que em tudo lembram o tempo da ditadura: "não vamos admitir", "há uma ação orquestrada", "não vamos admitir interferência em questões internas do nosso País".
O confronto é inevitável. Uma variável que pode tornar a ação da Igreja Católica mais contundente é o protagonismo da CNBB. Dominada pelos moderados e sob constante ameaça dos fundamentalistas católicos, a entidade esteve tomada pela paralisia mas, no caso do Sínodo, tem dado sinais de que sairá da letargia, alinhando-se ao Papa.
ALBERTO FERNÁNDEZ, EVO E LULA
Outra linha de radicalização do confronto entre a Igreja e o bolsonarismo -e a direita de toda a região e o governo dos Estados Unidos- é a desenvoltura com que o Papa passará a agir na região a partir de outubro.
Com a mais que provável eleição do peronista Alberto Fernández à Presidência da Argentina, o Papa deverá reatar seus laços e visitar sua pátria. Desde a eleição do direitista Maurizio Macri em 2015, Bergoglio nunca cogitou visitar a Argentina, algo que deverá acontecer se confirmada a eleição de Fernández, católico, amigo pessoal de Francisco e de Lula.
A volta da esquerda ao poder na Argentina -a terra do Papa- e a provável vitória de Evo Morales na Bolívia também em outubro permitirá a Francisco uma desenvoltura na América Latina que não lhe era possível com a supremacia da direita e extrema-direita na região. Este será um fator a mais -e pode ser dramático- de acirramento do confronto do governo Bolsonaro com Roma.
Para completar: como informou Lula em sua entrevista ap 247, assim que sair da cadeia uma das iniciativas que pretende tomar é extamente visitar o Papa para articularem uma ação global em defesa dos pobres do planeta.
O confronto tem data: outubro. Sínodo, eventual libertação de Lula com o estabelecimento de uma frente entre ele e o Papa e as eleições na Argentina e Bolívia prometem irão colocar a Igreja Católica e o governo Bolsonaro em rota de colisão de alto impacto.
Golpe de Temer e vitória de Bolsonaro representaram ruptura estrutural envolvendo as conquistas da sociedade
Cientista político William Nozaki avalia que Michel Temer e Jair Bolsonaro acabam com Estado de bem-estar social, tornando o Brasil instrumento do mercado financeiro
Publicado por Redação RBA
São Paulo – A consolidação do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff completou três anos neste 31 de agosto. A posse definitiva do governo Michel Temer (MDB) – que já ocupava o cargo interinamente desde 17 de maio de 2016 – e a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) fizeram o Brasil ter uma mudança brusca de rumo, com projetos que deixam o país nas mãos do mercado financeiro, atuando como uma agência de risco para o mundo dos especuladores, e abandonam o projeto de nação, com desenvolvimento econômico combinado com distribuição de renda e inclusão social.
Para comentar os impactos dos efeitos do golpe de 2016 na economia e na estrutura do Estado brasileiro, a Rádio Brasil Atual ouviu o cientista político William Nozaki, professor de Ciência Política e Economia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e diretor do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep). Nokaki afirma que o Estado brasileiro passa por refundação destrutiva desde o golpe, e entra num momento de ruptura social.
De acordo com o professor, a retirada do Estado como um ator central da economia trará resultados prejudiciais para o futuro. Tornarão o Brasil mais vulnerável, e sua população mais exposta aos impactos negativos das crises econômicas.
“Com o desmonte do BNDES que, agora, trabalha nas desestatizações, além do recuo da atuação do Banco do Brasil e Caixa, a gente percebe como o rentismo privado ganhou uma margem de manobra expressiva. Some-se isso tudo ao desmonte da Petrobras, e o cenário fica mais dramático. É um desmonte despreocupado com projeto de país e orientado para interesses privados, mercantis e rentistas”, critica Nozaki.
Neste 31 de agosto, completam três anos da oficialização do impeachment de Dilma. Houve um cavalo de pau na política do Brasil desde a posse de Temer?
Neste período de três anos tivemos uma espécie de refundação do Estado num sentido ultraliberal, com recuo nas atividades do Estado na formulação de políticas públicas e avanço na compreensão do Estado como instituição que funciona como uma agência de risco para o mercado financeiro. A gente saiu de um momento em que o Estado era protagonista de um projeto de desenvolvimento e a construção de um projeto de inclusão social, para um momento em que conjunto das estruturas do Estado está sendo usado em favor dos grupos dominantes da elite, e com absoluto descaso em atender as demandas da população.
Nós chegamos próximo ao Estado de bem-estar social, mas Temer reverteu isso e Bolsonaro aprofundou, né?
Exatamente, e isso se explicita por meio da ruptura com os três grandes pactos que consolidaram a possibilidade de a gente ter algum nível de Estado de bem-estar social no Brasil: com o pacto Varguista, na década de 1930, que viabilizou instrumentos que construíssem o desenvolvimento econômico; com o pacto constitucional de 1988, que construiu as bases para a conformação de um Estado de bem-estar social; e com o pacto lulista de inclusão da maior parte da população no mercado formal de trabalho ampliado e no consumo ampliado.
Esse período dos últimos três anos é um momento de ruptura estrutural envolvendo as conquistas da sociedade brasileira ao longo do século 20.
Na crise de 2008/2009, o Estado promoveu políticas anticíclicas para que a crise não fosse um terremoto. A ação do Estado levou a um impacto de menores proporções para a população. Fazendo um exercício de imaginação, se essa crise ocorresse, hoje, com a equipe de Paulo Guedes, como seriam impactos?
A maneira como o Brasil enfrentou a crise de 2008 serviu como exemplo internacional de mobilização de instrumentos econômicos estatais de sucesso. A crise impactou o Brasil no primeiro trimestre de 2009, com baixa no PIB, mas em 2010, no sentido macro, o país não só já havia se recuperado como já apresentava níveis de crescimento maiores do que antes da crise. Tudo em função de um conjunto de elementos que envolveu empresas estatais como mecanismos de investimentos públicos, bancos públicos como instrumentos de oferta de crédito e uma série de medidas de estímulo à demanda que reativaram a atividade econômica. Havia ali uma compreensão de o Estado deveria tomar a frente de um processo de combate à crise e de reconstrução de um caminho de desenvolvimento.
Se a gente fizer esse exercício hipotético que você propõe, e vislumbrar como seria a reação do Brasil segundo a política de Bolsonaro e Paulo Guedes, dentro de uma nova crise econômica – e pode não ser tão hipotético assim, já que alguns organismos internacionais preveem uma nova crise nos próximos anos –, é muito difícil de enxergar instrumentos e possibilidades de uma recuperação economia, porque ao nos últimos três anos, com as privatizações, enxugamento da estrutura do Estado e a até a criminalização de políticas públicas orientadas para o estímulo à demanda e a inclusão social, o Estado perdeu a capacidade de dirigir o mercado. Isso significa que uma eventual próxima crise encontrará o Brasil numa situação muito vulnerável, e seus impactos poderão ser muito mais significativo sobre a economia e sobre o conjunto da sociedade brasileira.
A crise de 2009 contou com a ação dos bancos públicos, que ofereceram créditos e fizeram concorrência com as instituições privadas. Agora, os juros no cheque especial estão na maior alta dos últimos 25 anos justamente porque a Caixa e o BB deixaram de forçar uma concorrência. A Petrobras também fomentou uma indústria naval, que estava em baixa até o início da década passada, mas deixa de ser um instrumento poderoso por conta de escolhas do governo.
Em 2009, papel do BNDES para ceder crédito industrial foi fundamental, como o Banco do Brasil oferecendo crédito agrícola e a Caixa, crédito imobiliário. Isso ajudou na recuperação da crise. O fato dos bancos públicos praticarem taxas de juros menores criou um ambiente concorrencial que estimulou a dinamização do mercado interno.
Recentemente, com o desmonte do BNDES que, agora, trabalha nas desestatizações, além do recuo da atuação do Banco do Brasil e Caixa, a gente percebe como o rentismo privado ganhou uma margem de manobra expressiva nos últimos três anos. E somar isso tudo ao desmonte da Petrobras, o cenário fica ainda mais dramático.
Afinal de contas, no início de 2010, 2011, foi quando houve a reorganização do marco institucional e regulatório de exploração do pré-sal. E a Petrobras atuou como um instrumento fundamental para o desenvolvimento produtivo e tecnológico do país. Estimulou não só a indústria naval com a de engenharia pesada e a de construção civil como um todo. Não por acaso, quando observamos a conjuntura atual, o desmonte da Petrobras, que se desfaz de refinarias, áreas de logística, ativos de gás, biocombustíveis, e passa a atuar como uma mera furadora de poços, tem como efeito colateral o desestímulo em todos esses setores industriais importantes, que têm impacto muito importante na geração de emprego e renda no país. Esses elementos nos colocam numa situação problemática.
Nós vivemos tempos de reformas, trabalhista, previdenciária, já se fala em tributária. O governo promete a recuperação da economia, mas qual é a sua expectativa diante desses pacotes?
Criou-se um falso consenso no debate econômico brasileiro de que a aprovação da reforma trabalhista, a aprovação da reforma previdenciária e tributária seriam elementos necessários para destravar o crescimento econômico. Mas o que se observa no Brasil é uma imensa dificuldade da atividade econômica de se recuperar.
São 20 trimestres consecutivos de redução nas expectativas e na capacidade de crescimento do PIB. Então, os discursos de que as reformas retomarão o crescimento são mentirosos, porque o objetivo dessas reformas é criar um desequilíbrio na relação entre capital e trabalho, mas a favor do capital, além de abrir novos nichos de mercado para segmentos importantes que é para onde os agentes da equipe econômica vão voltar quando se desfizerem da estrutura do Estado.
É um desmonte acelerado, despreocupado com projeto de país e orientado para interesses privados, mercantis e rentistas.
Caso essas reformas e esse desmonte sejam efetivados pelo governo Bolsonaro, como ficaria um futuro governo que não siga essas diretrizes ideológicas de Paulo Guedes? Como lidar com uma situação de Estado depauperado?
Num eventual retorno das forças progressistas ao Estado vamos ter de exercer a criatividade institucional para reorganizar a maneira como o Estado pode reorientar a um projeto de crescimento e de desenvolvimento econômico, pois não vamos dispor dos instrumentos anteriores. A estrutura do Estado é complexa e, a despeito do desmonte, ainda deixa elementos fundamentais para que se possa reorganizar esse projeto, mas eles não estarão disponíveis na prateleira de possibilidades da organização de política econômica com a mesma intensidade que estavam no momento anterior.
Isso significa que um governo progressista terá que revisar a maneira como enxerga o Estado, reorientar o modo como maneja as estruturas estatais, porque esse ator, o Estado, vai ser um ente fundamental para que se possa recompor a capacidade de desenvolvimento do país. Será preciso utilizar intensamente as estatais que vão sobreviver, os ministérios que vão sobreviver, e organizar um projeto de desenvolvimento sem medo de assumir que o Estado está no centro e será o responsável por orientar o investimento privado, numa aliança que terá de ser feita em termos diferentes do que foi há 10 anos.
Procurador, que desistiu da candidatura em 2018 mas deixou a possibilidade em aberto para 2022, ainda queria que a Lava Jato tivesse um candidato por estado
Nova reportagem da série Vaza Jato divulgada pelo The Intercept Brasil nesta terça-feira (3) reforça a atuação política e partidária da operação Lava Jato. Diálogos inéditos obtidos pela fonte do site de Glenn Greenwald mostra que o procurador Deltan Dallagnol, em 2017, queria ser candidato ao Senado.
Ele teria desistido da candidatura em 2018 mas deixou a possibilidade em aberto para 2022. “Seria facilmente eleito”, disse em uma mensagem para ele mesmo. Isso mesmo, Dallagnol mantinha um chat consigo mesmo no Telegram onde postava reflexões pessoais.
“Tenho apenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado. Apesar de em 2022 ter renovação de só 1 vaga e de ser Álvaro Dias, se for para ser, será. Posso traçar plano focado em fazer mudanças e que pode acabar tendo como efeito manter essa porta aberta”, disse em outra mensagem.
Outros diálogos mostram ainda que Dallagnol queria, mais do que se candidatar ao Senado, fazer com que a operação Lava Jato tivesse um candidato por estado em todo o país.
“Em mais de um momento, ele afirma que teria apoio da força-tarefa caso decidisse concorrer, o que indica que isso foi tema de debates internos”, pontuam os repórteres do The Intercept Brasil.
As mensagens mostram que Dallagnol pode ter desistido da candidatura em 2018 por avaliar que isso mancharia a imagem da operação Lava Jato. Ele confessa, em outra mensagem para si mesmo, que sua candidatura revelaria que a Lava Jato tinha atuação política. “Muitas pessoas farão uma leitura retrospectiva com uma interpretação de que a atuação desde sempre foi política. Pior ainda, pode macular mais do que a Lava Jato, mas o movimento anticorrupção como um todo, que pode parecer politicamente motivado. Por fim, a candidatura pode macular as 10+ como uma plataforma pessoal ou de Deltan para eleição, retirando aura técnica e apartidária”, escreveu o coordenador da força-tarefa.
O procurador Vladimir Aras, nome indicado por Deltan Dallagnol e Sérgio Moro para a PGR, foi um dos incentivadores de Dallagnol, dizendo que ele poderia derrotar “inimigos” da operação, como Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Roberto Requião (MDB-PR), então senadores pelo Paraná. O coordenador então lança a possibilidade de ser criada uma rede e Aras inclui ainda Sérgio Moro como candidato.
Vladimir Aras – 10:30:29 – Vc tem de pensar no Senado Deltan Dallagnol – 12:58:02 – Obrigado pelo incentivo, mas vejo muitos poréns Aras – 13:09:38 – Vc se elege fácil e impede um dos nossos inimigos no Senado: Requiao ou Gleise caem Dallagnol – 13:29:56 – Não resolve o problema. Ajuda se o MPF lançar um candidato por Estado. Seria totalmente diferente e daria trabalho, mas pode ser uma das estratégias para uma saída. Dallagnol – 13:30:22 – No PR não precisaria ser eu rs, mas eu apoiaria fortemente essa rede de candidatos Dallagnol – 13:30:44 – Ou pensamos alguma saída maluca, ou estamos ferrados Aras – 13:45:12 – Vc e Moro Aras – 13:45:14 – Ou Carlos
A Vaza Jato expõe ainda mensagens de diversos procuradores defendendo a candidatura de Deltan Dallagnol. Confira a íntegra da reportagem aqui.
Investimentos em agricultura familiar chegaram a alcançar R$ 24 bilhões
Programas para o setor perdem R$ 6 bi em três anos de golpe. Reforma agrária acabou. "Temos de transformar a indignação em unidade e luta para superar isso", diz
Miguel Rossetto-Publicado por Redação RBA
São Paulo – Os pequenos agricultores familiares viram as políticas de apoio e fortalecimento da produção de alimentos ser desmantelada depois do golpe parlamentar de 2016, que resultou no impeachment da presidenta da República Dilma Rousseff (PT). Depois de uma expansão de mais de 10 vezes no orçamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a verba estagnou e deve ter uma queda de quase R$ 6 bilhões na safra 2019/2020. A verba total destinada pelo governo de Jair Bolsonaro ao Plano Safra até subiu, mas o aumento direciona-se exclusivamente ao agronegócio.
Atacada desde o golpe, a agricultura familiar responde por 70% da produção de alimentos consumidos no país, ocupando apenas 25% das terras destinadas à produção agropecuária. Parte dessas terras é oriunda da reforma agrária, também severamente desmontada desde o golpe de 2016.
Depois de acumular 747 mil famílias assentadas entre 2003 e 2015, o Brasil teve apenas 1.686 famílias assentadas em 2016 e 38 em 2017. Este ano, o governo Bolsonaro determinou ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que cancelasse processos de desapropriação em andamento e devolvesse a terra a especuladores.
“Nós multiplicamos por 10 o Pronaf, com assistência técnica, conhecimento e tecnologia, estimulamos a mecanização e a qualidade das condições de trabalho no campo”, afirma o ex-ministro Miguel Rossetto, que comandou o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) entre 2003 e 2006 e em 2014, nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma. Foi ainda presidente da Petrobras Biocombustível e ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República e do Trabalho e Previdência Social, na administração Dilma Rousseff.
“Criamos programas de compras públicas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos). Estimulamos a compra de alimentos saudáveis nas escolas públicas. Criamos uma rede de desenvolvimento. Estimulamos a agricultura orgânica. Havia uma estratégia sustentável”, lembra Rossetto.
“Eu saio agora de uma atividade com produtores de leite do Rio Grande do Sul e sou informado que a cada ano 10 mil famílias de produtores de leite abandonam a atividade. Nos últimos quatro anos, 35 mil famílias de agricultores familiares abandonaram a atividade leiteira. Vivemos um processo de concentração e de exclusão dramático”, lamenta o ex-minitro.
Rossetto assinala a destruição do MDA, assim como a do Ministério do Trabalho, como símbolo da retirada da agenda, pelo golpe, do respeito a quem trabalha, no campo e na cidade.
Em nome de um anticomunismo retardatário, assistimos à destruição de uma nação, povo e demais riquezas
“Se o doente tem vergonha de descobrir a sua ferida ao médico, a medicina não pode curar o que ignora.” [São Jerônimo, no Concílio de Trento]
Quão grande é o desafio da humildade!
Quão maravilhoso e instigante a certeza de que o outro tem algo a me ensinar, a comigo trocar, a nos completarmos mutuamente.
Essa certeza vale também para as trocas internacionais, que guardam enorme semelhança com as pessoais.
Os russos, imensamente fortes – ao ponto de deterem a supremacia mundial em tecnologia de defesa – usam a mesma palavra “drug” para designar “amigo” e o “outro”.
Só um povo com essa sofisticação semântica poderia ter chegado onde chegou.
Na outra ponta da escala, estão os que veem no outro um inimigo, um criminoso por excelência.
É o caso de “operações” que desrespeitam o princípio constitucional e garantista de que todos são inocentes até prova em contrário.
Também estão nesse baixo patamar os múltiplos programas da TV brasileira que, de forma simplista, maniqueísta, dividem a sociedade entre “pessoas de bem” e “bandidos”.
Não importa se as referidas pessoas de bem atropelam seus semelhantes com carros caríssimos, sonegam impostos ou destroem o meio ambiente.
Compartilham desse submundo o “chefe de estado” e a camarilha que censuram a cultura; incentivam o desmatamento e causam enorme dor, em âmbito nacional e internacional.
Como pessoas tão más podem dominar centenas de milhões de nacionais?
Se usarmos os conhecimentos do filósofo político italiano Antônio Gramsci, talvez possamos investigar como esse fenômeno ocorre.
Gramsci centra a interpretação da política na cultura.
De fato, no caso brasileiro, essa compreensão parece ser muito adequada. As campeãs de audiência – as telenovelas – são importante fonte de dominação ideológica, ainda mais efetivas do que os tão manipulados telejornais, por permitirem que os conteúdos ideológicos sejam transmitidos de forma sub-liminar.
Desse ponto de vista, apenas um trabalho de profunda conscientização poderá nos retirar do caminho que o Embaixador Rubens Ricupero qualificou de “suicídio nacional”.
Com efeito, se a teoria econômica falaciosa do “gotejamento” (“trickle down”) – pela qual a concentração de renda levaria depois à redistribuição da mesma – pôde ser mais uma vez imposta ao país (por meio de golpe de estado), foi, de alguma forma, porque nossa cultura permitiu.
De fato, por meio das novelas, percebemos como a cultura da oligarquia é inoculada nas classes mais baixas, de sorte a disfarçar e perpetuar sua dominação.
Na prática, são utilizados pretextos como o combate à corrupção, ao autoritarismo, às ideologias exóticas (sic) etc. Do outro lado, estaria a defesa da família, da pátria e dos bons costumes.
Em nome de um anticomunismo retardatário (no resto do mundo esse discurso deixou de existir há décadas), assistimos à destruição de uma nação, povo e demais riquezas.
Sem uma cultura que permitisse essa dominação hegemônica da oligarquia sobre as demais classes, isso jamais seria possível.
Seria um acaso que o país das telenovelas – verdadeiras overdoses de ideologia – fosse justamente aquele que elegeu o político mais retrógrado do planeta?
Pois, como bem disse Glenn Greenwald, o presidente ilegítimo é ainda mais nocivo do que Trump, que, por exemplo, não mantém discurso anticomunista ou homofóbico, ao contrário do lacaio local, ainda mais primitivo e, por isso, mais perigoso.
Mas não há noite sem dia.
O ex-chanceler Celso Amorim observou que o Brasil antes trazia soluções ao mundo. Agora, traz problemas.
Mas é tal a violência do projeto colonial imposto ao País que fizeram do perpetrador o mais odiado do planeta, como se viram nas capas dos principais jornais do mundo nos últimos dias, tendo o italiano La Repubblica bem resumido a condenação internacional: “O mundo contra Bolsonaro”.
Como nunca se vira, houve não apenas manifestações em todas as principais capitais do Norte contra a destruição da Amazônia, mas também em capitais africanas, como Nairóbi, algo inédito.
Foram aventados boicotes a produtos brasileiros e 18 importantes marcas internacionais de calçados deixarão de comprar couro nacional.
Os prejuízos só se avolumam.
Mas alguém notou que é tal a rejeição internacional que a própria extrema-direita mundial passou a temê-lo.
Com efeito, é significativo que antigos aliados como a extrema-direita israelense e húngara não tenham manifestado apoio ao projeto ecocida. Marine Le Pen já havia distanciado o segmento francês, dizendo que as palavras de Bolsonaro eram embaraçantes. Depois dos ataques misóginos à primeira-dama francesa, deve ter-se sentido aliviada pela previdência.
Talvez estejamos assistindo ao que os genocidas Hitler e Mussolini não conseguiram: desacreditar e acabar com a extrema-direita, de uma vez e para sempre.
Paradoxalmente, será uma grande contribuição à civilização.
Galvão dirigiu o Inpe entre 2016 e junho deste ano, quando foi exonerado
do cargo por Jair Bolsonaro (PSL) / Foto: José Eduardo Bernardes
Ao BdF, Ricardo Galvão fala sobre Amazônia, ciência nacional, ingerência estrangeira e a postura do governo
José Eduardo Bernardes - Brasil de Fato
Até julho deste ano, Ricardo Galvão foi diretor do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), orgão responsável por divulgar os dados relativos ao desmatamento na Floresta Amazônica. Naquele mês, dados disponibilizados pelo instituto mostraram um aumento histórico do desmatamento no país e geraram críticas do presidente Jair Bolsonaro, que chegou a afirmar que as informações eram mentirosas e acusar Galvão de estar a serviço de ONGs estrangeiras.
Apoiado pela maior parte da comunidade científica brasileira, Galvão defendeu os dados e rebateu as acusações do presidente. Por resistir, foi exonerado do cargo e agora está de volta aos laboratórios e salas de aula da USP.
Ele diz não se arrepender e que acredita ter dado sua contribuição à instituição. Resumindo a volta à academia, Galvão explica que sua função agora é "dar aulas e trabalhar com alunos, consertar equipamentos, tentar arrumar recursos. A vida normal de um professor universitário, o que eu mais gosto de fazer".
Ricardo Galvão tem 71 anos e é natural de Itajubá, Minas Gerais. Cientista respeitado, foi professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é docente do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) desde 1983. De 2005 a 2012 foi diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, a convite do grande físico brasileiro Roberto Salmeron. De 2013 a 2016 presidiu a Sociedade Brasileira de Física.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Galvão afirma temer a perda do prestígio internacional alcançado pela ciência brasileira nas últimas décadas. "Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário", argumenta.
Confira abaixo a entrevista conduzida pelo Brasil de Fato com o cientista.
A ciência está abalada neste momento por conta desta gestão presidencial?
Eu não vou dizer que a ciência esteja abalada, mas ela está sendo desrespeitada ou até mesmo atacada. Claramente há nesse governo um comportamento obscurantista e autoritário. Isso tem feito com o que governo questione várias vezes resultados científicos consolidados.
O prestígio internacional do Brasil cresceu nas últimas três décadas. Nós somos responsáveis por 2% de toda a produtividade científica mundial.
Já tem quem ataque a soberania nacional com respeito a Amazônia, dizendo que é um bem de todos e isso poderia dar brechas para muitas situações. A que ponto isso pode chegar?
Em certo ponto, o governo até tem razão. Certamente há interesses de outros países na Amazônia e há interesse em competir com a nossa exportação agrícola. No entanto, a atitude do governo de desprestigiar sua própria ciência e seu próprio instituto de pesquisa, o Inpe, está ajudando os estrangeiros.
Depois de sua exoneração, qual foi o sentimento da comunidade científica?
Mesmo antes de minha exoneração, a comunidade científica brasileira já havia se manifestado fortemente. Quando o General Heleno acusou os dados do Inpe de serem manipulados houve forte reação. A Academia Brasileira de Ciência e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, junto com outras cinco instituições científicas de grande prestígio mandaram uma carta ao presidente da república, com cópia para os ministros da ciência e tecnologia e do meio ambiente e para o próprio General Heleno reafirmando a credibilidade do trabalho realizado pelo Inpe. Não houve resposta do governo.
Como a gente chegou nesse governo tão desrespeitoso com a ciência e com o meio-ambiente?
No mundo todo tem havido um movimento obscurantista, talvez até incentivado pelas mídias sociais, porque ali se colocam facilmente acusações supérfluas que não são contestadas de forma profunda como é necessário.
No Brasil, isso foi exacerbado porque círculos próximos do governo têm um pensamento obscurantista e autoritário e um sentimento de que toda a comunidade científica brasileira está dominada pela esquerda.
Na época em que eu ainda estava no governo, [às vezes] era perguntado sobre projetos e recomendava que se consultasse a Academia Brasileira de Ciências, por exemplo. [Então] eu recebia como resposta que isso não seria feito porque seria uma resposta de gente da esquerda. Infelizmente essa leitura dominou o governo e tornou o diálogo muito difícil.
Como você recebeu as palavras do presidente de que os estudos eram mentirosos?
Fiquei extremamente indignado. Conheço toda a equipe que fez o estudo. São pesquisadores de alto nível, respeitados no Brasil e no exterior, que têm uma dedicação enorme.
Quando eu digo que os dados de uma instituição pública de pesquisa são mentirosos, estou acusando os pesquisadores de falsidade ideológica. Se o presidente da república tinha suspeitas de que os dados eram mentirosos, então ele tinha obrigação de abrir uma comissão de sindicância. Por que não o fez? Pior, ele me acusou de estar a serviço de uma ONG internacional. Isso é uma acusação muito grave.
Você diria que sofreu uma perseguição direta do governo?
Antes de ser diretor do Inpe, fui diretor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro. Isso foi durante o governo Lula. Pode ser que o governo me atrelasse ao período Lula. Isso pode ter ocorrido a eles. Mas acho que a razão é mais profunda. Desde janeiro, o ministro Ricardo Salles vem atacando os dados fornecidos pelo Inpe no nosso sistema de alertas (DETER) com o argumento de que não tinha a precisão necessária e que não permitia que eles atuassem, o que é uma tremenda inverdade.
Esse sistema começou em 2004, e com ele foi possível reduzir drasticamente o desmatamento da Amazônia. Mais de 27 mil km2 em 2003 e 4 mil km2 em 2012. Desde janeiro eu o tenho confrontado. Não na imprensa, mas através de notas técnicas produzidas pelo próprio Inpe, ofícios enviados ao ministro de Ciência e Tecnologia e também através de mensagens enviadas por e-mail.
Sempre argumentei contrariamente. Agora não sei porque o ministro Ricardo Salles adotou essa ideia de que tem que contratar uma empresa estrangeira, porque o Inpe já faz muito bem, com grande respeito da comunidade internacional. Talvez esse confronto que eu mantive tenha sido interpretado como um obstáculo.
Supostamente, as nuvens de fuligem causadas pelas queimadas da Amazônia chegaram até o sudeste. Isso é mesmo possível?
Sim, devido aos fluxos [de ar] na alta atmosfera. Sabemos, por exemplo, que todo o regime pluviométrico do centro sul do Brasil até a Argentina se deve às fortes correntes de ar úmido que vêm da Amazônia. Parte dessa nuvem de fuligens sobre São Paulo veio da Amazônia [brasileira], parte da Bolívia. A maior parte, de queimadas de "limpeza" do que foi desmatado na Amazônia.
Qual é o risco proporcionado pelo aumento das queimadas?
Não é o risco da queimada, é o risco do desmatamento. A principal função da amazônia é diminuir o aquecimento global. A melhor ferramenta para controlar o aumento do gás carbônico na atmosfera é a absorção de carbono pelas árvores. Quando há desmatamento, esse carbono é emitido como CO2 na atmosfera. Além disso, se a floresta amazônica for desmatada em mais do que 25% ou 40% - os modelos variam um pouco - ela vai irreversivelmente tender para uma savana. Isso seria um desastre total para o nosso país.
Desde a descoberta do Brasil, estima-se que a floresta amazônica cobria 4 milhões de quilômetros quadrados. Desde então, nós desmatamos cerca de 20%. E o mais preocupante é que 11% foi a partir de 1988. Nós não estamos apenas desmatando, mas desmatando em uma taxa cada vez maior, esse é o grande perigo.
O governo quer contratar uma plataforma americana para fazer as medições do desmatamento na Amazônia, substituindo o Inpe. Ao mesmo tempo, existe também uma ingerência externa na floresta, representada pelas ações recentes da cúpula do G7. Isso significa que as potências internacionais vão ocupar gradualmente a Amazônia?
Essa empresa americana, a Planet, já havia feito pressão sobre o ministério do meio-ambiente dois anos atrás, para que o ministério a contratasse. O Ministério chegou a abrir licitação, mas essa licitação foi bloqueada pelo Ministério Público. Espero que o Ministério Público o faça novamente, porque é totalmente descabido um agente público abrir um edital de contratação já dando preferência a uma empresa.
Há interesse de outras nações em dominar a Amazônia. Acho que foi até uma certa infantilidade do presidente da França [Emmanuel Macron]. Isso não é fácil de fazer, não vai ser feito. Se o governo brasileiro reage a isso, reage com razão. Agora, a solução para a Amazônia não pode dispensar a colaboração internacional de jeito nenhum. Os parceiros internacionais tem que trabalhar com o Brasil respeitando a soberania brasileira. Só que a soberania brasileira é respeitada se a capacidade científica do Brasil foi respeitada, e ela está sendo desrespeitada pelo próprio governo.
Durante o governo Bolsonaro houve uma série de ataques à educação. Bolsas de pesquisa foram cortadas, programas de ciência e intercâmbio foram aniquilados, e há mais cortes previstos - de R$ 900 mi -divulgados recentemente. Como caminha a academia brasileira nessa situação?
A situação está muito ruim. Esse decréscimo no apoio à pesquisa científica vem desde o governo Dilma. Durante os governos FHC e Lula, o apoio à ciência foi notável. O governo Fernando Henrique criou os fundos setoriais de apoio a pesquisa e o governo Lula não só os manteve, como aumentou fortemente.
A ciência brasileira cresceu fortemente. As universidades foram bastante melhoradas na gestão do ministro Fernando Haddad [PT], mas infelizmente já no governo Dilma esse apoio começou a cair. O primeiro erro, na minha opinião, foram os recursos empregados no Ciência sem Fronteiras. Foram R$ 13 bilhões tirados da pesquisa científica e colocados nesse programa, que deu retorno quase nenhum.
O que torna pior o governo Bolsonaro, na minha opinião, é essa atitude de desprezo. Não só está piorando, como não há preocupação em recuperá-la. O ministro Paulo Guedes tem uma visão extremamente capitalista, contrária a investimentos do governo. Em todo o mundo, a formação acadêmica e a pesquisa científica são financiadas fortemente pelo governo.
Pesquisas indicam que a aprovação social às entidades está próximo do
topo dos últimos 50 anos: 64% da população são simpáticos ao modelo de
organização trabalhista
De acordo com levantamento divulgado neste Dia do Trabalho nos Estados Unidos, 64% da população reconhece a importância dos sindicatos
São Paulo – Hoje (2) foi comemorado nos Estados Unidos o Dia do Trabalho (Labour Day). Neste ano, a mídia americana, deu destaque a pesquisa que revela o reconhecimento da importância dos sindicatos para os trabalhadores. As sondagens indicam que a aprovação da população às entidades de classe está próximo do topo dos últimos 50 anos: 64% da população defende o modelo de organização trabalhista.
O levantamento foi feito pelo reconhecido instituto de pesquisas norte-americano Gallup. A série histórica começa em 1936, sendo que, até meados da década de 1970, a aprovação dos sindicatos era constante em cerca de 70% da população. Após esse período, houve um declínio que culminou com o registro mais baixo da série, em 2008, após a grande crise, com 48%. Os anos de 1999 e 2003 foram os únicos com maior acolhimento sindical entre a população do que hoje: 66% e 65% respectivamente.
A aprovação está em ascensão entre diferentes setores políticos, aponta a pesquisa. Entre os democratas, mais ligados a pautas liberais sociais, foi registrado um aumento de 16% no número, saltando de 66% em 2009 para 82%. Já entre os republicanos, mais conservadores, a tendência foi mantida. Em 2009, 29% apoiavam sindicatos; hoje, 45%. Entre os independentes, a variação foi de 44% para 61%.
Pesquisas
Entre as razões apontadas para o crescimento da importância sindical estão fatores que rondam o mundo do trabalho nos Estados Unidos, como o baixo índice de desemprego (3,7% em julho), salários achatados (com sucessivas perdas no poder de compra) e maior atenção para questões sociais dos mais jovens. “As pessoas se sentem melhores sobre sindicatos quando os mercados de trabalho estão mais firmes e existe menor medo de demissões”, afirma Rich Yeselson, ativista sindical norte-americano, para o portal Vox.
Movimentos trabalhistas recentes, com sucesso, também contribuem para a impressão. Professores promoveram greves por todo o país, muitas vezes espelhados pelo movimento que ficou conhecido, a partir dos anos 1990, como Justice for Janitors, que mobilizou a classe dos trabalhadores em serviços de limpeza dos Estados Unidos e Canadá contra más condições de trabalho, ausência de plano de saúde, entre outras precarizações.
"Oh! Bendito o que semeia Livros... livros à mão cheia... E manda o povo pensar! O livro caindo n'alma É germe - que faz a palma, É chuva - que faz o mar."
Castro Alves
"Um livro aberto é um cérebro que fala; Fechado, um amigo que espera; Esquecido, uma alma que perdoa; Destruído, um coração que chora".
Mulher te canto esse hino Trago a pura verdade, Incerto e cruel destino, Meu canto contigo está. (...)
Na penumbra vive esse ser preso Por não poder decidir, Soltar sua voz ao vento, Trate de resistir Sem perder o alento Sem parar nenhum momento.
Séculos trabalhando, dando amor, A épocas sem rir no tempo Onde queremos ir, Os homens do universo Vamos escrever outro verso já. (...)
Vem pra cá Sou como um trem volta a cada hora, como um touro a sufoca-lo. E hoje me dei conta e vi Onde haviam saídos seus direitos direto dos fatos Abusos sexuais, Exploração de idades, Corrupção social, Crimes Como Mariana Grajales Está aqui escrita na história Mas uma vitória ainda não está consagrada. Tem que seguir com força e que todos lutem pelo amor, Reivindicando para o progresso da mulher Embora, que se há logrado um grande trecho. Te digo de fato, quando tuas lágrimas grita, a mãe acalma no peito. (...) Me resguardo no lápis, respiro com o espírito Se sente feliz Nada de personalidade Transa, realça a ti mulher Criadora de raças Maltrato físico, castigo duro é o que domina Mulher não pare, a batalha Não está ganha. Falta muito para andar nesta gangue, Juntos a guerra está triunfada. Você quer todo o respeito, nenhum estress. Hoje por mim será premiada E sobre continuaremos a batalha Toda está merda se acabará. Tua posição será respeitada, Altos níveis, ela está apoiada (...)
Tradução: By Dyego
Mulheres - Pablo Neruda
Elas sorriem quando querem gritar. Elas cantam quando querem chorar. Elas choram quando estão felizes. E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que acreditam. Elas levantam-se para injustiça. Elas não levam "não" como resposta quando acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para suas crianças poder tê-los. Elas vão ao medico com uma amiga assustada. Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças adoecem e se alegram quando suas crianças ganham prêmios. Elas ficam contentes quando ouvem sobre um aniversario ou um novo casamento.
Modernizar o passado É uma evolução musical Cadê as notas que estavam aqui Não preciso delas! Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos O medo dá origem ao mal O homem coletivo sente a necessidade de lutar o orgulho, a arrogância, a glória Enche a imaginação de domínio São demônios, os que destroem o poder bravio da humanidade Viva Zapata! Viva Sandino! Viva Zumbi! Antônio Conselheiro! Todos os panteras negras Lampião, sua imagem e semelhança Eu tenho certeza, eles também cantaram um dia.
Zapata, Sandino, Zumbi, Antônio Conselheiro, os panteras negras, Lampião