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quinta-feira, 13 de maio de 2010

OS ESTUDANTES BRASILEIROS E OS PIONEIROS DAS LUTAS ESTUDANTIS NA PARAIBA

CAPÍTULO II


Meus ternos pensamentos, que sagrados
me fostes quase a par da Liberdade,

Em vós não tem poder a iniqüidade.

Domingos José Martins

CONJUNTURA HISTÓRICA DO BRASIL: DA CHEGADA DA FAMILÍLIA REAL AO PALCO DA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

Quando a Revolução pernambucana emergiu no Nordeste haviam decorrido nove anos de acontecimentos significativos no Brasil que no seu desenrolar têm uma relevante relação para a conjuntura em que esteve inserido o movimento revolucionário, e nele, em especial, a participação política dos precursores das lutas estudantis na Paraíba que pelo momento faziam seus estudos no Seminário de Olinda e na Academia Militar de Pernambuco.

O ponto de partida dos acontecimentos que se inter-relacionam com o processo histórico do movimento revolucionário de 1817, o qual procurou apontar um futuro republicano para o Brasil, começa a partir do momento que a coroa real portuguesa transferiu-se a sua colônia após fugir das tropas napoleônicas no território lusitano. Este acontecimento é importante porque, do ponto de vista interno, a instalação da Família Real Lusa no Brasil obrigará a abertura dos portos ao comércio externo, dando impulso a várias transformações econômicas, sociais e culturais, bem como, abrir perspectivas à autonomia política que corresponde no governo joanino a dois fatores fundamentais: a manutenção da liberdade de comércio e o impulso inicial das bases do Estado que presidirá o destino do país cinco anos após a Revolução Pernambucana.

Prado Júnior (1986:47) ao analisar esse momento da vida social e política do Brasil assinala que:

Estabelecendo no Brasil a sede da monarquia, o regente aboliu ipso facto o regime de colônia em que o país até então vivera. Todos os caracteres de tal regime desaparecem, restando apenas a circunstância de continuar à sua frente um governo estranho. São abolidas, uma atrás da outra, as velhas engrenagens da administração colonial e substituídas por outras já de nação soberana. Caem as restrições econômicas e passam para um primeiro plano das cogitações políticas do governo os interesses do país.

No entanto, as condições para efetivarem-se as decisões que abrem perspectivas à autonomia política do Brasil, tão bem apreciada por Caio Prado Júnior, devem ser complementadas por outro ângulo de correlação porque tais decisões foram resolvidas por uma situação estranha a colônia, ou seja, através dos componentes externos ligados a uma conjuntura européia. Todavia, de uma forma ou de outra a autonomia se realizaria. Aquele ipso facto apreciado pelo autor apenas antecede acontecimentos futuros determinados por uma necessidade histórica. A referida situação de fato, a qual se segue várias medidas de governo, foi impulsionada por forças externas que se condicionam aos interesses do país e desses aos estranhos.

Os componentes estranhos a colônia cavam raiz na passagem do século XVIII ao início do XIX. Por esta época, a estrutura econômica de Portugal estava ainda numa estrita dependência das grandes potências européias, em especial da Inglaterra. E, se o Brasil era colônia de Portugal, e esse país europeu dependente dos ingleses, conseqüentemente, tanto um quanto o outro eram dependente da Inglaterra, pois:

(...) O mercado metropolitano luso era franqueado aos panos britânicos, como o mercado colonial luso através da metrópole, ao mesmo tempo que o mercado inglês era franqueado aos vinhos que os ingleses fabricavam em Portugal. Tudo transportados em navios ingleses e consequentemente, drenado para a Inglaterra o ouro remetido pelo Brasil. (SODRÉ, 1990:142).

Os laços econômicos e políticos (quem domina economicamente um país domina igualmente a política) entre Portugal, Brasil e a Inglaterra tendem a se fortalecer cada vez mais em decorrência da conjuntura do início do século XIX, quando há na Europa a luta pela hegemonia dos mercados pelas grandes potências econômicas. A rivalidade aí ocorre entre a França e a Inglaterra que promovem uma disputa de vida ou morte pelos mercados consumidores.

A burguesia inglesa era na época a mais rica da Europa e aquela que primeira tirou o poder da nobreza. Ela usou as riquezas acumuladas durante o período do mercantilismo para crescer economicamente, e como passou a produzir muito, necessitava de mercado para vender seus produtos. Contudo, a burguesia francesa, igualmente, estava crescendo e enriquecendo, e de igual maneira, precisava de compradores para seus gêneros industriais, ou seja, de mercados assim como a burguesia inglesa. Então, à medida que começam a lutar pela hegemonia dos mercados mais acentuadamente seja na Europa ou na América, a situação se agravou e o antagonismo entre as duas potências dá um salto, principalmente, quando Napoleão Bonaparte, então imperador da França, atendendo as pressões da burguesia francesa, declarou o bloqueio continental, melhor dizendo, proibi o comércio da Europa continental com a Inglaterra.

As conseqüências surgidas nesse contexto repercutem na América e segundo Sodré:

De forma direta no campo das trocas, aquele quadro de conflito começa afetar a área colonial americana e ao Brasil, portanto, desde o momento em que Napoleão exige da Europa o bloqueio contra a Inglaterra. As conseqüências desse bloqueio atingem as metrópoles ibéricas e repercutem nas suas áreas coloniais. (SODRÉ. Idem. p.178).

Tradicionalmente dependente do capital e do comércio inglês, Portugal não bloqueia seus portos aos navios ingleses sob pena de ruína total, mas, é forçado a fechá-los diante a mancha das forças francesas ao seu território. Como numa seqüência lógica, ao decidir-se pelos ingleses em detrimento a burguesia francesa e a Napoleão, é forçado a fugir para salvar a monarquia de Bragança em uma frota de trinta e seis navios sob proteção da marinha britânica, abandonando o país para se instalar no Brasil - Colônia.

Antes dos ventos empurrarem os navios, a coroa lusa teve de assinar uma convenção secreta com a Inglaterra, na qual concedia vantagens comerciais ainda mais desfavoráveis em troca da garantia britânica em transferi-la, dentre outras concessões. Essa convenção secreta era vista por um ministro inglês, chamado de Pitt, como algo muitíssimo satisfatório. Logo após os acordos, em discurso feito no parlamento, assim dizia:

Colocado o trono de Portugal na América, então a Grã-Bretanha junto ao seu antigo aliado – observemos bem essa última frase! – (acréscimo nosso), aumentaria o império (...) e (...) desde esse importantíssimo momento, o império da América do Sul e a Grã-Bretanha ficaram ligados eternamente, fazendo estas duas potencias um comércio exclusivo. (SODRÉ. Idem. p.211).

Dentro dessa conjuntura estranha à colônia é que a situação de fato pode ser efetuada. O estabelecimento da Corte Portuguesa no Brasil veio contribuir para dar aquele rumo que Prado Júnior se referiu. A partir da presença aqui do amontoado de velharia absolutista, que os revolucionários de 1817 se posicionarão contra, o problema do regime de monopólio comercial estará resolvido, pois, chegava ao fim sua função intermediadora que exercia. Agora as trocas seriam diretas por forças da conjuntura.

Daí por diante, o período joanino abriu perspectiva á autonomia política, que corresponde adiante à manutenção da liberdade de comércio. Até lá, essa política econômica só favorece até certo ponto “os interesses do país”, porque estarão condicionados aos da Corte portuguesa no Brasil e aos dos ingleses. Antes da independência de 1822, essa política joanina tem de se conjugar com os da classe dominante de senhores de terras, engenhos e de escravos. Conjunção de interesses contraditória, dado que, ao ser prejudicado pela exploração metropolitana no próprio Brasil, a classe dominante reage em alguns momentos, porém, apenas pequena parte da elite brasileira, pois, só emposará a ruptura política quando tal lhe convém.

Do estabelecimento da Corte lusitana no Rio de Janeiro, que corresponde ao governo joanino, até chegar ao palco da Revolução de 1817, várias transformações ocorreram, algumas já em curso no Brasil. Mas, ao se estabelecer na Colônia, quais eram as condições históricas da sociedade brasileira? Quais as transformações que haverão entre o velho e o novo no decorrer dos nove anos que vão da chegada da monarquia a Revolução de 1817? Quais as permanências do velho que pendura e as mudanças que continuam?

Quando a Corte corrupta e sua camarinha de parasitas (vinda nos trinta e seis navios com o tesouro nacional, saqueado pelos funcionários do governo e nobres que fugiram) aportaram no litoral do Brasil, sua população, segundo Prado Júnior, já era de 3.000.000 habitantes, dos quais um terço era constituído de escravos. O espaço geográfico em que estes habitantes estão distribuídos era de 8 ½ milhões de Km², pouco mais de 0,3 almas por Km².

Se observarmos em conjunto a distribuição da população por núcleos habitacionais a época que a corte chegou ao Brasil, se perceberá que três núcleos se sobressaíram ao longo do litoral em relação aos que se encontravam dispersos pelo interior.

A maior concentração do povoado é a faixa costeira, mas largamente dispersa. O que havia eram núcleos de maior ou menor importância distribuídos desde a foz do rio Amazonas até os confins do Rio Grande do Sul. Mas entre estes núcleos mediava o deserto que em regra não servia nem ao menos para as comunicações que se faziam de preferência por mar. Três daqueles núcleos são de grande importância: concentram-se em torno de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro. Dois outros seguem num segundo plano; Pará e Maranhão. Vem depois uma infinidade de outros de expressão pequena se não ínfima, e distribuindo-se com várias freqüências entre aqueles núcleos maiores e para o sul do Rio de Janeiro. Se não havia continuidade neste povoamento, havia pelo menos uma sucessão regular de centros povoados, um colar de núcleos colonizados que mantinham a coesão desta longa faixa de território litorâneo de quase 6.000 km de extensão. (Prado Júnior, 1998:101-102).

O processo de produção social necessário a vida dos núcleos de povoamento dispersos se compunham de variados setores de atividade econômica. Esses de um lado são os que a coroa de D. João VI encontrou em 1808 e de outro são os mesmos que o Brasil terá no momento da Revolução de 1817 e até depois. Em essência:

Os diferentes setores que o compõem têm uma atividade variável (...): as grandes lavouras tropicais, a cana-de-açúcar, o tabaco, o arroz, o anil, o algodão, ao longo do litoral; aquelas primeiras mais próximas do mar, a última um pouco mais arredada para o interior; a colheita de produtos naturais (sobretudo o cacau) no extremo-norte; a mineração do ouro e dos diamantes no centro-sul; a pecuária no sertão do nordeste e extremo-sul. Estes são em suma, desprezando os pormenores, os gêneros da vida econômica da população colonial. (idem. p.102-103).

O modo de produção da vida material, no momento que estamos a considerar, se movimenta com base no trabalho escravo. O que caracteriza a sociedade brasileira durante os nove anos do governo joanino é sem dúvida a escravidão. Mas, esse sistema de trabalho não surge de Ex abrupto, o mesmo vem desde o início da colonização portuguesa e perpassa vigorando até seu apodrecimento pelos idos finais do sáculo XIX, quando começa a outra escravidão, a assalariada.

Dispersos nas regiões brasileiras, no interior daqueles vários núcleos, o referido modo de produção tinha um aspecto fundamental: relações de classes antagônicas. As relações contraídas pelos os homens e mulheres eram, de um lado, constituídas pelos senhores proprietários de terra, engenho e escravos; de outro, vinham esses últimos, que eram o sustentáculo da produção dos diversos gêneros de vida pertencentes à classe dominante.

Em suma, o que se verifica é que os meios de vida, para os destituídos de recursos naturais, são na colônia escassos. Abre-se assim um vácuo imenso entre os extremos da escala social: os senhores e os escravos; a pequenas minorias dos primeiros e a multidão dos últimos. Aqueles dois grupos são os dos bem classificados da hierarquia e na estrutura social da colônia: os primeiros serão os dirigentes da colonização nos seus vários setores; os outros, a massa trabalhadora. (Prado Júnior, 1986:281).

Vivendo à margem dessas relações sociais de produção existiam outros homens que não eram absorvidos diretamente pela sociedade escravista, mas, que eram forçados a contraírem relações outras dentro da estrutura social. Estes que constituíam a grande maioria da população livre da colônia:

Compõem-se, sobretudo de pretos e mulatos forros ou fugidos da escravidão; índios deslocados de seu habitat nativo, mas ainda mal ajustado a nova sociedade em que os englobaram; mestiços de todos os matrizes e categorias que, não sendo escravos e não podendo ser senhor, se vêem repelidos de qualquer situação estável ou pelo preconceito ou falta de posições disponíveis; até brancos, brancos puros e entre eles (...) até rebentos de troncos portugueses ilustres (...). (idem. p.282).

Numa estrutura social desta natureza a contradição principal é o antagoniza entre os que trabalham e os que usufruem do trabalho de outros, isto é, entre senhores e escravos e entre senhores e trabalhadores livres, entre os que detêm a propriedade dos meios de produção – as terras, as maquinarias dos engenhos, a mão-de-obra, etc. – e os que dela estão privados. Todas essas características da sociedade brasileira são traços que permanecem no seu seio.

A institucionalização da Monarquia no Brasil vem corresponder uma política econômica subordinada aos interesses do latifundiário exportado e aos interesses expansionistas dos ingleses. Desta forma, traduz-se em si mesma os interesses da classe dominante que tem a produção dos gêneros tropicais destinados ao mercado consumidor capitalista. Nesse sentido, está determinada também pela Inglaterra capitalista a qual tem o Brasil com mercado comprado dos produtos manufaturados e intermediaria das suas mercadorias aos países vizinhos, bem como, uma economia agrícola que passa a se beneficiar dos seus produtos tropicais para as indústrias.

A essência da política joanina esteve, pois, na submissão ao latifundiário exportador, de um lado, e aos interesses expansionistas externos, e de outro lado, perfeitamente entrosados. Traduzia o absoluto predomínio social da classe ligada à propriedade da terra, a relações escravistas e a relações feudais. Predomínio que se conciliava em tudo com invasão do país pelos produtos elaborados de que a Inglaterra era então a principal fornecedora. Uma economia exportadora teria de conciliar-se, evidentemente, com a política dos países que dominavam os transportes marítimos, no momento reduzidos à própria Inglaterra. (Sodré 1976:42).

Se a política joanina veio corresponder à eliminação dos monopólios comerciais das diferentes regiões do Brasil, mantidas anteriormente sobre clausura pela metrópole lusitana, entretanto, trouxe obstáculos para o desenvolvimento industrial do país. À medida que o monopólio deixa de existir, o Brasil fica livre para diretamente comercializar com outros países, de início bastante restrito devido ao Bloqueio Continental, mas, ao mesmo tempo, fica impossibilitada em desenvolver a produção de mercadorias elaboradas industrialmente, pois, as medidas que permitem o fim da clausura acabaram produzindo efeitos negativos a este último setor. Sodré (idem: 185) diz que:

As simples normas administrativas baixadas pelo governo joanino não teriam força, evidentemente, para contrapor-se a tudo aquilo que era a essência de sua política, subordinada aos interesses britânicos que, no particular da liberdade de comércio, conciliavam-se perfeitamente com os da classe dominante colonial, aquela a que o príncipe e sua corte deviam aqui as condições de exercício de poder. Ao ato de abertura dos portos seguem-se, realmente, atos de determinadas atividades; o alvará de 28 de abril de 1809, em particular visando explicitamente gerar privilégios aos que introduzissem máquinas no Brasil, especialmente no sentido de beneficiar lã, algodão, seda, ferro e aço. Nem tinham tais atos o cordão de gerar indústrias, para as quais não havia um mínimo de condições, nem refletia reivindicações ponderáveis.

A abertura dos portos, efetivamente, deu um impulso novo ao comércio. Segundo Sodré (1986:140) “O surto comercial foi, realmente novo, alterando a fisionomia da cidade (Rio de Janeiro) e, até certo ponto, da colônia”. No regime de monopólio a atividade de comércio era quase um negócio de Estado. Agora não, seria um negócio privado. Com a abertura dos portos surge um afluxo de comerciantes estrangeiros, na maioria inglesa numa primeira fase. Ao mesmo tempo permite uma atividade de trocas diferente da anterior, ocorrendo daí por diante que o grande comércio fica nas mãos dos ingleses ou de outros europeus mais tarde, enquanto o pequeno comércio a retalho fica em mãos dos portugueses, aos quais os brasileiros são anversos, como ocorrerá em 1817. Isso acontecia no que se refere à importação unicamente, que havia sido desnacionalizada, a exportação permaneceu na maioria em mãos de brasileiros, porém, ao passar do tempo foi dominado também pelos estrangeiros.

A abertura dos portos, a liberdade de comércio e a franquia tarifária à subordinação inglesa proporcionam um desenvolvimento comercial, e assim, uma difusão maior as atividades comerciais de importação e exportação. Tudo isso veio influir em outros fatores como a aceleração da urbanização, o crescimento do aparelho de Estado (criação de Ministérios, Conselho Supremo Militar, Conselho de Estado...), o aparecimento da imprensa, com o desenvolvimento do comércio surge à necessidade da criação do Banco do Brasil para abrir caminho ao estabelecimento de crédito, bem como, modificações em certos aspectos da educação.

Este último sofreu transformações devido à necessidade de quem soubesse ler e aplicar o conhecimento e contribuísse para a ampliação da cultura de classe. Assim foi criada a academia de Belas Artes, as Escola da Marinha e Militar do Rio de Janeiro, a Escola Médica-Cirúrgica da Bahia e a de Anatomia e Médica do Rio de janeiro. Além dessas instituições criadas, já funcionavam alguns Seminários com certos aspectos de ensino superior como o São Joaquim no Rio de Janeiro, o Mariana em Minas Gerais, o Seminário da Bahia e o Seminário de Olinda em Pernambuco.

O aumento urbano nas principais cidades portuárias trouxe também a expansão das profissões liberais e de uma série de empregos que eram necessários prover à máquina administrativa, ao tempo em que crescia a classe média. Não obstante a todas essas mudanças, o que não aconteceu foi alterações na própria estrutura econômica do país: “Não altera a estrutura de produção, à propriedade da terra, a propriedade servil. Manteve as relações de produção coloniais, eliminando a intermediação português, a que estava reduzida, finalmente, a subordinação do Brasil à Metrópole”. (Sodré, 1976:45).

A sociedade nordestina inseria-se dentro do processo geral da sociedade brasileira, e por isso mesmo, há de se considerar seus aspectos peculiares no sentido de contextualizá-la tomando como ponto de partida a própria totalidade do processo histórico.

A classe dominante no nordeste era formada pelos grandes proprietários de terras e escravos que se dedicavam a cultura da cana-de-açúcar, do algodão e da pecuária bovina. Possuíam assim a terra e produziam para a exportação. Contudo, ocorria que a mesma estava sobre o controle dos comerciantes portugueses, sendo ínfimos os brasileiros que praticavam essa atividade comercial, principalmente depois de 1814, quando: “(...) foi concedida a entrada de navios de qualquer nação no mercado colonial português, bem como a saída de navios nacionais a portos estrangeiros e a 11 de agosto de 1815, decretou-se o fim da proibição e comercialização de obras de ouro e prata do Brasil”. (Aquino, 2000:388).

Os exportadores portugueses recebiam a produção especialmente do açúcar e do algodão dos grandes proprietários e vendiam ao mercado externo, que por sua vez, era intermediado por comerciantes ingleses que recebiam uma comissão pelo serviço. Ao mesmo tempo os portugueses recebiam os produtos importados, mediado de forma inversa por ingleses e portugueses da metrópole e europeus outros após 1814, revendendo aos proprietários consumidores. Criava-se desta maneira, uma relação comercial em que os proprietários do latifúndio exportador eram prejudicados financeiramente, sem falar nas taxas cobradas na alfândega para manter a maquina burocrática do estado. Por tudo isso, a aristocracia se via sem alternativa de controlar a exportação, ficando na dependência dos comerciantes portugueses e em geral se endividando.

Em Pernambuco (província que entre o Ceará e a Bahia era uma das mais populacionais e ricas da região, onde gravitava o escoamento da produção vindo das províncias vizinhas, lugar de entrada das mercadorias que suas sociedades necessitavam consumir) a situação não era diferente em relação ao que foi colocado atrás, pois ali segundo Aquino (Idem.p.393):

(...) tanto os produtores de algodão quanto os de açúcar dependiam dos comerciantes portugueses, que forçavam a baixa do preço de compra para revender no exterior a preços altos. Estes comerciantes adotavam processo inverso no comercio de escravos: compravam os escravos a baixos preços e os revendiam aos proprietários de terra a preços elevados. Com isso seus lucros eram altos, contrastando com a margem de ganho do produtor pernambucano.

Torna-se necessário esclarecer a tramóia realizada pelos comerciantes que viviam em Recife ou Olinda. Eram eles representantes dos exportadores reinóis de escravos. Ao receber o escravo africano, falsificavam notas de venda, nas quais fingiam vender o escravo a baixo preço. Essas notas de venda fictícias eram remetidas para o reino, sendo o escravo vendido realmente a preços elevados.

No campo da burocracia estatal, dificilmente os proprietários agrícolas tinham acesso aos cargos mais elevados da hierarquia, se limitando a obter posições de submissão como oficiais de milícia e a ocupar os cargos nas câmaras municipais. Geralmente, os altos comandos dos governos locais ficavam com funcionários de carreira em sua maioria também portugueses. Este fato fazia apenas crescer a rivalidade entre comerciantes e proprietários de terras e escravos, ou seja, entre brasileiros e portugueses, como por exemplo, nas instituições militares e religiosas.

O antagonismo entre brasileiros e portugueses também ocorria em âmbito militar, porque envolvia questões de hierarquia e de poder. Os portugueses detinham na prática o monopólio dos postos mais altos, desse modo ficando com maiores poderes, e assim cabendo aos brasileiros os postos inferiores, poderes subordinados e menor prestigio social. Tudo isso representava grande desigualdade de soldos, até porque os reinóis geralmente compunham as tropas de linha, e os brasileiros cabia integrar as tropas auxiliares.

O clero igualmente esteve sujeito a essa rivalidade entre sacerdotes reinóis e sacerdotes nascidos no Brasil. Inegavelmente foi relevante a participação do clero na Revolução de 1817 (...). (AQUINO.Idem.p.391).

A maioria da população – sobretudo nas áreas de atividade econômica onde se produzia o açúcar, mas também, nas fazendas pelo interior do nordeste – era constituída por escravos e pessoas pobres que trabalhavam a terra alheia ou pequenas propriedades. Numa sociedade constituída por esses traços acontece, igualmente, àquela contradição principal da sociedade brasileira, que é o antagonismo entre a classe proprietária e a classe de trabalhadores, os escravos. Diz Correia de Andrade (1991:52) que no nordeste:

(...) viviam os proprietários em suas terras cercadas de negros escravos, muitas vezes hostis e sedentos de liberdade, fazendo com que tivessem de manter gente armada para reprimir as rebeliões. Na verdade, estas eram freqüentes nas senzalas e, após a chegada da noticia da revolta, com sucesso, dos negros de Haiti, ficaram os proprietários apavorados com a hipótese de ocorrência de uma rebelião escrava no Brasil.

Na província de Pernambuco os trabalhadores livres passaram a ser expulsos das terras que ocupavam, devido à concentração delas pelos proprietários, e viviam em grandes dificuldades porque a pobreza reinava. Nessa direção, Aquino (idem. p.393-394) assinala que:

(...) desde fins do século XVIII vinha se acelerando o possesso de concentração das terras. Esta concentração era feita por compra, herança, como forma de pagamento de divida e pelas doações em sesmarias. A concentração do principal meio de produção nas mãos de poucos contribuía para atingir muitos lavradores livres que viviam como posseiros e praticavam uma agricultura de subsistência.

Vivendo em condições precárias, sujeitos á violência dos grandes proprietários, porque a maior parte deles não havia legalizado as terras que cultivavam, viam agravar-se o seu viver devido à grande seca de 1816. Para muitos, a saída era migrar para Recife ou Olinda em busca de um trabalho ocasional.

A conjuntura passada pelo nordeste – especialmente por Pernambuco que reflete com mais intensidade as condicionantes regionais – desenvolve-se num quadro em que a província da Paraíba é parte constituinte, sendo que, essa sofre das contingências vividas pela província vizinha.

Todos os gêneros de exportação como açúcar, algodão, principalmente, mais também, couro, fumo, madeira, etc., (advindos das atividades econômicas existentes na Paraíba e, conseqüentemente, produzidos dentro das relações escravistas e servis, que não poderiam ser diferente da sociedade nordestina) eram dependentes de Pernambuco na perspectiva de exportação daqueles gêneros pelos comerciantes portugueses. Bem como, de suas importações, seja do escravo para repor a força de trabalho seja de mercadorias outras para as suas necessidades, compradas, porquanto, aos comerciantes portugueses e dos atravessadores pernambucanos.

Ao considerar esta característica de pendência, Horácio de Almeida (1957:32) comenta o fato de:

A Paraíba, ligada a Pernambuco por identificação de interesses e vínculos de famílias, estava também sujeito aos influxos de fatores econômicos. Tendo sido incorporada á capitania vizinha por deficiência de rendas, conseguiu, finalmente, emancipar-se da subordinação administrativa, sem, contudo, libertar-se da influencia econômica, que predominou por muito tempo.

Por isso, em se tratar da Paraíba e de sua relação como Recife, Octavio (1996:100) assevera que sua “(...) posição [era] secundária (...) no conjunto da economia regional” e que “dentro dela era indiscutível a supremacia do porto do Recife, crescentemente dominado por portugueses”. Ademais, no que se refere ao campo político, dirá Horácio de Almeida: “politicamente, as duas unidades territoriais andaram sempre unidas”, pois, “vão irmanadas ao sacrifício da revolução de 1817, que visava á implantação do regime republicano”. (Idem. p.32).

Era essa a conjuntura histórica vivida pela sociedade nordestina, especialmente, de Pernambuco, considerado uma das áreas mais ricas, e, da Paraíba, província a qual ocupava posição secundaria em relação às outras da região, como demonstra sua dependência a província pernambucana. E o que é mais importante a destacar aqui: foi em meio a este quadro que surgiu a Revolução Pernambucana de 1817, que representou mais uma tentativa de romper os laços de subordinação a Portugal.

Mas, dado a realidade particular e geral, porque se originou este movimento revolucionário? E em linhas gerais como se processou seu desenvolvimento rebelde?

A região produtora de açúcar e de algodão, principais sustentáculos da exportação, enfrentava uma crise causada pela baixa desses gêneros no mercado externo. Além disso, no ano de 1816, o nordeste brasileiro foi assolado por uma grande seca que afetou sensivelmente a agricultura de subsistência e provocou a queda da produção daqueles dois gêneros. Por causa disso, de um lado, houve prejuízo econômico para os grandes proprietários ligado a exportação, e de outro lado, os mais prejudicados foram às massas trabalhadoras, cuja precária situação se agravou com o aumento do custo de vida, atingindo de igual maneira os elementos da classe media embrionária.

Aquela classe dominante ainda convivia com a exploração dos comerciantes portugueses que estabeleciam os preços dos produtos agrícolas que compravam e dos alimentos e artigos que vendiam (provenientes dos comerciantes ingleses, portugueses da Metrópole...).

Por sua vez, o aumento e a criação de novos impostos (que incidiam sobre os produtos da pauta de exportação do açúcar, algodão, etc.) para sustento da Corte sediada no Rio de Janeiro, contribuíram para piorar ainda mais a qualidade de vida da população, na medida em que, os preços dos gêneros de primeiras necessidades tornaram-nos proibidos aos pobres. Ora, a situação era no mínimo contraditória, porque o contraste entre o luxo e a ostentação da parasitária Corte e a miséria das camadas populares nordestinas era cada vez mais acentuada.

O descontentamento diante de tal realidade foi o que levou vários seguimentos da sociedade (funcionários públicos, militares, padres, letrados, estudantes, pequenos comerciantes, pequenos proprietários de terra, engenho e escravos, poucos - porque só emposaram de fato a autonomia política em 1822, todavia, já se viam alguns deles insatisfeitos com a crise econômica e política -; alguns escravos e trabalhadores livres estão presentes só pequenos números) a levarem a termo e a efeito o movimento revolucionário de 1817. Movimento rebelde, que do ponto de vista geral, percebia que o:

(...) estado não estava preocupado com os problemas brasileiros. Foi criado para atender aos parasitas que fugiram de Portugal com D. João. Muitos brasileiros proprietários de terra foram afastados do poder político. Mas continuaram com o poder econômico. O poder político ficou nas mãos do futuro rei, dos nobres e dos comerciantes portugueses. A nobreza não gostava de trabalhar. Contudo, recebia pensões que, ás vezes, atrasava. Por isso, nobres e funcionários cobravam do povo serviços que deviam ser gratuitos. A corrupção se generalizou. Além disso, a nobreza estava acostumada a uma vida de luxo e de festas. Para mantê-la, D. João aumentou os impostos. Além disso, os comerciantes portugueses tudo fizeram para impedir aos brasileiros e portugueses, travaram uma verdadeira luta política.

Este é um dos motivos que influenciou a Revolução de 1817, em Pernambuco. Foi um movimento anticolonial e separatista: queriam a independência e a República. (AQUINO, 2003:86).

A “República” como plataforma política para a “independência” do Brasil imitava a terminologia e os aspectos da ideologia burguesa provenientes do conjunto de ideais:

(...) de que são episódios marcantes a Revolução Industrial, que assinala as mudanças nos meios de produção e nas técnicas de que servem, a Revolução Francesa, que assinala a liquidação de relações feudais, a Revolução Americana, que importa na transferência a determinada área do novo Mundo de muitas alterações ocorrida no Velho. (SODRÉ, op.cit:180).

Tais idéias estavam aqui deslocadas de seu habitat original porque não existia no Brasil uma região industrializada e mais desenvolvida em relação as outras como haverá nos Estados Unidos da América do Norte, pois, o país era agrícola, de produção escravista e servil, dissociado do trabalho assalariado e livre. Diante disso, aqueles ideais quando aplicados na realidade brasileira só “(...) serviam, quando menos, para expressão, embora inadequada, da inconformação com o estado de coisas reinante”. (Idem.p.181).

Mesmo que o movimento rebelde de 1817 não tenha encontrado as condições favoráveis para levar a efeito a ideologia burguesa, o problema, na verdade, é uma questão histórica determinada e independente da vontade dos homens de ação. Mesmo assim, acreditaram e guiaram suas ações pelas idéias burguesas (que a época eram progressistas para o Brasil), com uma vontade consciente de trazer a realidade a necessidade de uma liberdade contrária a do absolutismo reinante que os oprimiam. A liberdade dentro do quadro político existia, mas, desde que respeitasse o governo joanino e seu “presidente” o El-Rei. Neste sentido, não tinham “liberdade” porque essa não se submete aos revolucionários, suas necessidades queriam outra liberdade: a de acabar com a monarquia e estabelecer o federalismo, em todo caso, como disse o poeta Augusto dos Anjos: “Querer sem poder eis a questão”. Mas, sonharam e lutaram por um futuro republicano para o Brasil.

Papel de relevo para difusão dos ideais revolucionários coube ás lojas maçônicas que funcionaram como focos de propagação. Nelas os:

Temas de debate entre os conspiradores eram a Conspiração dos Suassunas, a evolução da Revolução Francesa e o processo, ainda em andamento, das guerras de independência da América espanhola. Houve até a sugestão de armar um navio corsário para seqüestrar Napoleão Bonaparte, que fora banido para a ilha de Santa helena. Evidentemente que o romantismo dessa proposta não se viabilizou. (AQUINO, 2000:392).

Antes de mais, é importante abrir aqui um parêntese para reconhecermos o papel da Maçonaria neste referido tempo histórico. Esta sociedade secreta, segundo Azevedo:

(...) é uma fraternidade, em princípio só acessível ao sexo masculino e cujos adeptos se identificam por alguns comportamentos enigmáticos. A Maçonaria não representa nem uma religião nem qualquer sistema filosófico, sendo compatível com todos os credos ou qualquer doutrina espiritual. Ela é, portanto, universal. A célula maçônica básica é a Loja. Um grupo delas constitui uma obediência ou Grande Loja sob a direção de um Grão-Mestre. (apud.AQUINO. 2001:109).

Com base nas informações de Aquino (Idem p.109-110/2000: 408-410), a expansão da Maçonaria ocorreu no século XVIII, tendo como pólo a Inglaterra, em rápido processo de transformação capitalista.

A origem das lojas maçônicas é controversa, mas, há algum consenso de que o modelo predominante para a organização delas seja o modelo inglês, elaborado pela Grande Loja da Inglaterra. Essa teria surgido da fusão de quatro Lojas existentes em Londres. Seis anos depois, foi promulgado um código denominado Constituição de Anderson (Anderson era um protestante), que ao passar dos anos, foi sendo adotada por outras sociedades, as quais se constituíam em Lojas Maçônicas. Fundamental a ser destacado é que: “a burguesia filiou-se em massa à Grande Loja [da Inglaterra], e as Constituições de Anderson tornaram-se a carta reguladora da maioria das Lojas”.

Mesmo tendo uma postura aberta em relação às igrejas, a Maçonaria enfrentou oposição da Igreja Católica que a associava, não sem razão, ao pensamento liberal e anticlerical. Foi o que aconteceu em 1738, quando o Papa Clemente XII a condenou oficialmente.

Apesar disso, continuou a sua expansão. Na França do Antigo Regime fundou-se a Loja Grande Oriente em 1773. Só no ano da Revolução Francesa (1789) em Paris funcionavam 23 Lojas Maçônicas. A elas eram filiados muitos pensadores da Época das Luzes, dentre o quais Jean-Jacques Rousseau.

As sociedades secretas também chegaram as sociedades americanas. Nas Lojas Maçônicas se reuniam os elementos da aristocracia colonial partidária do fim do Regime de Exclusivo Colonial e de outras práticas mercantilistas. Igualmente, discutia-se a necessidade de conquistar a independência, enterrando definitivamente a dominação colonial, com todas as suas sufocantes implicações.

No Brasil, a Maçonaria atuou de forma mais incisiva a partir do século XVIII, participando ativamente dos movimentos de contestação (Conjuração Mineira, Conjuração do Rio de Janeiro e Conjuração Baiana e da Revolução Pernambucana de 1817) do Pacto Colonial - ou Sistema de Clausura e Monopólio Econômico. No processo que resultou na Independência, as Lojas Maçônicas tornaram-se palco de acalorados debates que refletem as diferenças de projetos entre os membros da elite no Brasil. Após o desfilar caleidoscópio da independência, as sociedades maçônicas continuaram a ser modelos de organização política para os grupos politicamente ativos na vida do país. E, não só participavam delas aqueles setores da elite, mas também, alguns atores sociais mais “radicais”, como os jacobinos que representavam certos interesses do “povo”. No entanto, os genuínos interesses populares, certamente, estavam excluído, pois, de certa forma as lojas maçônicas eram fechadas aos escravos, aos brancos pobres, aos índios e daí por diante, sendo exclusivo apenas aqueles da classe dominante.

Que a Maçonaria foi um importante espaço para a propaganda dos ideais emancipacionistas não há duvida, porém, é necessário compreendermos que tal papel se limitou ao séc. XVIII e em certa medida ao séc. XIX, pois, com o passar do tempo tornou-se anacrônica e conservadora, assim como, o próprio Liberalismo. Ademais, seu espaço na sociedade cível foi perdendo seu papel político à medida que foram surgindo os partidos políticos, os quais ocuparam os espaços na vida política da sociedade.

Pernambuco era então governado pelo capitão Caetano Pinto de Miranda Montenegro, português pau mandado da Corte do Rio de Janeiro, além, de prepotente e duvidoso (ao seu respeito corria que a era Caetano no nome, Pinto na falta de coragem, Monte devido á sua estatura e negro nas ações). Durante seu governo, considera Correia de Andrade (1971:20-21), houve um fato que contribuiu bastante para a propagação das idéias liberais em Pernambuco:

Este homem, que era tolerante e não confiava na força das idéias, achava que os maçons se divertiam, conspirando e não tomou providencia para evitar que as Academias Suassuna e do Paraíso, fizessem proselitismo. (...) Entusiasmado com a falta de vigilância do governo, os liberais conspiravam abertamente, chegando até a enviar emissários para coordenar o movimento que se faria aqui com o que deveria surgir nas províncias vizinhas. Para isto, estiveram na Bahia, Domingos José Martins e Domingos Teotônio Jorge, enquanto o Ceará foi atraído à causa, pelo coronel Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque.

A situação ia tão manifesta que certo dia foi-lhe denunciado a existência de um movimento rebelde contra o governo português, sendo-lhe apontado o nome dos principais envolvidos. Imediatamente, o homem que não acreditava nas forças das idéias determinou a prisão de Domingos José Martins (que voltaremos a apreciar seu comportamento político), do padre João Ribeiro Pessoa de Melo Montenegro, de Antonio Gonçalves Cruz, do Capitão Domingos Teotônio Jorge e outros mais.

Porém, ao contrario do que aconteceu com as Conspirações anteriores de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, desta vez, uma surpresa estava reservada: vários oficiais negaram-se a cumprir as ordens de prisão. O movimento eclode, o Governo foge e os sublevados sem mais tardar tomaram o poder.

Criou-se um Governo Provisório da República de Pernambuco, integrado por representantes de cinco segmentos da sociedade: Domingos Teotônio Jorge (militares), Domingos José Martins (comerciantes), Manoel Correia de Araújo (agricultores), padre João Ribeiro pessoa de Melo Montenegro (sacerdotes) e doutor José Luis Mendonça (magistrados). Esse governo foi eleito por 16 personalidades das mais notáveis da capitania, sendo negros dois dentre elas. (AQUINO, Idem.p.395).

A proclamação desse governo tem uma significação histórica devido ao fato de se tratar do primeiro governo de caráter nitidamente nacional a estabelecer-se no Brasil. Del Roio (1986:22) fala que o mesmo:

Declarou-se republicano e extinguiu os títulos e o tratamento nobiliárquico, criou uma bandeira e aboliu a censura á imprensa, suspendeu os impostos a serem pagos ao Rio de Janeiro e deu garantias aos direitos individuais. Entretanto, manteve embutida no interior desses direitos, uma contradição que se lhe seguiram, ou seja, o direito à propriedade, incluindo-se nele os escravos. Na realidade, nem todos os lideres da insurreição eram pela conservação da escravatura; vários deles, entre os quais Domingos José Martins e Pedroso, advogavam a radicalização do processo e a libertação dos negros, mesmo porque estes seriam necessários à constituição das tropas armadas para sustentar o inevitável contra ataque do colonialismo.

O governo rebelde, anti-monarquista, pretendia formar uma República Federativa composta por Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas e Bahia. Contudo, fracassaram as tentativas do Ceará e Bahia devido à prisão daqueles a quem foi confiada a missão, somente Paraíba, Rio Grande do Norte e alagoas conseguiram construir governos revolucionários. José Martiniano de Alencar foi preso no Ceará e padre Roma e Domingos José Martins na Bahia.

Além do mais o governo republicano buscou apoio no estrangeiro. A Hipólito José da Costa – fundador, diretor e redator do Correio Brasiliense – que residia em Londres, foi oferecida a representação da novela pública. Antônio Gonçalves da Cruz, apelidado de Cabungá, enviou-se aos Estados Unidos na condição de Embaixador e como tal buscou o apoio norte-americano. Félix Tavares de Lira, enviado ao rio Prata, deveria buscar contatos com os paraguaios que defendiam sua independência” (Aquino. Idem. p.396).

A reação do governo joanino foi imediata. Da Bahia partiram expedições por terra e por mar para bloquear Recife. O bloqueio a cidade de Pernambuco foi reforçado com a chegada de uma esquadra comandada pelo vice-almirante Rodrigo lobo, representante das retrógradas forças portuguesas.

Embora fosse adotada a tática de guerrilha, a sucessão de traições, a falta de armamento e munição, disparidade de forças militares resultaram na derrota da República.

(...) Houve 317 prisioneiros, oriundos das diversas capitanias. após o julgamento sumário, foram fuzilados em Salvador Domingos José Martins, o padre Miguelinho e José Luis de Mendonça. (idem.p.397)

Mais uma vez, vieram à tona as violências da repressão portuguesa, simbolizada pela crueldade das execuções. Além desses que foram mortos outros líderes do movimento o foram executados, inclusive estudantes.

A revolução Pernambucana de 1817 não constitui aqui objeto em especial de estudo. Nossa pretensão em ter contextualizado o palco geral do processo histórico e delineado os aspectos essenciais dela sem descer aos pormenores do seu desdobramento foi tão somente de proporcionar o pano de fundo da conjuntura histórica para ajudar a entender: primeiro a luta dos estudantes brasileiros junto a homens maduros e experimentados (nem por isso imaturos e não experimentados) que sonharam com a independência do Brasil, e, segundo, a participação política dos estudantes paraibanos no processo que marca o pioneirismo das lutas estudantis na Paraíba.

AS LUTAS DOS ESTUDANTES BRASILEIROS NA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

Neste sentido, a participação política dos estudantes brasileiros na Revolução Pernambucana teve uma extrema importância para luta política e social do Brasil de então. Sua presença no movimento revolucionário não poderia deixar de ser, e, não é de estranhá-la, porque na consideração de um mestre da Revolução de 1917 na Rússia, Lênin, os estudantes:

(...) São a parte mais sensível da intelectualidade, a qual se chama precisamente assim, por que reflete e expressa de modo mais consciente, mais decidido e mais precioso, o desenvolvimento dos interesses de classe e dos agrupamentos políticos em toda a sociedade. (1980:25).

É essa parte da intelectualidade, isto é, dos estudantes em geral e dos estudantes paraibanos em particular, que refletiram e expressaram de modo consciente os interesses de classe da sociedade da época, através de sua atuação política na Revolução Pernambucana de 1817, que iremos identificar, reconhecer, apreciar e interpretar.

Com base na obra de Renato Bahia, “O Estudante na História Nacional”, Poerner (op cit. 59) considera que o autor citado: “(...) Assinala a participação estudantil, através da ideologia revolucionária difundida por Azeredo Coutinho e arruda Câmara, pelo seminário de Olinda e pelo Aerópago de Itambé na Revolução Pernambucana de 1817”. Essa afirmação que Poerner se limita a fazer sem aprofundar, segue a mesma linha duvidosa da participação estudantil na Conspiração dos Alfaiates da Bahia, ou seja, de que essa participação na Revolução Pernambucana ainda não é tão evidenciada. Por isso, a afirmação é superficial porque não se estuda de maneira histórica aquela “participação Estudantil”. A referência do acontecimento foi importante devido à lógica de trabalho, uma sistematização do movimento estudantil brasileiro. Não obstante, muito limitado a respeito da “participação estudantil” na Revolução de 1817. Isso em dois sentidos, primeiro em se tratar dos estudantes brasileiros no Brasil-Colônia que de certa forma é superficial. Segundo, porque o critério de totalidade: “brasileiros”, tem que levar em conta seus aspectos constitutivos, isto é, dos estudantes pernambucanos, cearenses, paulistas, paraibanos etc.

Um movimento revolucionário como o de 1817, mesmo fundamentando sua ação política numa ideologia burguesa, se faz com homens e idéias. Além disso, é fundamental identificar e reconhecer que tais idéias vieram de fora da realidade concreta dos revolucionários e se encontram numa realidade não original, como já consideramos. Ademais, se vêem ao encontro dos homens de ação através de uma educação política. O que se quer fazer observar com isso, é como historicamente aquela ideologia veio se encontrar dos corações e mentes dos revolucionários, principalmente, dos estudantes e também seu desdobramento na ação política.

O conteúdo ideológico vitorioso na Inglaterra, na França e nos Estados Unidos, que cai como semente fecunda nos corações e mentes dos seminaristas, estudantes do Seminário de Olinda, já vinha sendo divulgada, antes mesmo daquela instituição de ensino olindense ser fundada por Azeredo Coutinho, através do Aerópago de Itambé, uma associação secreta e maçônica.

Quando o bispo Azeredo Coutinho desceu no Recife já encontrou instalada na Capitania a célula secreta de Arruda Câmara, o famoso botânico, carmelita egresso, estudante de Coimbra, médico por Montpellier, sócio da Academia das Ciências de Lisboa (...). foi no Aerópago a nossa primeira colméia autonomista e as suas abelhas as primeiras a empreender um vôo continental em favor da independência comum. Nesse desiderato chegaram a sonhar com a América liberta e unida sob o pálio da democracia. (Rezzine op cit:94).

O grupo reunido por Arruda Câmara, segundo Correia de Andrade (op cit:16), era pequeno mais seletivo:

A semente plantada por Arruda Câmara não demorou a florescer, pois já em 1801, era denunciada pelo coronel José da Fonseca Silva Sampaio, uma conspiração chefiada pelos irmãos Francisco e Luis Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque, os quais em entendimento com o terceiro José, que se achava em Lisboa, tramavam uma revolução em Pernambuco, contando com, o apoio de outros povos americanos e do próprio Napoleão.

A conspiração dos irmãos Suassuna (como eram conhecidos estes ricos senhores de terra, engenho e escravos) foi desarticulada pelo governo português. Os irmãos Suassuna foram presos, contudo libertos em 1802. Depois de soltos continuaram a manter os princípios liberais que propagavam através de uma academia secreta que funcionava no engenho de propriedade de Francisco de Paula.

Além da academia dos Suassuna, criada após a fundação do Aerópago de Itambé, outras surgiram, igualmente, impulsionadas pela primeira associação de Arruda Câmara. Machado (apud Vieira 1990:38) aponta que:

Desse crepitante núcleo irradiava a propaganda para as lojas maçônicas, as celas eclesiásticas, os centros políticos, Academias do Paraíso e de Suassuna, Oficina de iguarassú, Universidade Democrática, filiais secretas do Aerópago de Itambé, a nossa vibrante Eleusis revolucionária, iniciadora dos patriotas no que eles chamavam “os segredos da liberdade”, os “grandes e delicados mistérios da democracia.

Como partes constitutivas das associações secretas figuram os estudantes. Essa identificação é feita por Correia de Andrade (op cit:18) quando se referir ao Aerópago de Itambé:

(...) continuou a ser grande a ascendência de Arruda Câmara sobre seus discípulos e que o mesmo se mantinha a par dos novos iniciados, pois em carta ao padre João Ribeiro, escrita em 1810, diz: ‘tenham todo cuidado no adiantamento dos rapazes Francisco Muniz Tavares, Manuel Paulino de Gouveia, José Martiniano de Alencar e Francisco de Brito Guerra.

Evidencia-se na carta de 1810 deixada por Câmara, sete anos antes da Revolução, a presença de quatro “rapazes” iniciados nos “segredos da liberdade” e “mistérios da democracia”. O pernambucano Muniz Tavares e o cearense José Martiniano são dois estudantes do Seminário de Olinda que, ao lado de outros colegas, estarão presentes na Revolução demonstrando o poder jovem nas lutas políticas.

Mas, quem veio a contribuir de maneira mais ampla na educação política dos estudantes seminaristas foi o Seminário de Olinda. Do ponto de vista educacional, era a única instituição de ensino com certa característica de grau superior existente na região e funcionava com um programa curricular fundamentado no cartesianismo. A partir desse programa mantinham-se cursos separados para a formação eclesiástica e laica com ensino de humanidade. Gilberto Freire (apud Sodré, 1964:176-177) comentando o assunto diz que: “em vez de só Religião e Retórica, Gramática e Latim, o Seminário de Olinda começou a ensinar as ciências úteis, que tornasse o rapaz mais apto a corresponder as novas necessidades do meio brasileiro”, e, acrescenta que, os alunos “se destinavam não só as ordens sacras, mas as outras cadeiras; rapazinhos desejosos de fazer os estudos de Humanidades; e estudando não só Latim e Filosofia, mas Matemática, Física, Desenho”.

Vieira (op cit:38) observa que a formação cultural dessa instituição: “Era uma espécie de magistério que instruía e despertava entusiasmo pela república, mas em harmonia com a natureza e dignidade do homem e ao mesmo tempo inspirava ódio a tirania dos reis”. Por aí, se vê que o Seminário não se demorou a manifestar em seu seio a sociedade em que estava inserido, principalmente, em se falar dos interesses de classe e dos agrupamentos políticos da própria sociedade. Uma vez que: (...) cedo saíram pernambucanos, paraibanos e riograndenses, números rapazes aptos a compreensão e defesa das novas idéias”. (Muriz, 1994:81). Fernando de Azeredo é mais esclarecedor ao afirma que:

A geração educada no Seminário de Olinda, que se tornou o foco de irradiação das idéias liberais, foi a brigada de choque da nova ordem européia no Brasil, e tal influência exerceu no preparo e na direção da revolução pernambucana de 1817, que esta se pode considerar estreitamente ligada, pelas suas raízes, aquele instituto, devido à difusão das idéias liberais”. (apud. Elpídio de Almeida. s/d:70).

Realmente, os padres são um dos seguimentos da sociedade, ao lado de outros letrados ligados a intelectualidade, que se confunde com o movimento rebelde. Correia de Andrade (op cit:18-20) – depois de analisar os seguimentos sociais que empossaram as idéias liberais e tomaram parte da revolução - assevera que o proselitismo maçônico penetrou pouco no seio da classe dos grandes proprietários, ao passo que foi mais intenso entre os intelectuais ao mesmo tempo que fazia alguns desenvolvimentos entre os comerciantes, bem como, entre os militares. No mais, o autor desenha o quadro afirmando que:

(...) estes – os da classe dos grandes proprietários de terra, engenhos e escravos – em sua maioria se mostravam indefesos às idéias liberais e à Maçonaria, embora houvesse alguns que formam, sem exceção, como os Suassunas, os irmãos Carvalho Paes de Andrade – Manuel e Francisco – e outros mais. A maioria, porém, mostrou-se sempre contrários às idéias liberais. Na cidade de Olinda e nas vilas de Goiana e Recife, sobretudo nesta, que era o porto, desenvolvia-se bastante o comércio e já se formava uma burguesia comercial urbana, constituída em sua maioria de portugueses, embora entre esses se encontrassem algumas figuras nascidas no Brasil, como Cruz Cabubá e Gervásio Pires Ferreira que desejando a independência se deixaram imbuir pelas novas idéias, pelas então chamadas idéias ‘francesas’. Por elas também se deixou influenciar grande parte da oficialidade nascida no Brasil, por ver que era preterida nas promoções em benefícios de oficiais portugueses, nem sempre mais capazes e leais que eles. Mas, o maior contingente maçom era constituído por padres, porque o foco das idéias liberais foi o Seminário de Olinda, após a organização dada ao mesmo tempo pelo notável bispo Azeredo Coutinho, do qual saíram figuras como o padre João Ribeiro, o padre Tenório, padre Venâncio H. de Rezende, para citar apenas os principais.

O que veio proporcionar o crescimento deste setor foi a expulsão dos soldados da Companhia de Jesus, os jesuítas. Com isso, o clero colonial tomou caráter novo, singular, mesmo ficando a hierarquia superior sob o comando de Portugal. A atividade religiosa na colônia ficou assim de forma quase absoluta com os elementos nascidos no Brasil, pois se passou a recrutá-los para preencher os postos deixados nos colégios e nos seminários. Desde então, se intensificou os mestres-régios dos chapelões de fazendas e engenhos como professores de primeiras letras e dos profissionais urbanos, quase todos realizados por brasileiros. Em 1817, havia se modificado tanto alguns aspectos das relações sociais que já existiam os padres mulatos, pobres, e por isso mesmo, padres maçons, revolucionários, rebeldes e padres políticos.

Correia de Andrade (Idem.p.20) diz que: “Tão grande era o número de padres maçons, padres liberais, que já se disse que a Revolução de 1817, foi uma revolução de padres”. E, não é de se admirar porque em Recife e Olinda, por exemplo, os padres do Seminário João Ribeiro Pessoa e Miguelinho saiam antes da revolução dos muros da instituição de ensino para dar aulas em praça pública ao povo, e, ao invés de Matemática, Física, Desenho, Latim ou Gramática, estavam ensinando Rousseau e Voltaire.

Na Paraíba, tal qual Recife e Olinda, a educação política das idéias revolucionárias também teve antecipação e prolongamento:

Observe-se a densidade interiorana de 1817 parahybana, em Pilar, Itabaiana, Mamanguape, Pombal, vigorando lúcido e energético, em convicções cívicas e arregimentações militares. Impossíveis sem letras, sem relações educativas. O fator de transmissão atualizadora da geração inconformada, há de ter sido o mestre-escola, composto de ex-alunos dos jesuítas e muito mais de ex-alunos do Seminário de Olinda e dos Conventos, com os padres-mestres, á frente. Nem todos ortodoxos e clericais, porém patriotas como o sempre lembrado Arruda Câmara, com seus discípulos onde se distinguiria o Pe. João Ribeiro Pessoa Montenegro. Na Parahyba, a relação dos ‘envolvidos na Revolução de 1817’ (...) começa pelo Pe. Antonio Feliz Velho Cardoso, com seu ‘cabedal scientífico’ (...), Pe. Antonio Pereira de Albuquerque ‘ parente e amigo do Pe. João Ribeiro’ e como este instruído em ‘Sciencia philosofica’. São ao todo onze padres e dois Carmelitas, entre os religiosos; vários militares de capitão para cima; dezenas de senhores de engenho e fazendeiros; profissionais tabeliões, boticários, rábulas, funcionários da Coroa. Todos, no caso, com certo grau de instrução (...). (MENEZES, 1982:17).

Nos seguimentos de padres e militares se encontravam alguns rapazes paraibanos. Do primeiro seguimento dois se destacaram. Um recém estudante do Seminário de Olinda, Antonio Pereira de Albuquerque, que ensinava no Recife e em Pilar e pertencia a Academia do Paraíso, junto ao amigo e parente João Ribeiro. O outro era Manuel Clemente Cavalcante que estava a cursar o Seminário. Colega dos dois jovens era José Peregrino Xavier de Carvalho, proveniente do segundo seguimento. Não foi seminarista como seus amigos, mas um jovem estudante da Academia Militar de Pernambuco. Todos os três jovens revolucionários foram os pioneiros das lutas estudantis na Paraíba e tiveram atuação destacada tanto na propaganda quanto na ação prática do movimento republicano.

Antes de entrar em cena os estudantes precursores das lutas estudantis na Paraíba, vamos evidenciar a participação de alguns jovens estudantes brasileiros que estiveram de mãos dadas na Revolução de 1817 com os paraibanos.

A galeria de heróis estudantes que participaram da Revolução Pernambucana de 1817 começa com a trajetória de luta de “(...) um rapaz brasileiro, Domingos José Martins (...) que é uma figura interessantíssima da revolução (...)” (MURIZ, op.cit:83). Esse “rapaz brasileiro” (nasceu no Espírito Santo e radicou-se em Pernambuco) é o mesmo que participou da Confederação Baiana, ajudando os revolucionários quando foi à França buscar apoio junto à maçonaria daquele país Nesse tempo Martins era estudante calouro na Inglaterra, lugar no qual conheceu o brasileiro Hipólito José da Costa e com ele pertencia à maçonaria local.

Três anos antes de a Revolução eclodir, esse ex-estudante que não morreu com a formatura, logo que chegou de Londres em 1814, onde se educara, teve uma participação tão grandiosa na propagação das idéias liberais que em pouco tempo se tornou seu polarizador através das freqüentes reuniões realizadas em sua casa. E foi “das constantes reuniões na casa de Domingos José Martins” onde nasceu “o plano revolucionário”. (SILVA, 1992:116).

Assim como os experimentados e maduros padres João Ribeiro e Miguelinho (que divulgavam as idéias liberais tanto em Recife quanto em Olinda ou como o jovem padre Antonio Pereira e o estudante seminarista Manuel Clemente, ambos paraibanos, que propagavam os ideais revolucionários em Pilar e Itabaiana), igualmente, fazia Domingos José Martins. Todos impulsionando simultaneamente a palavra de ordem de “tornar conhecido o estado geral, da Europa, os estremecimentos e destroços dos governos absolutistas, sob o influxo das idéias democráticas”. (MAXIMINIANO. apud. CELSO VIEIRA, op.cit:38).

Apenas a dois anos de triunfar a revolução, estava Martins (rico comerciante, mas em todo caso, um rapaz do meio ganho para as causas republicanas) pela banda da Bahia. Certamente, contactando os amigos da Confederação de 1798 e articulando conversas subversivas com o Grande Oriente Maçônico. Tais conversas tinham suas razoes de ser, pois, Martins havia fundado uma loja maçônica em Recife que era “(...) filial da que o venezuelano Miranda fundou em Londres”. Ela e a “loja de Antônio Gonçalves da Cruz Cabugá”, também no Recife, davam “um impulso ardente á propaganda”. (MURIZ, oc.cit:83). As duas lojas maçônicas e outras que existiam na cidade eram filiais, igualmente, da Grande Oriente de Londres e teriam sido articuladas pelo próprio Martins. Quem aprecia o fato é Rezzine (op.cit:8-9): “Em 1812 Martins e Hipólito fundaram a loja “lusitana 184”, ao Grande Oriente de Londres, que, em ligação com as academias e clubes secretos do Recife, preparou a revolução pernambucana de 1817, à qual, na hora precisa, Hipólito negou apoio”.

Para compreendermos as articulações de Domingos José Martins com a maçonaria, na perspectiva de articular as forças sociais em torno das bandeiras revolucionárias, direcionando-as a levar a efeito o movimento rebelde no nordeste, temos de observar que as lojas maçônicas do Brasil mantinham contatos tanto entre si quanto com aquelas do exterior:

Em princípios do séc. XIX havia lojas espalhadas pelos principais centros da colônia, e não só se articulavam entre si e com as da Europa, suas inspiradoras, mas com as dos Estados Unidos e das demais colônias americanas. (...). Aliás, a maior parte dos personagens que tem algum papel saliente naquele período é formado de maçons”. (PRADO JÚNIOR, 1986b:371).

Isso demonstra que o movimento revolucionário tinha uma dimensão organizacional. Daí se perceber o grau de participação organizada do jovem “rapaz” preparando o processo rebelde e procurando dá uma articulação interna as forças políticas espalhadas pelas diversas lojas maçônicas. O fato tem procedências, pois, Pombo (1966:122) assevera:

(...) que Domingos José Martins e Domingos Teotônio Jorge se entendiam com chefes políticos de prestígios no Maranhão, no Ceará, no Rio Grande do Norte, na Paraíba, na Bahia, e até no Rio de Janeiro. (...). Tudo induz a crer que a conspiração se ramificava por muitas capitanias.

Quando foi formado o Governo Provisório da Republica de Pernambuco, Domingos José Martins lá se encontra na composição do governo rebelde, chegando inclusive advogar a radicalização de libertar os escravos.

Após a proclamação da Republica e a expansão do movimento, Martins voltou à Bahia novamente, desta vez, para organizar com os revolucionários dali e de Alagoas a resistência da insurreição. No momento, a reação do governo absolutista já havia entrado na Bahia e vencido parte das tropas rebeldes, no entanto:

Em Serinhaém puseram-se fortes os republicanos com a sua artilharia, animados pela presença, se não pelo comando, de Domingos José Martins, espécie de comissário da revolução junto á tropa; e resistiram com firmeza. Ameaçados, porém (pela ala do major Salvador José Marciel que procurou envolver a posição), suspenderam ao anoitecer o fogo e retiraram sobre a capital. Marins, que se metera pelos matos na tentativa de dirigir uma manobra audaz, que seria cortada as comunicações da força atacante, caiu em poder... A prisão do cabecilha selava a sorte do governo revolucionário. (CALMON, 1959:1441-1442).

Preso neste episódio, Martins foi levado a julgamento criminoso no tribunal contra-revolucionário junto com padre José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima (conhecido como Padre Roma), Padre Miguel Joaquim de Almeida Castro (Miguelinho) e o magistrado José Luis Mendonça, após rápido interrogatório foram sumariamente executados. Antes de essa execução cair sobre Domingos José Martins, ele deixaria mais um exemplo de heroísmo, pois, minutos antes de morrer bradou aos fuzileiros da sua escolta, dizendo: “vinde executar as ordens do vosso sultão: Eu morro pela liberdade”.

Quem participou da revolução de 1817 foi o jovem estudante das armas, filho de Padre Roma, de apenas 21 anos, José Inácio de Abreu e Lima, que na ocasião esteve preso junto com o pai na Bahia por terem lutado contra a velharia do absolutismo português. Segundo Sodré (1964:249):


Jovem capital Abreu e Lima











A este jovem estudante, João Cabral de Melo Neto (1997:122) dedicou um poema em que diz:

Ao capitão Abreu e Lima

concederam estranha honra:

ele foi convidado a ver

fuzilado o pai, padre Roma.

O capitão Abreu e Lima

antes a distração concedida

se foi de quem a concedeu:

o rei e o vice da Bahia.

Se foi para a Venezuela,

vestir a farda de Bolívar:

não era a sua, mas pregava

uma independência com vida.

Abreu e Lima, na Venezuela, chegou a capitão do exército de Bolívar, repatriou-se ao seu país em 1832 e teve uma agitada vida política, ainda escrevendo obras em que exaltava o povo, e por isso, sendo perseguido por aqueles adulteradores da história, para quem a revolução de 1817 foi um mero caso de polícia, como pensava Varnhagem:

José Inácio de Abreu e Lima, figura singular que aguarda interpretação, o homem que escreveu livros como a Cartilha do Povo e O Socialismo, verdadeiramente surpreendente no âmbito do tempo, sofreu da campanha organizada no Instituto Histórico, já sob comando de Varnhagem, contra sua maneira de reconstituir o passado. (grifo nosso). (SODRÉ. Idem. p.225).

Outro estudante das armas (assim como José Inácio de Abreu e Lima que teve destacada participação na Revolução) foi o jovem revolucionário de 25 anos, aluno da Academia Militar de Pernambuco, Antônio Henrique Rabelo.

Este cearense (era Tenente e estava entre os Oficiais Militares que desobedeceram à ordem do Governador de Pernambuco, Caetano Pinto de Miranda Montenegro, de prender os revolucionários Domingo José Martins, p. João ribeiro Pessoa, Antônio Gonçalves da Cruz, de vulgo Cabugá, o Capitão Domingos Teotônio Jorge e outros mais) não atendeu a convocação de prisão e junto com os revolucionários ajudou a proclamar o Governo Republicano. Calmon (op cit:1431) falou que logo após a sublevação rebelde dos militares “Saiu o Tenente Antônio Henrique Rabelo à soltar os presos” da Fortaleza do Brum.

Nem diante da morte os jovens tinham medo e a desafiavam como um verdadeiro herói do povo, não acima da sociedade, mas como exemplo de quem acreditando num ideal de liberdade e sem tergiversar luta por ele até o fim, mesmo que este fosse a morte e esta tivesse a frente .Foi o que fez o jovem revolucionário.

Aqui em Pernambuco a primeira vítima imolada foi o benemérito cearense e herói Antônio Henrique Rabello. Descoberto e preso nos fins de junho, foi conduzido à presença da comissão militar, de fronte erguida, sem mudar de cor, não se quis defender, antes gloriou-se dos seus feitos, confessando claramente os seus princípios e desafiou a morte.

A sua intrepidez espantou os juizes, a sua constância e serenidade, no cadafalso, enterneceu o mesmo algoz, preto encanecido no ludibrioso ofício; antes de estreitar a corda ao pescoço da vítima, que ia ser imolada, lhe pedia mil perdões; esta amorosamente o abraça e penetrada de entusiasmo exclama pela última vez “Viva a Pátria!”.

Que diferença entre este herói e o célebre “Tiradentes”, a quem se quer erguer uma estátua!

Depois de morto, a sua cabeça foi decepada e exposta na ponte do Recife e aí consumida pelo tempo! Esta execução teve lugar no dia 5 de julho de l8l7, e foi o primeiro sangue que irrigou em Pernambuco a soberba árvore da liberdade nessa malograda revolução. (CODECEIRA, 1990:69-70).

OS PIONEIROS DAS LUTAS ESTUDANTIS NA PARAÍBA

Os estudantes paraibanos não ficaram fora do movimento político geral. Ao contrário, e em particular, como precursores das lutas estudantis na Paraíba, foram parte integrante da Revolução de l8l7. E de um lado, junto aqueles estudantes a pouco apreciado, deram continuidade a trajetória de participação estudantil em favor de ver o Brasil liberto do regime absolutista e dos comparsas do governo joanino espalhados pelas províncias brasileiras, especialmente no nordeste.

A participação sócio-política dos estudantes paraibanos ocorreu condicionada a educação ideológica semeada pelo Seminário de Olinda, pela Academia Militar de Pernambuco e pelas academias maçônicas. Isto ocorreu pelo fato da Paraíba não ter até então instituições de ensino secundária e superior que proporcionassem a juventude o acesso cultural acumulado pela humanidade. As academias secretas e maçônicas também influenciaram na educação política dos estudantes da Paraíba, porque muitos padres rebeldes e revolucionários que faziam parte delas articulavam os seminaristas as mesmas. Além disso, estas associações – ilegais para o despotismo e seus comparsas, mas certamente justas e legais para os revolucionários – vinculam os estudantes das armas, igualmente, às idéias revolucionárias por intermédio dos oficiais que faziam parte da Academia Militar de Pernambuco e das Tropas Reais. Peregrino Xavier de Carvalho, por exemplo, teve acesso às idéias liberais tanto pela Academia Militar quanto pelas associações maçônicas da qual seu pai fazia parte.

Assim que o movimento revolucionário triunfou em Pernambuco e se instaurou o Governo Republicano declarando a Independência do Brasil a Portugal, surge na Paraíba à participação política dos estudantes em prol da liberdade, com o corpo físico em movimento e em conformidade com os ideais republicanos, que guiaram suas ações e sendo por elas guiados.

Pode se dizer, por comparação, através da musa popular “da Honra” – poema composto na época em homenagem a tomada da guarnição no Campo do Erário pelos rebeldes, em Recife ( por isso chamado “da Honra”) – que os pioneiros das lutas estudantis na Paraíba estavam esperando apenas ouvir o eco do canto popular, que dizia:

No campo da Honra

Patrícios formemos,

Que o vil desportismo

Sem sangue venceremos.

Quando a voz da pátria chama,

Tudo deve obedecer;

Por ela a morte é suave

Por ela cumpre morrer.

Quando se ajuntarem

Quarenta mil patriotas

Então veremos surtir

Derrota sobre derrotas.

(CALMON, 1973:109-110).

Ao ouvirem a voz da pátria chamando para levantar as bandeiras brancas, símbolo da revolução, e a lutar contra o vil despotismo na Paraíba logo correram às armas: um estudante delas já as possuía nas mãos e cuidou de pronto em tê-las firmes; outro estudante, agora um seminarista, deixou os livros de Diderot, D’Alembert, Rousseau e Voltaire de lado e mobilizou-se a política prática, como ensinavam os mestres franceses; de igual maneira, fez outro recém estudante seminarista e professor iniciante, quando se desfez das lições dos abades Mabli e Raynal, que lia para lecionar em Pilar, e, acompanhou a realidade histórica, em vez de contemplá-la pela história escrita.

As imagens formuladas a respeito dos estudantes paraibanos podem ser apenas proposições de estados possíveis. Não obstante, o fato é que todos os estudantes, respectivamente, em Itabaiana e Pilar e na capital Paraíba ( o nome João Pessoa só aparece a partir de 1930) vieram a ser os pioneiros das lutas estudantis em nosso Estado e levaram-nas a efeito conectados com as lutas gerais estabelecidas no Brasil.

Muniz Tavares (era um jovem de 24 anos e recém estudante seminarista, aquele ao qual Arruda Câmara pede aos revolucionários que cuidem de sua formação política. Segundo Sodré: “(...) [1793-1876] nasceu no Recife, onde fez os primeiros estudos, recebendo ordem sagras em l8l6 na Bahia. Envolveu-se na Revolução de l8l7, sendo preso e deportado para a Bahia”. (op.cit:249)) é quem testemunha e descreve os acontecimentos da participação estudantil na Paraíba. Segundo o jovem revolucionário de Pernambuco (Muniz escreveu isto logo após a Revolução de 1817):

Para a glória da Paraíba não teve lugar a medida da contemplação. No interior da província rebentou improviso o grito da independência e liberdade; a povoação de Itabaiana teve a primazia, uma circunstancia particular ocasionou esta honra: era aí e na sua vizinhança que habitava a maioria dos jovens educados em Pernambuco, entre os quais apontava-se um Manuel Clemente Cavalcante, que a juízo claro reunia coragem: decidido, cheio de entusiasmo, e muito mais de ambição, ao primeiro indício do movimento de Pernambuco ele voou à casa dos amigos, aconselhou a aproveitarem-se do tempo e a mostrarem-se êmulos dos libertadores da pátria. (grifo nosso). (apud. MAIA, 1975:155).

Podemos conferir na consideração de Muniz Tavares, historiador da Revolução Pernambucana de 1817, que ao iniciar o movimento revolucionário na Paraíba, em especial na cidade de Itabaiana, apareceu liderando os jovens estudantes itabaianenses Manuel Clemente Cavalcante. Esse, logo que se informou da tomada do poder em 6 de março no recife, reuniu coragem e procura imediatamente seus colegas seminaristas para aderirem à causa da liberdade e defender a pátria.

Mas, teriam estes estudantes seminaristas e o colega Manuel Clemente participado do movimento revolucionário? Sim. Oliveira Lima (apud.MAIA. idem. p.156) é claro ao dizer que o movimento republicano na Paraíba “arrebentou por si em Itabaiana” e que foi aí “iniciado por alguns jovens educados no Seminário de Olinda”. Isso mesmo! Uma revolução iniciada pelos estudantes paraibanos tendo a liderança de Manuel Clemente.

Esse estudante seminarista, liderança estudantil em Itabaiana, não influenciou apenas os outros estudantes rebeldes a virem tomar partido da Revolução. Convenceu também seu pai a fazer parte da insurreição. Miniz Tavares (apud. Maia. Idem. p.155) assinala que:

Era esse homem (João Batista do Rêgo) ignorantíssimo e feroz; capitão de ordenança do Distrito, régia com Pachá, todos o temiam – O Altivo Capitão (pai) prestou-lhe atenção (a Manoel Clemente Cavalcante), aprovou a empresa e que diz ele mesmo dirigi-la. – a bandeira branca, símbolo da insurreição, foi içada com estrondosos vivas da multidão que não ficou ociosa, pois que o Rego vendo-a armada com as espingardas de caça, únicas armas de que se podiam valer, mandou distribuir-lhes à sua pólvora e bala competentes.

Na cidade paraibana de Pilar não demorou muito tempo para que o jovem rebelde Antônio Pereira de Albuquerque ergue-se a bandeira do movimento revolucionário. Esse ex-estudante, a pouco saído do Seminário de Olinda, ingressou nas fileiras da tropa em prol da República, ao passo que ela marchava vindo de Itabaiana para a capital. Segundo Horácio de Almeida (1997:88-89): “quando as tropas da revolução se deslocaram do interior para a capital ele (Antônio Pereira) vinha á frente (...)”. (acréscimo nosso). Na capital encontrava-se José Peregrino Xavier de Carvalho, o estudante das armas que se juntará ao movimento e as duas lideranças do interior: Manuel Clemente e Antônio Pereira e demais estudantes.

Enquanto o movimento republicano vem se organizando e tomando corpo a partir do interior, no centro do poder o Governo Legalista (formado por Francisco José da Silveira (ajudante), André Álvares (ouvidor) e Manuel José Ribeiro (Conselheiro Municipal); com exceção do primeiro, os demais eram comparsas de corpo e alma do governo joanino) determinou entre 8 e 10 de março, quando chegaram às notícias do levante em Pernambuco, à defesa da capital paraibana. Para tanto, deu ordens recomendando “(...) a vigilância na costa e nas estradas, o fabrico de munições e o recrutamento, convencionando com as tropas e com o povo sinais de reunião e guerra”. Ademais, “A defesa da cidade com todos os recursos existentes, foi entregue ao comandante da infantaria Estevão Carneiro e ao comandante de milícia Amaro Coutinho”.

À medida que os preparativos para a defesa se processavam no âmbito do Governo Legalista tendo a frente disso Manuel José e André Álvares, paralelamente, os revolucionários conspiravam e agiam no sentido contrário, dessa vez articulado, principalmente, por Amaro Gomes Coutinho, Francisco José da Silveira, Estevão Carneiro e José Peregrino. Suas manobras em favor do estabelecimento de um Governo Republicano na Paraíba iam se gestando, porém, necessitava de apoio para se consolidar.

Para este fim, o movimento rebelde do interior marchava a passos largos pela vanguarda de dois estudantes seminaristas que ampliaram o movimento não só com o seguimento dos padres, mas, igualmente, com os setores sociais dos proprietários de terras, engenhos, fazendas e escravos, ganhos para a causa republicana, bem como, dos militares e demais setores.

(...) as gentes de Itabaiana e Pilar agitam a bandeira da revolução à voz Manuel Clemente e Padre Antônio Pereira de Albuquerque. O Grito dos Moços é secundado pelos ricos e prestigiosos fazendeiros da região. André Dias de Figueiredo – acréscimo nosso – (capitão-mor, participou do Aerópago de Itambé e pai de Antônio Pereira, que fazia parte da Academia do Paraíso), João Batista do Rego Cavalcante de Albuquerque (capitão-mor e pai de Manuel Clemente, que o induziu a Revolução), Inácio Leopoldo de Albuquerque (agricultor) e Manuel da Costa Lima (senhor de engenho) que marcham para a capital, unidos e fortes no entusiasmo do primeiro ímpeto à frente das tropas populares. “As forças do interior que a 15 de março entraram na cidade, trouxeram um efetivo de dois mil homens sob o comando do sargento-mor Antônio Galdino e do sargento Costa Lima e acompanhados daqueles senhores de engenho, sacerdotes e moços ilustres que as levantaram desde Itabaiana até Santa Rita”. (grifo nosso). (MURIZ. Op cit:87-88).

A partir deste reconhecimento histórico, como se vê nas considerações acima, o movimento revolucionário foi gestado em Itabaiana e Pilar por intermédio do “grito dos dois moços”, daí “secundado pelos ricos e prestigiosos fazendeiros da região”. Nesta perspectiva, as forças arregimentadas não custaram muito a chegar a capital, tendo como parte integrante das mesmas, “os moços ilustres” Manuel Clemente e Antônio Pereira, os quais “levam as tropas até Santa Rita”, adentrando ao centro do poder administrativo da Paraíba com os homens das armas, os militares. A esses se adiciona José Peregrino, jovem de 19 anos...

No mesmo dia em que as tropas rebeldes entraram na capital, após as confraternizações de “viva a pátria” entre os patriotas, como se chamava a si mesmo os revolucionários, é formado o Governo Republicano da Paraíba. Dentre os componentes do governo estava o “moço” Antônio Pereira de Albuquerque e os seguintes republicanos: Inácio Leopoldo (agricultor de Pilar), Francisco José da Silveira (Tenente-Coronel do Exército Real e Ajuntante do Governo anterior, que aderiu desde o início à República) e Francisco Xavier Monteiro da França (poeta e escritor).

Apesar do pouco tempo de duração, o governo revolucionário de 1817 adotou providências de alguma consistência. Além de extinguir as ouvidorias, suprimir insígnias reais e recolher patentes militares anteriormente concedidas, os revolucionários aboliram os impostos sobre carne fresca, lojas e tabernas, estabeleceram redução e igualdade dos direitos de alfândega com as nações estrangeiras, perdoaram os criminosos, proibiram prisões sem a correspondente denúncia e mobilizaram, militarmente, a população livre. As províncias fiscais, destinadas a reduzir a hegemonia do Recife, e a dissolução das câmaras, tendente ao estabelecimento de ditadura revolucionária que enfeixaria os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, assustaram os revolucionários pernambucanos. Para alguns desses, a Revolução de 1817 estava avançando demasiadamente na Paraíba. (OCTAVIO. Op cit:103).

A criação do governo revolucionário na Paraíba, mesmo que temporário, foi a primeira fase do processo. Este precisava ser consolidado pelo sertão da província e prestar solidariedade ao movimento republicano geral. De igual forma, o movimento geral para se consolidar tinha que interagir uns com os outros à medida que se organizassem governos revolucionários para juntos unir as forças e assim fazer frente à reação do governo joanino.

Então, diante desta linha de estratégia e tática, assim como, a Paraíba veio a ajudar na revolução do Rio Grande do Norte fazendo seguir o estudante das armas e Oficial do Exército Português na Paraíba, José Peregrino, da mesma forma, houve auxilio dos estudantes rebeldes do Ceará para com os paraibanos de Sousa e Pombal: através da atuação, neste particular, de José Martiniano de Alencar, que se solidarizou com o movimento naquelas cidades, sendo também, pelas mesmas sido ajudado quando do estabelecimento do governo republicano no Crato, cidade do Ceará.

José Martiniano de Alencar e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe (secundo Celso Muriz (op.cit:85) ambos eram “irmãos Seminaristas” – em outras palavras, estudantes do Seminário de Olinda e irmãos de leito e ordem sacra) foram dois jovens estudantes cearenses (amigos e companheiros do estudante das armas, o jovem Tenente Antônio Henrique Rabelo, partícipe de peleja ) que participaram das lutas estudantis e revolucionarias na terra natal.

Antes desses desdobramentos históricos no Ceará, observa-se que “(...) José Martiniano de Alencar, estudante do Seminário de Olinda (...)” (CALMON, 1959:1438) teve importante atuação política na Paraíba. Celso Muriz (idem.p.89) assinala que foi ele quem trouxe de Pernambuco, dias seguintes à proclamação de 6 de março, as notícias dos acontecimentos para o padre Luís José Correia de Sá, rico fazendeiro da cidade de Sousa e sacerdote filiado, por suas tendências ideológicas, ao movimento liberal. Este historiador paraibano que não omitiu a participação política dos estudantes na Revolução de l8l7, continua a considerar que: “Assim que Martiniano chegou a Sousa, proclamou-se a Republica e o grito de Luís José era de ecoar em todos os peitos, entendessem ou não entendessem a alma na vibração”.

Após esses acontecimentos, Martiniano - futuro pai do escritor e político José de Alencar - ainda veio influir na aceitação da Revolução na cidade de Pombal, onde o padre José Ferreira Nobre, logo que se informa, (soube também dos fatos pernambucanos por intermédio do estudante revolucionário) prega do púlpito a Revolução e consegue que a Câmara Municipal a proclame oficialmente.

Dilatando os raios da conquista republicana, o vigário de Pombal, Padre José Ferreira Nobre pregou do púlpito a revolução e conseguiu que a adotasse o povo e a proclamasse oficialmente a Câmara Municipal em ata redigida pelo secretário Henrique José de Almeida. Sem ter os elementos de Luís José, o padre Ferreira Nobre era mais aproximado dos chefes de Pernambuco que a ele especialmente recomendaram Martiniano. (grifo nosso). (MURIZ.idem.p.90).

O estudante cearense, amigo dos estudantes paraibanos Manuel Clemente e Antônio Pereira, depois de ajudar os padres Luís José e Ferreira Nobre na proclamação da Republica, respectivamente, na cidade de Sousa e na de Pombal, seguiu: “(...) apostolando a idéia e se impusera implantá-la pela doutrina e pela força na capitania do Ceará, começando pela vila do Crato no sertão dos Cariris Novos”. (MURIZ idem.p´.89).

Quando aí chegou, articulou-se com o Vigário Miguel Carlos da Silva Saldanha e em seguida: “(...) O jovem Alencar e o frade falaram aos fiéis depois da missa. O púlpito serviu de tribuna revolucionaria; e a eloqüência do pregador deu a ilusão de ser unânime o movimento irradiado no nordeste”. (CALMON.idem.p.1438).

Deste acontecimento e de outros subseqüentes participaram “No Ceará, os irmãos Seminaristas José Martiniano e Tristão Gonçalves de Alencar Araripe (...)”. (MURIZ.idem.p.85). Ademais, além deles, veio a fazer parte do movimento rebelde o jovem cearense e estudante das armas Antão Henrique Rabelo.

As lutas para a consolidação do governo revolucionário na capitania do Ceará se recrudesceram diante á reação do governo legalista local e geral, todavia, quando os estudantes Tristão, Rabelo e Martiniano, parte constitutiva do movimento rebelde cearense, necessitaram de ajuda, os paraibanos souberam prestar solidariedade a seus companheiros.

Quando este (Martiniano) apertado no meio hostil do Crato, quis abrir as consciências ou animar as vontades para a República ao brandir do chavinote e do pau, recorreu ao chefe sousense e logo no Rio do Peixe se arregimentaram numerosas forças para a conquista do Ceará. Comandou o exército de 1100 homens o sargento Francisco Antônio Correia de Sá, cunhado de Luís José. Ajudaram-no outras figuras da terra (...).

De Pombal incorporou-se às tropas de Luís José a companhia de Antônio Ferreira de Sousa, dos seus irmãos José e Manuel Ferreira, de José Ferreira Filho e Manuel Ferreira Nobre, todos amigos e parentes do vigário, chamados por este à sustentação da Independência. (MURIZ. Idem.p.91).

Se o estudante cearense ajudou ao movimento republicano consolidar-se em Sousa e Pombal, sendo, conseqüentemente, auxiliado pelas mesmas cidades na consolidação do governo rebelde no Crato, também o jovem paraibano José Peregrino prestou assistência aos riograndenses.

Este estudante não era seminarista assim com seus conterrâneos Manuel Clemente e Antônio Pereira ou os cearenses José Martiniano e Tristão Araripe ou mesmo o pernambucano Muniz Tavares, mas, um estudante das armas como o pernambucano Abreu e Lima e o cearense Antônio Rabelo.

Irineu Pinto (1977:205) ao reconstituir a vida estudantil do jovem herói José Peregrino Xavier de Carvalho expõe que por ele não encontrar:

(...) espaço em nosso meio, para ascender a glória do saber, pela falta de Academias e Lyceus, recorre ao Poder Régio e vê coroado os seus esforços pela ordem de 12 de abril de 1809, que o manda cursar a Academia Militar de Pernambuco, onde parece que se conservou até 1813, quando outro aviso, datado de 29 de julho deste ano, concede nova licença para continuar os seus estudos na mesma Academia (...). Pelo aviso de 29 de setembro de 1814 lhe foi concedido freqüentar a Universidade de Coimbra, conforme requerera, ainda sem prejuízo de vencimento e pelo de 28 de novembro de 1815, a cursar os estudos de matemática na Academia Real Militar do Rio de Janeiro, onde creio que não chegou a ir, porque o Aviso de 17 de agosto de 1816 declarou que em vista de não poder freqüentar as aulas de matemática no presente ano, por estar a matrícula encerrada, aguarde o ano seguinte para o mesmo fim. (grifo nosso).

Neste “ano seguinte” a Revolução de 1817 estourou-se, e, em primeiro lugar estava o movimento republicano. E sendo assim, no momento em que os revolucionários riograndenses se vêem em dificuldade para proclamar a República, José peregrino deixa de lado a matrícula da Academia Militar do Rio ou da Universidade de Coimbra e segue às trincheiras de luta para defender os interesses coletivos aos quais estava ligado.

Quem comenta a proeza heróica do estudante das armas e oficial das tropas paraibanas, agora sob o comando dos revolucionários quando vai ao Rio Grande do Norte, é Correia de Andrade (apud. AQUINO, 2000:395-3960):

No Rio Grande do Norte o movimento foi comandado pelo senhor de engenho André de Albuquerque Maranhão, e partiu de Cunhaú contando com o apoio de 50 homens enviados da Paraíba sob o comando do jovem oficial José Peregrino. Ele marchou sobre Natal, sem encontrar resistência e ocupou a cidade, organizou uma junta de Governo proclamando a Independência e a República.


O jovem oficial José Peregrino











Cascudo (1952:96), historiador riograndense, considera a atuação do jovem oficial paraibano na capital do Rio Grande do Norte, dizendo que:

No dia 30 de março chegou o reforço militar da paraíba, cinqüenta soldados comandados por José Peregrino de Carvalho, figura moça, airosa, entusiástica, de sugestiva vibracidade. É o anteparo e a sustentação do Governo de André de Albuquerque Maranhão. Quando ele se retira, o governo sucumbe, imediatamente, no mesmo dia e hora depois de José Peregrino marchar para a Paraíba, chamado pelos seus correligionários. Na madrugada de 25 de abril de 1817 (...) regressa (...) com sua tropa.

Quando o jovem estudante põe os pés em Trincheira, bairro sul da capital paraibana, a contra-revolução havia praticamente sufocado o movimento revolucionário. Neste momento final, uns souberam portar-se estoicamente e heroicamente como José Peregrino, porém, outros tiveram comportamentos diversos como seu pai, que iludido com as promessas dos comparsas do governo joanino, passou para o lado do El-Rei. Em virtude dessa reconciliação, saiu ao encontro do filho, temeroso que prosseguisse a luta contra o absolutismo, estimulando-o a baixar as armas. No ensejo acontece, diz Luis Pinto, uma cena tocante, pois, o herói revolucionário replica ao pai por sua atitude covarde, mas afinal cede, embora tivesse a certeza de ser sacrificado.

Augusto Xavier de Carvalho, seu pai, mesmo que viesse a ter uma participação importante na Revolução do Equador em 1824, assinando como Deputado Federal o manifesto revolucionário contra o então governo de D. Pedro I, após a dissolução da Assembléia Constituinte, demonstrou em 1817 ser um quadrado e tacanho. No início do processo revolucionário tinha – para ilustrar sua posição – “Deus” como a República e o “Diabo” como a Monarquia. Quando se intensifica ferozmente a contra-revolucão, empreendida pelo governo joanino e aliados conservadores, vergonhosamente posiciona-se de maneira covarde e traiçoeira, vendendo a alma ao “Diabo”, à medida que por apego a velharia do absolutismo, renuncia os ideais republicanos.

No que dizia respeito ao filho, antes era dado a súbitos e extemporâneos acessos de intimidade para com José peregrino, ensinando-lhe, num rastro de pseudo-generosidade ideológica, a Republica em contraste as experiências acumuladas em astutas calhordices da Corte Joanina, com a qual veio de Portugal. Contudo, diante do filho heróico, foi incapaz de dá-lhe aquela orientação progressista de valor político até o fim. José Peregrino, ao contrário não vacilou em nenhum instante, porque era um jovem herói e revolucionário, aprendendo muito mais com os seus companheiros (os “moços”, “os irmãos Seminaristas”, os estudantes das armas - Abreu e Lima e Antônio Rabelo-, o “rapaz brasileiro” ou os revolucionários maduros e experimentados) do que o covarde e traiçoeiro pai.

Diferente do pai, entregaria cem vezes a vida pela revolução, tendo fidelidade ao canto “da honra”: “quando a voz da pátria chama/ tudo deve obedecer/ por ela a morte é suave/ por ela cumpre morrer”. Assim o fez sem rodeios. Era um republicano de coração e mente com apenas 19 anos de idade, não obstante, seu pai precisaria de no mínimo 200 anos pela certidão de nascimento para igualar-se ideologicamente ao filho revolucionário e se aproximar da atuação prática dele em momentos decisivos da luta política.

Hegel dizia em certo lugar que “Não há verdade abstrata, a verdade é concreta”, em outras palavras, o filósofo alemão queria dizer que não se pode enunciar uma definição senão de um fato definido. Sigamos sua advertência. O relato do encontro entre o “jovem oficial” e o pai a seguir, pelo interesse que desperta, merece ser aqui transcrito para que melhor exemplifique o que atrás foi enunciado. É Luis Pinto (1973:75-76) quem reconstitui e nos transmite o dialogo entre José Peregrino e Augusto Xavier.

José Peregrino Xavier de Carvalho retornou do Rio Grande do Norte, onde deixou a republica proclamada, mas já encontrou sua terra dominada novamente pelos portugueses.

O encontro do herói com seu velho pai, Augusto Xavier de Carvalho, se dera nas Trincheiras. O velho, com lágrimas nos olhos, concita o filho guerreio a depor as armas. Dá-se no momento um diálogo emocional entre o velho Augusto, ludibriado pelos portugueses, e José peregrino, o soldado impávido e vitorioso.

Diz o velho: “Depõe essas armas! Depõe essas armas! Aqui já não há mais pátria; a pátria é o Rei; a Paraíba voltou a El-Rei. Rogo-te meu filho, depõe essas armas”.

O jovem soldado encarou-o fixamente, exclamando: “Senhor: eu compreendo tudo. Aqueles monstros vos enviaram a mim. Prometeram-vos salvar-me se eu capitular, não é verdade? Por que vos deixastes seduzir, meu pai? Não vedes que eu estarei perdido, que serei preso e condenado á forca, se depuser estas armas, se entregar esta espada que a Pátria me confiou para defendê-la, para defender a República? Vos deveréis ser o primeiro a guiar os meus passos na estrada da honra, meu pai!.

O velho Dr. Augusto Xavier de Carvalho estava transformado com o gesto varonil do bravo filho. Parecia um defunto, tão desfigurado se achava. Mesmo assim insiste:“Filho, eu te rogo! Pelo amor que tens á tua pobre mãe, depõe essas armas!”.

A soldadesca, afanosa e cheia de brios, percebia o quadro que se passava naquele momento e aguardava a voz de comando de José Peregrino. Alguns, não tolerando o que se passava, ainda bradaram com energia:“Comandante, não capituleis: Viva a Pátria”.

Peregrino de Carvalho sentia revolta, tremia de cólera, mas chorou encostando a fronte no ombro do velho pai. Mas, logo se reergue e, encarando seu genitor, como se tivesse sido dominado por nova força, dirige-se ainda ao interlocutor:

- “Os nossos inimigos enviaram-vos porque me teme”.

Sim, porque eu os desbaratei na primeira arrancada. Voltai, pois. Declarai-lhe que José Peregrino Xavier de Carvalho morrerá pela Pátria, se essa é a vontade de Deus. Voltai! Voltai!

“Viva a Pátria, gritaram os soldados unissonamente, levantando as armas”.

O velho Augusto, quase desanimado, ainda se dirige ao filho:

“Filho ingrato! Queres ver teu pai morto agora mesmo aos teus pés? Rogo-te por esta sagrada imagem! E apresentou-lhe o Crucifixo. – Lembra-te de tua mãe que chora por ti. Depõe essas armas. Rogo-te meu filho: Depõe essas armas!”.

Era um instante de amargura. O herói sentia-se indeciso. Ceder aos rogos do pai contra seus ideais, ou morrer as mãos assassinas do inimigo?

“Quereis (falando ao pai) que eu seja um infame, traidor da pátria, vós que devias ser o primeiro a me dar o exemplo da dignidade e da honra! Quereis que eu me entregue aos meus inimigos, que eu seja posto em ferros, que eu vá estrebuchar numa forca? Pois seja, o vosso filho vai obedecer-vos. Estais satisfeito?!”. Desembainha a espada e a entrega ao pai”.

A reação do governo joanino foi brutal e impiedosa. Queria matar os comportamentos e as idéias revolucionárias, risonho engano porque estas idéias não se matam. Mas, a ação contra-revolucionária por mar e por terra, bem armada, sufocou o movimento revolucionário que durariam 75 dias.

Até os últimos instantes as forças rebeldes na Paraíba resistiram e lideradas por Amaro Gomes Coutinho não vacilaram sobre as pernas, pois, quando soube que a reação marchava à capital, saiu ao encontro das tropas a serviço do Rei D. João VI para defender a jovem República, porém, traído teve de assinar o termo de capitulação em 6 de maio.

O traidor foi Francisco Xavier Monteiro da França, pseudo e facínora revolucionário que tivera feito parte do Governo Republicano na Paraíba. O historiador governófilo de quinta categoria, Horácio de Almeida (idem. p.90) assevera que ele “empenhou-se para que a tropa se rendesse debaixo do título de capitulação”, justificando no calor da hora, que era para “evitar efusão de sangue”. Atitude mais do que covarde, porque a efusão de sangue não deixaria de cair sob os revolucionários.

Inútil também é a justificativa do historiador paraibano que procurou defender aquele que na intenção de salvar sua alma criminosa mandaria os verdadeiros homens de ação revolucionária à morte. Eis a defesa conservadora de um tipo governófilo:

O fato que se viu em Francisco Xavier Monteiro da França, de renegar a revolução a que servira, não é fraqueza que diminua o mérito do revolucionário. Quase todos fizeram a mesma coisa, não por arrependimento, mas aterrorizado diante do patíbulo. Não é covardia o indivíduo corre de um bando que só cuida de matar e despojar as vítimas. Os presos estavam entregues à sombra de oficiais portugueses que tinham prazer em tripudiar sobre cadáveres, despedaçando-os, depois de seqüestrar seus bens, sem comiseração pela sorte da viúva e filho menores. (idem. p.90-91).

Após a capitulação das tropas rebeldes e de Amaro Coutinho, restaurara-se a ordem absolutista, e, daí, seguiu-se a devassa através de um tribunal contra-revolucionário. A carnificina que amedronta o pseudo “revolucionário” logo recai sobre os verdadeiros mártires das lutas pela independência do Brasil, que não traíram os ideais republicanos para se perpetuar como medíocres poetas e escritores, mas, sim, como heróis que morreram lutando contra um regime opressor.Lista numeradaLista com marcadoresBloco de textoLista numeradaLista com marcadoresBloco de textoLista numeradaBloco de textoLista numeradaLista com marcadoresBloco de texto


Beco do Zumbi, local em que ficou exposto a cabeça e as mão de Amaro Gomes Coutinho

Dentre os mártires estavam dois estudantes: o jovem revolucionário José Peregrino Xavier de Carvalho – forçado pelo pai a capitular, coisa que faz para salvá-lo, mas em todo caso, não capitula por covardia, ao contrário, foi republicano até o fim – e um dos “moços”, o padre Antônio Pereira de Albuquerque que morreu de fronte erguida. Junto com os dois foram igualmente mortos: Amaro Gomes Coutinho, Inácio Leopoldo de Albuquerque e Francisco José da Silveira. Cocedeira (op cit;71) diz que:

Todos eles se portaram como verdadeiros patriotas nos seus últimos momentos: as suas mãos foram cortadas e as cabeças decepadas e remetidas para a Paraíba a fim de serem erguidas em postes e consumidas pelo tempo: os troncos, do mesmo modo, arrastados a cauda de cavalos até o cemitério de Santo Antônio.

O jovem José Peregrino morreu com apenas 19 anos. Horácio de Almeida (idem. p.87) que a seu respeito é mais realista, diz que: “(...) foi morto pelo sonho de querer arvorar o estandarte da liberdade, que o absolutismo converteu em crime de lesa majestade”, ou seja, crime de traição ao rei. Quanto ao que fizeram dos membros de seu corpo, considera que, “foram pregados a um poste na Rua das Trincheiras (lugar onde foi pego pela reação)”. Quanto ao colega de José Peregrino, Antônio Pereira, o autor nos leva a observar que: “Do alto do patíbulo falou ao povo, assumindo inteira responsabilidade pelo que aconteceu na Paraíba e mais não disse por que o carrasco o empurrou para a morte. Suas mãos foram expostas na vila de Pilar, a cabeça na cidade da Paraíba”.

O jovem estudante Manuel Clemente Cavalcante teve que sofrer na prisão junto com todos os envolvidos na Revolução de 1817 (incluindo aí os estudantes revolucionários, Muniz Tavares, Abreu e Lima, José Martiniano e Tristão Araripe). Porém, permaneceram firmes nas suas convicções, se preparando para as futuras lutas que se avizinhavam, como as de 1824. Antes, estudavam, lecionando uns aos outros.

Os sobreviventes eram dignos dos mortos. Na cadeia da Bahia, eles davam os ergástulos em escola, onde Felipe Mena e o padre Muniz lecionavam francês aos companheiros; Manoel Clemente e Vilela Tavares inglês; Antônio Carlos, além desse idioma, princípios de Direito cívico; Pedro da Silva Pedrosa aritmética e álgebra; Frei Caneca geometria e cálculo; Basílio Torreão Geografia Universal. Porque mesmo diante da morte, sob o irracudo olhar das comissões militares, ainda os fascinava a cultura secundária e superior. E como os chefes tinham sabido morrer, sem uma crispação, eles sofriam no cárcere a fome, sem gemido, recitando as fábulas de La Fontaine. Mestres e alunos, embora famintos, eram sobejamente orgulhosos para esmolar um bocado de pão ao Conde dos Arcos. (VIERA. Op cit:40-41).

O reconhecimento histórico dos acontecimentos peculiares à Revolução Pernambucana de 1817 comprova um fato indubitável: a participação política dos estudantes brasileiros no seio desta revolução. Mais, ainda em particular, mostra que impiedosamente os pioneiros das lutas estudantis na Paraíba foram partes integrantes do movimento revolucionário e republicano, chegando a arrastar para seu interior até homens maduros e experimentados. Assim foi o que aconteceu com a participação política de Manuel Clemente Cavalcante, Antônio Pereira de Albuquerque e José Peregrino Xavier de Carvalho, o herói estudante em que se representa a luta revolucionária na Paraíba, como reconheceu o historiador governófilo: “um patriota de menoridade que soube morrer pela pátria”.

Considerá-lo como herói das lutas estudantis na Paraíba é uma necessidade histórica para o movimento estudantil brasileiro, porque, sem dúvida foi um jovem estudante que soube morrer defendendo a liberdade e lutando contra o julgo absolutista de um governo velho e ultrapassado desde sua queda pela Revolução Francesa e que no Brasil é estranho aos interesses do país, como disse Prado Júnior.

A questão aqui não é rotular José Peregrino de maneira mitológica, como um “herói” classificado de “grandes homens” demiurgos da própria história, como querem fazer os governófilos da História da Paraíba, ou seja, de um ator social que estaria acima da sociedade de seu tempo, acima do processo histórico que se traduz pelos antagonismos de classes em cujo bojo se insere a ação individual e coletiva e vice-versa. Mas sim, de regatar o referencial de uma participação política que pugnou ao lado das forças progressistas contra a opressão. E como disse AQUINO (2001:09):

A opressão não tem limites. Muito menos o desejo de acabar com ela. Parece que isso tem sido uma constante no tempo e no espaço da sociedade brasileira. Confrontando ao longo de nossa existência por regimes opressivos, o povo brasileiro nunca deixou de lutar pela liberdade, mesmo que a luta, muitas vezes, não passe da fase do sonho, da utopia, não chegando a se concretizar.

Neste sentido, os pioneiros das lutas estudantis na Paraíba representaram esse espírito do povo brasileiro pela liberdade. Mais ainda José Peregrino, sem que com isso se retire o mérito de Antônio Pereira. Manuel Clemente certamente pensava desta maneira quando estava preso, pois, era digno dos companheiros jovens e estudantes mortos pelo sonho de querer arvorar o estandarte da liberdade. Por isso, devemos também ser dignos dos mortos, mas, só daqueles que os resgatamos como exemplo de quem morreu lutando contra a opressão e em favor da liberdade. Se no decorrer do tempo, vários foram os jovens lutadores que atuaram nesta linha de participação política, então, no presente devemos nos inspirar com seus ideais e suas atitudes. Porém, visando lutar contra a opressão capitalista e em favor da liberdade, isto é, por uma sociedade nova, socialista.

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