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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

A obscenidade excepcional e o direito injusto [REPASSANDO]

Dando início à série de artigos inéditos para o livro "Relações Obscenas", a ser lançado em Setembro pela editora espanhola Tirant Lo Blanch, com apoio dos Institutos Defesa da Classe Trabalhadora (Declatra) e Joaquín Herrera Flores, o Brasil 247 publica o ensaio do ex-governador Tarso Genro, sobre a excepcionalidade da Lava Jato

Tarso Genro*

As  formulações intelectuais e culturais que sempre precedem as grandes transformações sociais e políticas, seja qual for sua direção – mais conservadoras ou reformistas, revolucionárias ou não – sempre moldaram, silenciosa ou estridentemente, as práticas sociais  e as lutas políticas posteriores às rupturas da ordem estabelecida. Nas buscas  utópicas, nas lutas reformistas, nas distopias – mais ou menos silenciosas – que os homens engendram com a sua vontade política, a "práxis" vai sendo selada pela consciência adquirida pelos sujeitos contra a ordem estabelecida. Elas são mais ou menos "realistas" –  ou mais (ou menos) conscientes das limitações que a época imprime aos seus desejos.

As formulações da intelectualidade política "strictu sensu” para compartilhar destas lutas, a grande ou modesta produção artística,  as teorias jurídicas, nem sempre foram consideradas importantes pelos ativistas e por uma boa parte dos núcleos dirigentes dos grupos ou partidos que assumiam compromissos propostos pelas ideias de esquerda, ou mesmo pelos projetos democrático-humanistas, em sentido amplo. Tanto na “esquerda” socialdemocrata como nos grupos costumeiramente  tidos como mais "extremos" estas ideias foram e ainda são frequentemente depreciadas. Não raro desdenharam de contribuições decisivas da intelectualidade destinadas a projetar um novo modo de vida ou uma ordem social e econômica libertária, como se tudo já estivesse resolvido pelos grandes filósofos do dois últimos séculos.

O sacrossanto recurso de "ouvir as bases – evidentemente uma preocupação importante de qualquer direção política séria – tornou-se, neste contexto, um bloqueio ao que se convencionou chamar de "intelectualismo", tido como "complicador" do exercício da vontade revolucionária ou mesmo da luta por políticas reformistas mais radicais, colocadas em pauta principalmente a partir do final do Século XIX. Gramsci foi enfático ao diferenciar –, na ação revolucionária e democrática nacional-popular, o "senso-comum" do "bom senso comum",  este que se dá no encontro daquele, como produção teórica dos "intelectuais orgânicos”, portadores das ideias democrático-republicanas, socialistas ou reformadoras do capitalismo em crise.

* Tarso Genro é um advogado, jornalista, professor universitário, ensaísta, poeta e político brasileiro filiado ao Partido dos Trabalhadores.

FONTE: brasil247

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